Caderno de caligrafia

Julliana Bauer

Gosto de caligrafias feias, tortas, com letras de tamanhos diferentes e que não conseguem respeitar os limites das linhas do caderno. Minha letra não é nem feia, nem torta. É ampla, arredondada e meio preguiçosa. Meu érre é muito parecido com o meu ésse. Quando eu estava aprendendo a escrever em letra cursiva, minha mãe dava muito valor à caligrafia. Se ela julgava que a minha lição estava escrita em uma letra feia, arrancava a página e me fazia escrever tudo de novo, com sua mão direita posicionada sobre a minha para me mostrar os movimentos certos. Ela escolhia as melhores canetas e lápis, com pontas finas e tinta de qualidade para que a letra saísse tão fina quanto possível. Apontava meus lápis vigorosamente com um estilete, porque o estilete permite uma ponta mais resistente do que o apontador, além de fazer com que o lápis dure mais.

Ter letra feia tem suas vantagens. Maledicências, segredos cabeludos e confissões embaraçosas ficam mascarados por uma caligrafia descuidada. Fora que uma escrita desleixada ou exótica faz com que seu autor pareça muito mais interessante – que mente bagunçada, que sofredor atormentado. Existem milhares de testes de revistas que prometem desvendar sua personalidade através da análise da sua letra. Fulano tem letra inclinada? É certamente uma pessoa reservada. Já a letra miúda e apertadinha do Beltrano indica que ele é muitíssimo concentrado. Se essa história de grafologia for real, cadernos de caligrafia são automaticamente transformados em verdadeiras armas de repressão.

Uma professora minha uma vez obrigou toda a turma a escrever com os cadernos inclinados para a direita, porque acreditava que aquela era uma técnica que fazia com que a caligrafia sempre saísse bonita. A verdade é que o caderno torto resultava em uma letra num itálico mal sucedido e pavoroso. A tal da professora ensinava história e acho que isso já explica muita coisa.

Encontrei esses tempos um caderno que eu e minhas amigas de ensino médio utilizávamos como meio de comunicação durante as aulas. Alguma de nós levantava uma questão de altíssima relevância – como qual seria a roupa que usaríamos na balada sub 17 – e o caderno era passado entre cada uma das meninas do grupo. Uma espécie de whatsapp da era pré smartphone. Não assinávamos nada do que escrevíamos porque era fácil reconhecer a letra de cada uma de nós. Sete, oito anos depois, consegui ler o caderno inteiro sem dificuldades de identificar quem escreveu o que, mesmo que eu só mantenha contato com uma das outras cinco meninas que escreviam no caderno.

A assinatura é o teste definitivo de sua caligrafia. Se nem mesmo seu nome –o conjunto de palavras que você mais terá que escrever repetidamente ao longo da vida – sai legível, temos então um caso complicado. Logo que aprendi a escrever meu nome, já saí testando diversos jotas diferentes – com floreios, sem floreios, com o traço horizontal no topo da letra e sem ele. Minha avó me ajudou nesse processo. Me dava uma folha de caderno e pedia que eu escrevesse meu nome ali de novo e de novo. Se a letra saía feia, ela tirava o lápis das minhas mãos, o apontava vigorosamente com um estilete afiado e me fazia recomeçar da primeira linha de uma nova folha.

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