Tabaccheria

As dores de cabeça são a única certeza dos meus domingos. Tem vezes em que elas já acordam comigo e me acompanham no café com ovo mexido me trazendo náusea e me fazendo voltar para a cama a cortinas fechadas. Às vezes elas esperam até ás seis da tarde .  Estamos falando aqui de dores literais, pulsantes, que começam perto da nuca e se alastram pelo crânio. Não são dores de ressaca, não são dores do ciclo menstrual, são dores dominicais.

O médico recomendou que eu beba dois copos bem cheios de água antes de recorrer a remédios, mas eu não tenho toda essa paciência. Vou logo tomando dois e espero na cama, de olhos fechados, que a dor e a náusea passem. O sono vem junto com a os remédios, e quando eu acordo, duas horas depois, a dor já foi embora.

No dia em que eu te conheci, F., era domingo, mas as dores ainda não tinham aparecido. Coloquei a aspirina na bolsa mesmo assim, jantei sozinha em um restaurante oriental moderno demais para aquela cidade, comprei balas de hortelã, errei a rua uma, duas, quatro vezes e finalmente te mandei a mensagem: estou sentada em frente à igreja.

Olhei ao redor e você não estava lá. Olhei novamente e você ainda não estava lá, mas resolvi parar de te procurar por alguns instantes para notar que a praça, que um dia eu tinha achado tão linda, estava se decompondo. A decomposição pode ser bonita, pensei, mesmo sabendo que era mentira.  Você chegou e não me cumprimentou, apenas se sentou ao meu lado e resmungou algo – uma mentira, só para me agradar –  sobre aquela praça ser sempre linda, mesmo em um domingo horrendo. O domingo não tinha sido horrendo, te corrigi, tinha apenas sido longo demais.

Eu nunca tinha visto olhos como os seus – muito escuros e caidinhos nos cantos externos, com a sobrancelha esquerda um pouco mais espessa que a direita. Eu sempre preferi olhos escuros a olhos claros. Olhos castanhos, para mim, sempre inspiraram mais confiança. Como confiar em olhos azuis, quase transparentes, que parecem querer ler nossas fraquezas sem querer compreendê-las – apenas para usá-las contra nós?

Eu te perguntei como tinha sido crescer em uma cidade como aquela – o melhor lugar do mundo, para mim. Eu cresci em uma cidadezinha triste e empoeirada, e você cresceu em Florença. Você me pediu para recitar um pedaço de um poema em português, o seu preferido. Recitei, lendo lentamente no celular, evitando te olhar nos olhos.

Hoje é domingo, F., você está a nove mil quilômetros de distância e minha cabeça já começa a doer.

 

 

 

 

Previsão do tempo

Minha primeira professora de italiano em Florença era velha, muito velha. Tão velha que fazia piadas sobre a própria idade, piadas ótimas e que sempre acabavam com uma risada de ronquinho, olhos fechados, um bater de palmas e uma ajeitadinha no casaco. Ela tinha dentes muito longos, cabelos curtinhos e grisalhos e dizia fumar muito, mas eu acho que nunca a vi fumando.

Já na primeira semana, descobri que Carla – este era seu nome – era minha vizinha. Morávamos as duas na rua Borgo Pinti, ela com a mãe, de idade incalculável e com quem saracoteava pelos mercados do quarteirão; e eu com quatro colegas de quarto de nacionalidades diferentes. A cada mais ou menos três dias, ela me abordava no início da aula pra me contar que tinha me visto correndo na rua e que era pra eu tomar cuidado com o asfalto molhado. Choveu muito naquela época e por isso a professora se enrolava em uma camisa, um cardigan e um casaco cinza que, a cada ajeitadinha pós piada sobre a velhice, revelava uma etiqueta gigantesca: Gucci.

