Francisca das boas palavras

Por Julliana Bauer 

Na semana passada eu fui a uma vidente. Soube sobre a Francisca através de amigos e, como ela mora em Campo Largo, organizamos uma verdadeira caravana para a ocasião – fomos em um grupo de cinco pessoas em dois carros.  Uma das meninas que já havia se consultado com ela contou sobre os feitos da Francisca – era capaz de acertar detalhes inesperados sobre a vida dos clientes sem que eles sequer abrissem a boca.  Sou facilmente fisgada quando o assunto é esoterismo. Programas dublados de canastrões  exorcizando casarões mal assombrados e são o meu fraco.

As pessoas têm dificuldades de admitir que frequentam ou mesmo que acreditam em videntes. Ou melhor – têm dificuldade de assumir que gastaram dinheiro com isso. Pois Francisca, a vidente de Campo Largo, cobra cinquenta reais por consultas de cerca de 45 minutos. Antes de decidir por fazer a consulta – minha primeira experiência do gênero –, lembrei de uma amiga que já tinha ido a muitos sortistas e que sempre justificava os valores que pagava afirmando que era o “preço pela esperança”. Cinquenta reais me pareceu um preço bastante justo pela esperança.

Quando chegamos na casa da vidente, nada de cristais, símbolos místicos ou turbantes. Francisca mora em uma casa humilde, a qual decora com imagens de Jesus Cristo e da Virgem Maria. Ela é uma senhora muito religiosa de cinquenta e poucos anos e está construindo uma pequena capela no jardim de casa. A tal capela mais parece uma casinha de bonecas, com uma pintura que parece ter sido feita a dedo, adoravelmente infantil. Quer contribuir com a capelinha da Francisca? Só deixar umas moedinhas em uma caixinha que ela separou especialmente pra isso.

Enquanto ela atendia a primeira de nossas amigas, ficamos conversando sobre o que perguntaríamos quando chegasse nossa vez. Fiz uma pequena lista e deixei na minha bolsa. Optamos por esperar no carro, pois como a casa da Francisca é pequena, não teríamos como esperar na sala sem ouvirmos a consulta das outras pessoas, então nos pareceu mais educado que ficássemos lá fora. A mulher é conhecida na cidade. Para chegar ao seu endereço, basta perguntar a qualquer taxista de Campo Largo. Os motoristas e pessoas que passavam pela ruazinha sem asfalto nos observavam com curiosidade. Constatei que devia ser incomum pra vizinhança a imagem de cinco jovens moderninhos e tatuados esperando no sol por uma consulta com uma vidente.

Quando eu finalmente entrei no quarto da Francisca para a minha consulta, meu coração estava acelerado. E se as notícias não fossem boas? E se as cartas denunciassem uma tragédia familiar, doenças incuráveis ou uma carreira frustrada? A Francisca riu e pediu que eu me acalmasse. Muito serena, começou a falar de amenidades. Enquanto embaralhava as cartas, me contou que algumas clientes já haviam tentado convencê-la a se mudar para Curitiba. Aí ela me mostrou seus cabelos curtos e disse que eles eram muito compridos até pouco tempo atrás. Havia cortado e vendido a cabeleira por 150 reais há algumas semanas. Gostou do resultado.

Ao longo dos quarenta minutos da minha consulta, ela se dizia surpresa com meu jogo de tarô. “Eu vejo boas palavras”, repetia a cada minuto. A Francisca demonstrou conhecimento de detalhes extremamente íntimos da minha vida pessoal e aproveitou pra me dar uns conselhos. Pretendo segui-los. Sua fala é terna e ela não julga aqueles incômodos segredos que naturalmente tememos que apareçam ao longo da consulta. Sim, eles aparecem.

Ela é bastante ingênua, de uma forma muito doce. Assim que “viu” que eu sou jornalista, “encomendou” algumas matérias comigo. Pediu que eu voltasse a vê-la antes das próximas eleições para que eu escreva algo sobre as previsões que ela fará sobre os resultados e os candidatos eleitos. “Nunca errei nada de política, com essa matéria, você ficará famosa e eu também”. Francisca quer ser uma sortista famosa.  Ela me confidenciou ter visto nas cartas que a Dilma será tirada do poder pelo povo brasileiro e substituída  por um “homem claro que proibirá o aborto”. O tal homem claro é extremamente conservador e religioso.

Eu não recomendaria que uma pessoa totalmente descrente fizesse uma experiência dessas apenas para ver “qual é” a da Francisca ou de outra vidente qualquer. Me parece desrespeitoso ir até a casa de uma pessoa que ganha a vida com um dom que acredita possuir apenas para desafiá-lo.

É engraçado como até meus amigos mais céticos demonstraram um interesse enorme quando lhes contei sobre a minha experiência na Francisca. Ainda não apareceu ninguém que ridicularizasse essa minha curiosidade. “Você não está nervosa?”, me perguntam todos a quem conto sobre umas coisas mais tensas que ouvi na consulta. A verdade é que, embora eu não seja cética,  não me parece sensato sentar e esperar que as previsões da Francisca se concretizem. Mas tenho tudo anotado em um caderno que pretendo conferir de tempos em tempos pra ver se as coisas estão indo de acordo com o previsto nas cartas.

Acredito que a Francisca atenda muitas mulheres apaixonadas ou desiludidas. Casamento foi o primeiro tema que surgiu em meu jogo de cartas e ela voltava ao assunto mesmo quando eu queria falar sobre outros aspectos da minha vida. Quando chegou a hora de eu fazer minha última pergunta, ela recomendou que eu perguntasse algo concreto sobre a data do meu casamento. Fiquei em silêncio por um momento, expliquei a ela que ainda não penso em casamento e ela riu. “Vocês de Curitiba são diferentes, um marido é um presente”. Ela me levou até a porta e lançou um desafio: que eu volte lá perto das eleições caso as previsões da consulta se concretizem.

ATUALIZAÇÃO: Pessoal, muita gente me escreve perguntando se as coisas que a Francisca me disse deram certo ou não. Eu prefiro não comentar a respeito, pois o objetivo desse post foi apenas relatar uma experiência curiosa, e não encorajar ou mesmo desencorajar ninguém a procurar videntes.

Eu não tenho o contato da Francisca, mas acredito que buscando o nome dela no google (Francisca Massaneiro), seja possível encontrar.

 

Anúncios

27 opiniões sobre “Francisca das boas palavras

  1. Olá Juliana! Eu tenho um telefone da dna. Francisca, através do qual não consigo contato: 3295-5800. Se ligo com DDD 41 a informação é que não existe. Se disco sem, só ocupado. Você saberia/poderia me dizer se mudou o número? Obrigada!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s