Desapego

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Texto por Julliana Bauer

 

Joguei no lixo cinco caixinhas de fio-dental praticamente inteiras. O problema é que aquele foi o pior fio-dental que já usei na vida e, por algum motivo, caixas e mais caixas daquela marca insistiam em aparecer na minha casa. Eu não me lembro de tê-las comprado e minha mãe também certamente não as comprou. Como não acho bonito desperdiçar, deixei uma das caixinhas terríveis em minha nécessaire que fica no trabalho. Em uma ida ao banheiro sempre acompanhada de uma colega – hábitos femininos dificilmente morrem – descobri que ela também tinha um fio dental da mesma marca sempre na bolsa. “É um terror, quero que acabe logo”. Não acabava nunca – nem a minha, nem a dela – por mais que usássemos pedaços generosos após cada escovação de dentes. Uma semana mais tarde, descobrimos que mais duas colegas da empresa também tinham o mesmo fio dental em suas nécessaires. O mistério era o mesmo para todas nós – ninguém se lembrava de ter comprado o maldito fio dental. Teria vindo de brinde com algum outro produto de higiene? Ainda não encontramos respostas.

Jogar fora o fio dental de marca ruim estava fora de cogitação – trabalhamos em uma empresa de design e a sustentabilidade está sempre em pauta, deuzolivre jogar no lixo caixas e mais caixas de fio-dental em perfeitas condições de uso só porque elas ameaçavam deixar nossas gengivas sangrando. Com o tempo, começamos a perceber os reflexos positivos do fio barato em nossas vidas – passamos a esperar ansiosamente pelo momento da escovação noturna em casa, para que pudéssemos usar o fio-dental de marca boa, mentolado e encerado. O delírio das gengivas. De acordo com a minha colega de idas ao banheiro, aquele era o melhor momento de sua noite.

Não aguentei, confesso. Tapeei a sustentabilidade. Irritada com os 50 metros de fio que nunca se findavam – de acordo com a embalagem, paguei por apenas 25 e o restante veio de brinde – fui tomada por um surto de desapego e joguei a caixinha fora. Cheguei em casa naquela noite, encontrei todas as outras quatro e as desovei no lixo do banheiro, ainda dentro da embalagem. Não servem nem pra doação.

Passei a usar o fio dental barato como uma metáfora para situações da vida. Uma amiga de infância veio fofocar sobre a colega-da-prima-da-cunhada que se casaria em um mês, mesmo estando desesperada pra cair fora da situação. Era tarde demais pra voltar atrás, o serviço de buffet já estava pago e coisa e tal, então a solução que a colega-da-prima-da-cunhada da amiga de infância encontrou foi ter um caso com o chefe. Eu traía o fio dental de marca barata com um mentolado e enceradão todas as noites, ficava realizadíssima, e a colega-da-prima-da-cunhada dava uma passada no motel com o chefe diariamente. Não sei nem o nome de verdade da pobre noiva, mas não consigo julgá-la.

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