Paciente e repetitiva, ela tinha um gosto particular por fazer aluno por aluno repetir a conjugação de um novo verbo em voz alta, o que deixava Anna, uma holandesa de vinte anos e cabelos ruivos, muito vermelha. As aulas eram sempre iguais. Enquanto os atrasados iam chegando aos poucos, ela lia a previsão do tempo. Ela amava a previsão do tempo. Em seguida, fazia uma pergunta sobre nossa rotina, sempre de acordo com o tempo verbal que estávamos aprendendo. Se a ideia era falar sobre passado, ela pedia para que explicássemos detalhadamente tudo que havíamos feio no dia anterior, desde o momento em que havíamos saído da sala de aula, até o momento em que tínhamos ido dormir. Se a aula era sobre o futuro, ela se adiantava e perguntava sobre nossos planos não apenas para a próxima tarde, mas para os próximos dez anos. Eu provavelmente menti muito.

Em nossos jantares de sexta-feira, elaborávamos teorias sobre Carla. Provavelmente ela tinha optado por não ter filhos para poder gastar o dinheiro das intermináveis escolinhas com closets repletos de casacos Gucci – uma escolha que respeitávamos e aplaudíamos, apesar de nunca comprovada. Acreditávamos convictamente que há algumas décadas houve uma fila de fiorentinos querendo se casar com Carla, mas ela rejeitava todos, pois estava fabulosamente bem sozinha com suas bolsas Prada.

Nos intervalos íamos ao bar mais próximo para tomar um café e comer biscoitos, e foi assim que descobri que Carla era conhecida na escola por ser a melhor professora dali. Era a única a olhar para o diretor com um muxoxo de desprezo quando ele a interrompia diariamente para anunciar os eventos sociais da semana.

Minhas amigas que estavam na turma iniciante tinham aulas com Nico, o professor galã. A alegria da mulherada era encontrar Nico dando sopa na Piazza Santo Spirito depois do jantar de sexta, ele sempre estava meio bêbado e se esquivava elegantemente dos assédios múltiplos de alunas de todos os continentes. Nico tinha métodos diferentões de ensino, organizava eventos gastronômicos e levava os alunos nas melhores gelaterias de Florença. Se Carla era tradicional, Nico era um rockstar. Uma noite o encontramos na praça, chapado e rindo com um amigo, feito um adolescente que acaba de fazer barulho de peido com o sovaco. Gabou-se das viagens que já tinha feito, da coleção de namoradas de diversas nacionalidades que faziam parte de seu currículo e do fato que tinha acesso a maconha, mas que não poderia nos oferecer. “Seria irresponsável”, dizia, controlando-se para se manter sério por cinco segundos.

Minha melhor amiga na cidade engatou uma paixonite platônica por Nico. Esperava por mensagens dele que nunca chegavam, sorria e chacoalhava o cabelo quando o via nos corredores, falava obsessivamente sobre ele. Um dia, dois meses após sua partida da cidade, ela recebeu um e-mail dele, com uma daquelas mensagens que os homens às vezes se dão ao trabalho de nos passar apenas para nos relembrar que um dia fomos a fim deles: “Olha, você é linda, mas me desculpe, não me soube corresponder aos seus sentimentos, passar bem”.

Em meu último dia de aula, vi que a nova turma de Nico era composta por um grupo grande de meninas mexicanas que falavam muito alto e pareciam animadíssimas em estar sob a tutela do professor mais estrela da escola. Nunca tive uma aula com Nico. Mas o fato é que enquanto Carla nos ensinava gramática com uma habilidade Jiraiya, os alunos dele mal conseguiam pedir uma entrada em um restaurante sem soar como o Yoda.

Rory Gilmore e o reajuste de expectativas

MUITOS, MUITOS SPOILERS

 

 

rory

 

Conheci as garotas Gilmore em um sábado a tarde, quando voltava de uma sessão de prova-prova de vestidos para uma festa de debutantes de uma amiga. Tinha provado cerca de 12 vestidos, odiado todos, e ido pra casa com um vestido curto, preto, de alcinhas e que me fazia parecer uma mulher divorciada de 40 anos que vai tomar Martins com as amigas em uma sexta-feira desesperada. No episódio, Rory também provava vestidos horrorosos. Para ir ao prom, acabou também usando um vestido triste feito pela mãe: azul, angelical e evidenciado por um coque apertado com cara de boa moça.

