Chat UOL

Texto por Julliana Bauer / Arte por Sarah Bauer

 

chat_uol

 

Tenho o incrível superpoder de me lembrar de tudo que qualquer pessoa que eu ache remotamente interessante já tenha me dito.  Todas as conversas, os bate papos no chat do UOL, as mensagens de celular – tudo está gravado na minha memória, o que é ótimo para flagrar mentiras e contradições no discurso alheio. O mesmo não acontece com rostos, infelizmente. Minha mente apaga rostos com os quais eu não tenha tido contato há mais de cinco ou seis meses, e isso é bastante constrangedor. Não interessa se eu e você tivemos uma amizade inabalável, um romance tórrido ou mesmo laços familiares. Minha memória do seu rosto se limitará a, no máximo, sua foto de perfil no twitter.

Semana passada eu estava sentada na escadaria de um prédio, esperando uma amiga descer pra irmos a um bar. Estava com alguma revista feminina besta nas mãos, enrolando-a como um canudo, distraída, quando um rapaz sentou ao meu lado e começou a tagarelar sobre como eu nunca mais tinha dado notícias, querendo saber se eu estava trabalhando, com que idade estava a minha afilhada. “Não tenho afilhada, tenho um afilhado e uma sobrinha”, corrigi, ainda sem ter ideia de quem era o rapaz. Como ele me conhecia por nome e sobrenome, fiquei sem graça de perguntar quem ele era, de onde me conhecia e por que queria saber da minha sobrinha.

Quando percebo que estou esquecendo o rosto de uma amiga que não vejo há anos, eu incontrolavelmente o substituo por um rosto parecidinho – sempre menos bonito que o original. Esse recurso tem um lado bom: causa o impacto contrário da fotogenia, pois quando reencontro a dita cuja, vejo que ela é mais bonita do que eu me lembrava.

Hoje o rapaz da escada veio falar comigo no facebook e eu finalmente pude me lembrar que se tratava dum cara que me entrevistou pra uma vaga de emprego há pouco menos de um ano. Assim que o quadrinho do chat pipocou na minha tela do computador, entendi tudo. A foto que ele usa nas redes sociais é a do rosto de uma criança – o filho dele, imagino – e sempre que eu me lembrava das precisas palavras que ele tinha me dito ao longo da entrevista, eu só conseguia imaginar aquela criancinha usando um terno.

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