Sobre ônibus, velhinhas e Bon Jovi

Texto por Julliana Bauer / Ilustração por Sarah Bauer

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Janeiro é um mês péssimo quando não se está de férias. Em uma cidade provinciana como Curitiba, os botecos ainda não voltaram à programação normal, é quente demais pra suportar o dress code do trabalho, a vida ainda não pegou no tranco e o destino, assim como seus amigos do Instagram, parece ter decidido viajar pra algum lugar glamoroso e bem longe de você. Não, nada de extraordinário costuma acontecer em janeiro para o working class hero. Mas ficar em Curitiba no primeiro mês do ano até que tem seus pontos positivos. É a melhor época, por exemplo, para andar de ônibus.

Se você nunca andou de ônibus em Curitiba, amiga patriçola, recomendo que o faça agora em janeiro. A criançada está de férias, ou seja, nada de algazarra uniformizada nos horários de pico. Por estar quente, aquela paranoia de pegar gripes bizarras dos passageiros desconhecidos cai bastante. O clima deixa os motoristas menos enfurecidos e o trânsito flui mais. Janeiro é o paraíso do transporte público.

Os curitibanos parecem ter desenvolvido um comportamento padrão para pegar ônibus. A verdade é que existe uma espécie de código de conduta subentendido por todos que usam esse tipo de transporte. Por exemplo: ignore a plaquinha que te recomenda cautela com roubos no interior do veículo. Ao entrar em um ônibus, escolha o assento individual mais distante do cobrador que você encontrar. É a melhor escolha por um simples motivo: velhinhas sentam na frente e elas ficam bastante enfurecidas ao se depararem com um marmanjo saudável ocupando um assento preferencial. Não interessa que sua intenção seja a de se levantar quando uma senhora de idade ou quando uma grávida entrarem no veículo – sentar nos assentos vermelhos é certeza de olhares de julgamento.

Pego diariamente dois ônibus para chegar até o local em que trabalho, e os mesmos dois para voltar pra casa. A hora de pegar o ônibus é altamente terapêutica pra mim. Algumas pessoas meditam, e algumas fazem aulas de bordado – eu ando de ônibus. Coloco os fones de ouvido e vou observando a galera ao meu redor. Não raro percebo que o volume da música que ouço está alto demais e que as pessoas percebem, sim, que estou ouvindo Bon Jovi. Essa falha em meu gosto musical normalmente me deixaria constrangida em outros ambientes, mas não em um ônibus. Lá não há lugar pra julgamentos. “Pelo menos não é Jota Quest”, os outros passageiros devem pensar. Há também aqueles que levam um livro para o trajeto, e se você é uma dessas pessoas que conseguem ler dentro de um veículo em movimento, eu te invejo. Sinto náuseas e por isso vou sempre ouvindo as mesmas oitenta e poucas músicas que tenho em meu player. Nunca me lembro de atualizar minha playlist.

Para cada sujeito com uma frase pronta sobre a antipatia curitibana, existe um cobrador de ônibus para provar o contrário. Não sei qual o segredo da felicidade desta categoria profissional, mas certamente são as pessoas mais prestativas que você irá conhecer. Precisa descer perto daquela casa roxa que fica na esquina daquele jardim de infância daquela ruazinha sem saída? Peça pro cobrador, ele te avisará o momento certo de saltar.

Meus amigos vivem me perguntando por que não compro um carro. Os motivos são bastante simples: tenho pavor de dirigir e não tenho dinheiro. Mesmo que eu ganhasse um carro dos meus pais, de uma herança familiar ou do caminhão do Faustão, eu certamente não estaria disposta a arcar com custos como IPVA, gasolina e seguro. Sinto falta de um carro apenas em duas situações: quando chove muito e quando penso que poderia utilizar o bagageiro como um closet ambulante. Mas, por ora, não estou confortável com a ideia de trocar viagens animadas ao som de Bon Jovi na linha Jardim Centauro pelo estresse de passar a vida sofrendo com pagamentos não consensuais à máfia dos flanelinhas abusados.

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