Rory Gilmore, vamos confessar, sempre foi meio chatinha: menina branca, rica, privilegiada e cheia de cagação de regras sobre livros e música. Mas a gente a perdoava, porque ela ia contra os demais personagens de séries adolescentes. Seu grande atrativo era não ser Marissa Cooper. Aos 16 anos, já tinha lido mais livros do que seria humanamente possível que um adulto perto dos 30 tivesse lido. Perdeu a virgindade somente aos 19. Sem grandes esforços, era a melhor aluna da sala, para desespero de sua futura melhor amiga e, convenhamos, melhor personagem da série toda, Paris Geller.

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Rory passou por dois namoros sem graça e sem sexo até conseguir encontrar, finalmente, alguém ainda mais rico, mais branco e mais privilegiado do que ela: Logan Huntzberger. Ei, não me leve a mal, eu sempre fui #teamLogan. Quero fugir daquele papo das problematizações com os três namorados da moça que pipocaram pela rede (todas bem reais), pois meu argumento é muito simples: Rory e Logan são one and the same. Se ele consegue tudo o que quer com um telefonema do pai, ela também o consegue com um telefonema do avô.

Quando a série terminou, Rory se formava em Jornalismo. Como boa menina privilegiada, estudiosa e com bons contatos, ela já tinha um currículo invejável: estágio no jornal do pai do namorado, editora-chefe do Yale Daily News e terminava a temporada com a notícia de que cobriria a campanha de Obama. O OBAMA, sabe. Sua carreira era sua prioridade e, por isso, quando Logan, o namorado mais branco e mais rico do que ela a oferece um casamento aos 22 e uma casa com um abacateiro, ela recusa o pedido. As meninas que amavam Rory por ela não ser Marissa Cooper podiam respirar aliviadas novamente.

Corta a cena para o momento em que, nove anos depois, a Netflix anuncia o reboot da série. O assunto era um só: com quais dos namorados da adolescência Rory estaria namorando? A discussão, além de chata, era ridícula: quem quer estar aos 32 com o casinho que deu errado aos 20? Em que mundo os fãs de Gilmore Girls vivem por acharem que, ao longo de uma década, a menina não conheceu dezenas de outros rapazes? Aos meus 27 anos, minha certeza era uma só: eu era #TeamSingleRory.

Mas Rory reapareceu, e ela não estava solteira.  Apesar de colocar alarmes no celular e avisos em post-its, Rory Gilmore – desempregada, mais chatinha do que nunca e sem teto – não arranja cinco minutos para terminar o relacionamento com o rapaz, do qual se esquece com frequência. E o trai com o ex, Logan, que pacientemente ouve seus problemas banais em DDIs trilhardários, porque ele é rico e pode bancar relacionamentos com duas mulheres em continentes diferentes.

Mas o mais decepcionante é descobrir que Rory Gilmore, conforme Mitchum Huntzberger já havia previso, não parece ser lá uma boa jornalista. Ela dorme enquanto entrevista as fontes. Ela dorme com as fontes. Ela vai a entrevistas de emprego com ar de superioridade e sem sequer pesquisar a linha editorial do veículo.

Não se trata de uma personagem que apenas quicou erraticamente abaixo na ladeira da vida – falamos aqui de um reajuste de expectativas. Rory, que um dia teve um futuro brilhante e um final feliz, foi convocada pela Netflix apenas para ter tudo isso roubado dela em quatro episódios nostálgicos demais, canastrões demais e cheios de meninas com problemas que não são reais, porque, convenhamos: quem pode se dar ao luxo de trabalhar de graça ao longo de uma estação inteira para salvar (cof!) o jornalzinho da cidade é porque, de fato, não precisa da grana dos artigos da New Yorker. Só precisa do reconhecimento que vêm deles em seu círculo pessoal. A Rory Gilmore que a Netflix despertou da cápsula do tempo jogou sua vida fora – e  o Logan nem sequer tem uma moto.

motorcicle

 

 

 

 

Carros roubados

” Você quer roubar um carro?”

Foi com essa frase que Brian abordou Mariela em uma festa universitária que acontecia em um bar no centro de Florença, em maio de 2014. Ele não era universitário – e sim, um marinheiro americano que estava na cidade apenas de passagem. Ela, estudante de design que nunca soube ao certo explicar sua origem – seus pais eram filipinos, mas por alguma improvisação ou capricho do destino, ela acabou nascendo na Alemanha e conseguindo cidadania estadunidense por meio do pai diplomata. Mariela cresceu na Holanda e se identificava como holandesa, muito embora ela não falasse sequer uma palavra de holandês e não tivesse amigos holandeses, por ter estudado apenas em escolas americanas caríssimas.

