Cigarros e videogames

Texto por Julliana Bauer

 

 

Fico muito aflita com a ideia de estar fora de casa e não conseguir prender meus cabelos de alguma forma. É uma questão de controle. Por isso, há uns dois ou três anos, comecei a comprar grampos. Compro ocasionalmente uma caixinha daquelas pequenas, que vêm com cinquenta grampos pretos dentro. Encontrá-las não é tão fácil, então sempre que me deparo com uma, levo-a pra casa. Exagerei. Os grampos começaram a se reproduzir. Ao contrário das canetas bic, eles surgem em todos os cantos da casa. Tenho cerca de oito bolsas,  e cada uma sempre cospe um emaranhado de cinco ou seis grampos quando vou usá-la. Na hora do banho, encontro dois ou três perdidos entre meus cabelos, invariavelmente. Ter grampos se multiplicando pela casa me dá uma estranha sensação de conforto.

Sempre defendi o direito de cada pessoa a um vício ou mau hábito. Se o vício em questão for bem administrado, impede que o cidadão extravase fazendo algo que será muito mais prejudicial pras pessoas que convivem com ele. Não digo que comprar grampos seja meu mau hábito, é apenas um reflexo dele. Sou do tipo que compra coisas em quantidade suficiente para sempre poder ter um item de cada na bolsa – um rímel, um batom vermelho e um vidrinho de Sorine, por exemplo. Então tenho ao menos oito batons vermelhos, oito tubos de rímel e oito vidros de Sorine. É um mau hábito, mas perfeitamente justificável.

Acho que a questão dos vícios é ainda mais importante para os homens. Não entendo quando uma amiga reclama que o namorado fuma ou joga videogame. Ao meu ver, dentre todos os vícios existentes, o cigarro e o videogame são os mais inofensivos, embora eu prefira um homem que fume a um homem que tente me ensinar a jogar um mesmo joguinho barulhento no sofá por horas.

Bem no início da minha carreira, trabalhei brevemente em uma empresa em que toda a equipe da chefia fumava. Uma das sócias negava o vício. Lá pela quarta-feira, ela sempre reclamava da abstinência. “Parei de fumar na segunda, já sinto que estou respirando melhor”, dizia, sempre com um cigarro entre os dedos. Nossa função como subordinados era a de fingirmos que aquilo era perfeitamente coerente. Cooperar com o vício alheio sempre foi uma das minhas principais qualidades.

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