Passe no brechó da Lurdes

Texto por Julliana Bauer / Ilustração por Sarah Bauer

lurdes

Existe certo encanto em possuir algo que já pertenceu a outra pessoa. Livros herdados ou comprados em sebos são normalmente encarados com certo carinho, pois parecem guardar ali alguma história. Curioso como o mesmo não se aplica a roupas compradas em brechós. Passo com frequência por situações em que alguma amiga me faz a clássica pergunta – “que bolsa/casaco/saia linda, de que loja é?” e eu a flagro mudando drasticamente de opinião assim que informo que a peça foi adquirida em um brechó. A resposta vem seguida de uma expressão de leve nojinho. Besteira.

É claro que com a popularização do vestuário vintage e retrô, muitas meninas vêm aceitando a ideia de passar horas em um brechó buscando alguma peça que jamais encontrariam em um shopping. E há também aqueles brechós hypados, com decoração impecável e peças altamente selecionadas – porém não assim tão em conta quanto em um brechó comum. Mas aconselho que você encare aqueles bem abarrotados, de preferência, com algum atendente bem excêntrico. Aliás, o conselho não é exatamente meu – é da Sarah, que é meio que uma fada madrinha de brechós. Juro que posso passar uma manhã inteira de sábado procurando sozinha por alguma peça interessante nas araras dos brechós da Riachuelo e da Mateus Leme e não encontrar nada de interessante. Mas é só eu ir em companhia da ilustríssima ilustradora desse blog que ela faz com que saias, camisas e botas lindas brotem daquelas prateleiras. Minha última aquisição foi uma bota de cowboy que eu procurava em shoppings desde que vi o último clipe de Lana Del Rey. Acabei encontrando um modelo italiano em couro legítimo e sem sinais de uso por um preço que me fez até sentir dó da dona da loja.

Há certas precauções a serem tomadas quando se compra algo usado. Embora muitas dessas lojas lavem todas as roupas antes de colocá-las à venda, é possível que a peça que você amou já esteja naquele cabide há meses – e até anos – e é mais do que aconselhável que seja lavada antes do uso. Ah, e evite olhar muito para a cor da água após deixar a roupa de molho. Já vi uma jaqueta jeans resultar num líquido marrom esverdeado bastante traumatizante.

Um dos fatores que tornam essa experiência muito mais interessante é observar o atendimento desses estabelecimentos. Esqueça os vendedores pentelhos de grifes que insistem em afirmar que você ficou linda, fina e rica com aquela blusinha que obviamente não te favorece em nada. Donos de brechós são solícitos na medida certa e te deixam à vontade para derrubar metade da loja caso isso seja necessário para que você encontre algo de que goste. Lembro de uma vez em que eu estava provando uma saia xadrez por cima da minha própria roupa, como é o mais comum em brechós. Eis que surge a animadíssima dona da loja com um colete, também xadrez, que parecia ter saído diretamente do guarda-roupa do Falcão. “Prova junto, filha, achei sua cara”. É claro que não levei o colete (que custava algo como sete reais), mas é de se admirar a tentativa daquela senhorinha de me arranjar um look completo e sincronizado para passar o fim de semana.

Se você for de Curitiba e estiver com um espírito aventureiro, não deixe de visitar o brechó da Lurdes. Não é fácil de encontrá-lo, trata-se de uma loja escura e sem qualquer placa no meio da Riachuelo. Você saberá que chegou ao endereço certo quando esbarrar em uma senhora séria e com uma cabeleira louca e prateada, quase uma personagem de David Lynch. É claro que quem descobriu a Lurdes não fui eu, quem me levou lá pela primeira vez foi a Sarah. Mas cada vez que passo ali em frente e vejo a Lurdes abrindo sacos e mais sacos de roupas usadas e absurdamente interessantes, até esqueço da bolsa caríssima que eu pretendia parcelar em trocentas vezes no shopping que fica a duas quadras dali. Entro naquela lojinha escura e alimento meu espírito de Becky Bloom das araucárias por menos de vinte reais.

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2 opiniões sobre “Passe no brechó da Lurdes

  1. Oi! Adorei esse texto, sempre frequento os brecho da Matheus Leme, mas esse da Lurdes me intrigou muito! Haha
    Vc sabe me dizer se ele ainda está aberto? E em que altura da Riachuelo seria?

    • Olá, fico feliz que tenha gostado! Ainda existe, sim. Fica na primeira ou segunda quadra de quem sai no Paço em direção ao Mueller, sabe? e neste sentido, fica no lado esquerdo do pedestre. Não tem placa nem nada, é uma sala muito abarrotada e escura, rs.

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