Cansada de viver com os pais e as duas irmãs em Amsterdã, viu no curso de design em Florença a desculpa perfeita para adicionar mais um país à confusão invejável que era seu mapa de origem. Levou cinco anos de estudos na Itália para que ela tomasse a iniciativa de aprender italiano, e foi por isso que eu a conheci em uma segunda-feira chuvosa quando, em saltos muito altos e calças muito justas, ela veio saltitando em minha direção para me convidar para um tradicional jantar que acontecia entre as garotas da sala de aula.

“Você fala inglês com um sotaque tão americano, nem parece que nunca morou lá”, ela me falou, em tom de elogio, como se estivesse surpresa que eu não me comunicasse por meio de tambores. Por algum motivo estranho, agradeci, como se aquilo fosse realmente um comentário lisonjeiro. É que Mariela era uma das meninas mais bonitas que eu já tinha visto, do tipo que faz com que as pessoas queiram muito ser suas amigas – até porque ninguém quer ter uma menina bonita como ela como inimiga. Ela tinha traços orientais, bochechas altas e cabelos muito pretos e volumosos, com cachos que se formavam ao longo do comprimento e terminavam em uma cascata perto da cintura.

Acho que ela foi a primeira pessoa a ser legal comigo quando cheguei à cidade, então eu a apresentava a todas as pessoas que eu ia conhecendo pouco a pouco. Por morar em Florença há mais tempo que as outras meninas, Mariela agia como uma forma de guia local – sabia dos melhores restaurantes, já tinha ido a todas as boates e conhecia os melhores gelatos. Aos 25 anos, nunca tinha tido um emprego na vida, graças ao pai rico, que permitia que cada uma das três filhas vivesse como desejasse em uma parte diferente do mundo.

Estive apenas uma vez em seu apartamento alugado no bairro Santa Croce. Seu quarto era o maior da casa, e a porta, grande e antiga, era completamente marcada porque ela havia brincava de tiro ao alvo na madeira escura. O acordo era que faríamos um trabalho para a aula da semana seguinte, mas passei a tarde cochilando enquanto a observava atirar dardos e destruir pouco a pouco a parede centenária.

Mariela passava três horas por dia na academia que ficava na rua da minha casa, cuja mensalidade de 90 euros me causava arrepios. Os exercícios lhe eram passados por seu namorado via skype, e ela dava longos discursos sobre os melhores horários para ingerir carboidratos, enquanto nos estufávamos de pizza em um restaurante próximo à escola. “O Brian não pode nem sonhar que estou comendo isso”, choramingava. Fazia pouco tempo que ela tinha aderido ao vegetarianismo, após uma tentativa frustrada de se tornar vegana –  a experiência durara menos de 48h até que ela se sentisse fraca, faminta e muito desmotivada, então ela decidiu se contentar em cortar apenas a carne da alimentação. Ela me contava frequentemente sobre um garoto brasileiro com quem tinha namorado por algumas semanas, mas com quem tinha terminado por perceber que era “muito histérico e infiel”. Dei de ombros. Parecia verídico.

Por coincidência, Mariela dividia o apartamento com Anna, uma holandesa de 19 anos e olhos assustados que estava passando uns meses na Itália antes de iniciar a faculdade de Moda em Amsterdã. As duas chegavam sempre juntas à escola, aos jantares e a qualquer passeio que combinávamos de fazer juntas, de forma que pareciam inseparáveis. Mariela era alguns anos mais velha que Anna e, por isso, a tratava como um tipo de irmã quando saíamos em grupo – na verdade, todas nós fazíamos isso, de forma que Anna era a única a ser acompanhada até a porta de casa por todas nós quando voltávamos de madrugada de alguma noitada.

A única coisa que Anna e Mariela tinham em comum era a Holanda. Se Mariela nunca tinha recebido um salário na vida, Anna, com seus poucos anos, tinha trabalhado dois turnos por meses para economizar o dinheiro para manter-se na Itália. Em um passeio a um museu na companhia da holandesinha, descobri que ela odiava Mariela. Precisei parar por um momento. “Mas por que, Anna? vocês até mesmo se vestem como se fossem irmãs”. Ela então me contou que não suportava que Mariela se dissesse holandesa sem nunca ter se dado ao trabalho de aprender o idioma. “Não te parece estranho ela só ter tomado a iniciativa de aprender italiano agora, depois de cinco anos na Itália?”. Sim, parecia. Mas ao mesmo tempo, me parecia também uma atitude muito americana, e embora Mariela se apresentasse como holandesa, ela era o retrato de todas aquelas garotas que vemos em reality shows americanos.

Aparentemente, Mariela não ajudava muito nas atividades domésticas, passava horas falando alto com o namorado no skype e deixava longos fios de cabelo preto entupindo o ralo sem cerimônia alguma. Ao ouvir o relato de Anna, as demais garotas começaram a também desabafar. Era unânime: todas detestavam Mariela.

A informação me pegou de surpresa. Apesar da  fama de superficial, Mariela tinha me contado com detalhes toda a história dos Medici, que tinha aprendido ao longo das aulas de design. “Deveriam fazer uma série sobre eles, como fizeram sobre os Tudors”, concluiu, pensativa. Ao longo de um de nossos almoços na pizzaria, ela me contou sobre uma aposta que tinha feito com o namorado – aquele que conseguisse passar mais tempo sem se masturbar, teria que pagar ao outro um jantar.

“Mas como você vai saber se ele não está mentindo?”, eu perguntei.

“Ah, acredite, eu vou saber”.

Pascale, minha colega de apartamento e, de certa forma, minha amiga mais próxima naquele contexto, também detestava Mariela. Ao saber que ela tinha demonstrado interesse em ir conosco à Sicília, Pascale foi categórica: não a queria conosco em Palermo. Fiquei sem resposta.

Com o passar dos dias, fui me afastando lentamente de Mariela. Como não sabia como dar a má notícia a ela, a evitava nos corredores da escola. Ao perceber a infantilidade da coisa toda, peguei o telefone e a convidei para ir comigo a Casa Buonarroti, um museu sobre Michelangelo que eu sabia que ela ainda não conhecia. “Não posso, se eu não for a academia hoje, meu namorado me mata”, justificou. Ela começou a sentir o clima hostil das demais garotas e começou também a se afastar, indo embora de vez em um feriado com a desculpa de que iria visitar os familiares. Anna me mandou uma mensagem naquela tarde: “the bitch is gone”.

Tudo o que soube sobre Mariela desde então vem de suas redes sociais: terminado o curso de italiano em Florença, foi visitar o namorado nos Estados Unidos. Voltou em seguida para a Holanda. Engatou, então, mais um curso em Milão. Virou vegana de vez. Semana passada, ela atualizou a foto de perfil: acompanhada de uma amiga loira, vestia um maiô colorido, fazia cara de susto e tampava a boca com a mão esquerda. Ao fundo, uma praia rochosa italiana, acompanhada da legenda: “capa de cd de rap dos anos 90”. Todas as meninas do nosso pequeno grupo curtiram a foto.

Milão e eu

 

Milão, ❤

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Milão não é uma daquelas cidades que tenham me causado amor à primeira vista. Na verdade, nas três vezes em que a visitei, tive que me esforçar para procurar coisas que gostasse na cidade, tão grande e urbana, onde turistas se enfileiram para usar o banheiro McDonald´s e homens parecem competir pelo prêmio de cabelo mais estiloso. Meu descaso com a cidade sempre revoltou Nicco, que em nosso primeiro passeio pelos canais de Navigli, não conseguia disfarçar que preferia que eu tivesse mentido por educação e dito que Milão era a cidade mais incrível que já havia conhecido.

“É um pouco como São Paulo”, ele tentava argumentar, gesticulando em desespero ao me ouvir rebater que detesto São Paulo. Percebi que deveria reconhecer o esforço do rapaz para trazer uma referência mais próxima da minha realidade para tentar despertar em mim alguma ternura pela cidade que ele havia escolhido para viver, tão longe daquela em que nasceu, no sul da Itália. Nicco tinha um melhor amigo e colega de quarto que também se chamava Nicco. Juntos, eram o estereótipo do homem milanês, sempre vestidos com roupas alinhadíssimas. Mas nenhum dos dois eram nascidos ali. A verdade é que ambos endeusavam o estilo de vida que lhes era propiciado pela cidade e por seus empregos, então saíam para comer caviar e outras gororobas elitizadas em festas povoadas de jovens de 30 e poucos anos em que a temática escolhida era “crise” – ironicamente, é claro. Fotografar os rótulos dos vinhos que custavam um salário mínimo em um país em desenvolvimento era obrigatório nessas festas, bem como fazer fotos que mostrassem os looks completos dos convidados – sapatos Dolce&Gabbana nas mulheres, sempre muito magras, e mocassins e paletós nos rapazes.

Nicco me perguntou por que eu não tinha amigas italianas. Respondi que não sabia, mas que as italianas não se interessavam muito por mim, então eu passei a também não me interessar por elas. Sempre as achei  até elegantes, com suas roupas em cores sóbrias e sapatos impecáveis, mas aquele ar de superioridade, ainda mais forte nas milanesas, não me intimidava. Sororidade ainda não era um tema recorrente por lá. Meu maior pavor era o de começar a achar bonitas as sobrancelhas que estavam na moda entre as italianas – muito finas e arqueadas, por isso eu evitava salões de beleza. Contei que eu até tinha tentado fazer amizade com Alessandra, uma advogada que dividia apartamento comigo em Florença, mas que a nossa relação tinha tomado um caminho amargo quando ela retirou minhas roupas ainda úmidas do varal para pendurar as calcinhas dela no lugar. Ele riu e disse que ia me arranjar algumas amigas italianas, mas isso nunca aconteceu.

Milão é uma daquelas cidades onde é preciso morar para aprender a amar, argumentei a Nicco – assim como São Paulo. Um passeio pelos pontos turísticos não basta, jantar em um restaurante da moda também não. É preciso viver a cidade, fazer amigos nela, descobrir lojas e bares que se adequem ao seu gosto e memorizar as linhas de metrô. Caso contrário, você não a entenderá, se sentirá um caipira nela no momento em que sai da Estação Central e se depara com aquelas ruas todas iguais que levam a ruas menores com outdoors da Valentino. É preciso encontrar algo que te leve a São Paulo, é preciso encontrar algo que te leve a Milão, e no momento, a única coisa que me traz a Milão é você, Nicco.

Nicco sempre falava comigo um pouco devagar, se certificando de pronunciar muito bem cada palavra, e por vezes arriscava um pouco de português. “Ax mininax de Minaix Geraix” era uma frase cantadinha recorrente, porque sua noção de música brasileira era  Jammil e Uma Noites e aparentemente ele tinha feito seis meses de aulas de português com uma professora carioca quando ainda estava na faculdade. Não é como se ele achasse que eu era burra ou algo assim. O argumento dele era que eu precisava praticar meu italiano e que o inglês dele andava enferrujado. Ele me perguntava sobre a situação política e econômica brasileira, sobre os meus livros preferidos e sobre Cuba – cidade que ambos visitamos no mesmo ano, antes de nos conhecermos. Quando eu ocasionalmente o convidava a largar o apê em Milão para viver como hippie comigo em uma praia colombiana, ele me dava lições de moral sobre o capitalismo e como ele é benéfico e bem sucedido quando há igualdade. Mas onde há igualdade, Nicco?

Apesar das extravagâncias, Nicco e Nicco eram pessoas modestas. Tentei ponderar que eles vinham de uma realidade muito diferente da minha, não de um país onde organizar encontros para comer caviar antes dos 35 anos fosse considerado algum tipo de ofensa social – talvez apenas um pouco cafona. O apartamento que dividiam no centro de Milão era pequeno e simples, com aquelas características comuns a apartamentos habitados por homens: louças descombinadas, copos lascados e uma cortina manchada pelo sol viviam tristes na mesma sala de TV, onde os dois recebiam convidados todos os domingos para almoços feitos em casa. O box do banheiro era minúsculo, desproporcional ao restante de espaço que sobrava ao redor e que permitia que uma ginasta fizesse um espacate entre a pia e a privada sem temer bater o dedinho do pé em algum móvel. No lugar de cama, Nicco tinha apenas um colchão no chão, onde deixava sempre à mão uma garrafa de água de dois litros e o carregador do celular. Eu nunca perguntei, mas sabia que o aluguel devia custar uma pequena fortuna.

Ele me disse que gostava de sair comigo porque me achava divertida, e como foi a primeira vez que alguém usou esse adjetivo para me descrever, resolvi acreditar. Quer dizer, já tinham me dito que me achavam engraçada, mas divertida tinha sido a primeira vez. Comentei isso com Nicco em um bar escolhido por ele, onde cada drink custava inacreditáveis doze euros. Ele se levantou para buscar nossos Amaretto Sours que tinham ficado prontos e, quando retornou, deu um gole, pousou o copo sobre a mesa e disse que talvez eu e Milão tivéssemos isso em comum: talvez fosse necessário viver um pouco em nós para captar o que nós realmente tínhamos a oferecer além de nossas aparências, e talvez fosse por isso que eu e ela – a cidade – não tivéssemos nos dado bem logo de cara. Nós, mulheres, por vezes nos estranhamos quando reconhecemos uma na outra as mesmas características. Acho que a frase não tem exatamente o impacto que ele tinha em mente quando a formulou naqueles quarenta segundos em que se ausentou para buscar as bebidas, mas mesmo assim, aceitei a analogia como um elogio.

 

Senza Fine

Conheci Francesco em um dia particularmente merda. Eu morava em Florença, então isso soa estranho, porque é muito difícil ter um dia merda quando se está morando fora sem ter que trabalhar ou dormir cedo, mas aquele dia em particular estava horroroso: chovia muito, eu tinha levado um pé na bunda do primeiro rapaz que havia conhecido na Itália e meus colegas de apartamento tinham partido para uma viagem de mais de cinco dias deixando para trás uma pia cheia de louça imunda.

Mesmo na ausência de um pôr do sol apresentável, resolvi ir assistir ao entardecer  na ponte Santa Trinita: mais bonita que a Ponte Vecchio, menos hypada que a La Carraia e com uma vista mais instagramável que a da Ponte alle Grazie. No fim das contas, esta acabou se provando uma má escolha: assim que estava prestes a atravessar a rua para chegar até a ponte, pisei em uma pedra solta e enlameada e condenei meu tênis novíssimo a uma lavagem muito prematura. Ao meu lado, uma turista japonesa que segurava uma sombrinha rosa choque levou as duas pequenas mãos à boca, disfarçando uma risada tímida. Um dia merda.

Debrucei-me sobre o muro, apoiando meu copo de vinho barato em um lado e minha sombrinha do outro -o grosso da chuva já tinha passado e àquela altura, um frizz a mais no cabelo já não faria diferença. Parei para prestar atenção em um casal ao meu lado, que tirava selfies freneticamente, ora ela o beijando, ora ele enfiando a língua na orelha dela, referindo-se um ao outro como “piccola” e “amore”. Por um acaso gostariam que eu tirasse uma para deles? Não, não era necessário, respondeu a garota, antes de olhar fixamente para meu tênis sujo e e puxar o amore para mais longe. Quando o amore e a piccola se moveram, vi que, atrás deles, um rapaz de cabelos muito volumosos e acinzentados ria de meu dia de merda e acenava. Acenei de volta. Ficamos uns dois minutos naquele jogo de evitar olhar um para o outro e segurar um riso de constrangimento sempre que nos flagrávamos nos observando.

No caminho de volta, eu já tinha andado umas três quadras ouvindo voluntariamente música ruim no fone de ouvido quando fui surpreendida por um cutucão dolorido no ombro. “Ciao!”. Era Francesco, o cabeludo da Santa Trinita. Ele estava a bordo de uma bicicleta velha e barulhenta, da qual saltou para me perguntar de onde era, para onde ia e, de 1 a 10, o quão péssimo estava o meu dia. Dei uma nota 7 para não parecer dramática, me esquecendo momentaneamente que está liberadíssimo ser dramática na Itália, ao que ele respondeu com uma risadinha debochada: o dia dele estava seguramente pior que o meu, será que eu não queria disputar o título de campeão de dia cu tomando uma cerveja? Fiquei sem jeito de dizer que odeio cerveja, então apenas respondi que sim.

Nos encontramos mais tarde, eu, ele e a bicicleta, que ele empurrava com certa dificuldade por causa de uma correia danificada. Ele tinha os cabelos cacheados presos em um tipo de rabo de cavalo, mas como os fios ainda não eram longos o suficiente, formavam um tufo de um centímetro para fora do elástico. Francesco usava óculos muito grossos, daqueles que deixam os olhos miudinhos, e um cachecol vermelho escuro preso em um nó lateral no pescoço. Eu tinha meus cabelos presos em duas tranças por causa da umidade e usava o único casaco que tinha levado para a Itália – rosa bebê, com corte em A e com um comprimento que terminava antes de bater no meu quadril. Quando passamos por um ponto de ônibus, notei que alguns homens nos olhavam com estranheza. Deveríamos parecer uma dupla muito esquisita.

“Por onde você já andou aqui em Florença?” – ele me perguntou, em italiano.

“Per tutto”, respondi, encolhendo os ombros.

“Dappertutto!” – ele falava em tom imperativo, fazendo um círculo com o dedo indicador.

“Ahn?”

“Dappertutto”, repetiu.

Entendi. Ele estava me corrigindo. “Dappertutto”, repeti, e caminhamos em direção ao Caffè Letterario, um local que no passado serviu como uma espécie de Cohab italiana, mas que hoje em dia é um barzinho onde apresentações artísticas alternativas se misturam a vinho e péssima iluminação. Quando chegamos, Francesco comprou duas taças de vinho e nos sentamos para ver a apresentação musical do dia. O salão tinha uma aura estranha, era muito estreito e muito longo, com um palco com cortinas e luzes vermelhas apontadas para um senhor de meia idade que cantava com os olhos apertadinhos.

“Gino Paoli, conhece?”, perguntou-me Francesco, em tom didático.

Este é o Gino Paoli?”, respondi, surpresa.

“No, distratta!!” – Pelo volume da risada que ele soltou, eu tinha falado alguma besteira.  “Este aí é um cantor de bar, mas a música é de Gino Paoli”, explicou.

“Ah. E você gosta?”

“Não exatamente, mas minha mãe escutava muito quando eu era pequeno”.

Uma música lenta começou a tocar, e Francesco fechou os olhos enquanto murmurava o refrão, tocando um piano imaginário com os dedos. Notei que ele tinha as mãos um tanto marcadas, com o que pareciam arranhões de gato que começavam nas palmas e iam até as pontas dos dedos. Não quis perguntar como aquilo tinha acontecido, mas parecia dolorido. Cinco músicas depois de absoluto silêncio entre nós, resolvemos ir para a área externa para que ele pudesse fumar um cigarro. Francesco enxugou um enorme banco com as mãos para que eu me sentasse e começou a falar um pouco de português. Tinha aprendido com uma ex-namorada portuguesa, e contou que nunca na vida tinha namorado uma italiana. “Uma portuguesa, uma sul-africana e mexicana”, contabilizou, utilizando os dedos para enfatizar.

“Por que não italianas?”, questionei.

“Não são divertidas”.

“…E as portuguesas são?”

Ele ergueu uma sobrancelha, respirou fundo e pensou por uns dez segundos.

“Elas têm um cabelo que me agrada”, respondeu, finalmente.

A chuva voltou. Francesco e sua bicicleta manca me acompanharam até a porta do prédio onde eu morava, eu e ele espremidos embaixo da minha sombrinha. Quando ergueu o braço para segurar a sombrinha, tomou o cuidado de puxar a manga da blusa para que ela escondesse um pouco as marcas das mãos.

Antes de me dar boa noite, ele sacou do bolso uma caneta e um cartão de visitas de uma lavanderia, no qual escreveu duas palavras em uma caligrafia adoravelmente infantil: Senza Fine. Enquanto eu subia as escadas, pensei que, graças a Deus, eu não tinha precisado beber cerveja naquela noite.