Amigo intercambista

Texto por Julliana Bauer / Ilustração por Sarah Bauer

johnny

Desde que uma de minhas melhores amigas foi morar na África do Sul, não economizo em perguntas bestas quando conversamos. O que africanos comem? O que eles ouvem? Qual o sapato da moda africana? Ela sempre conta que a Cidade do Cabo é muito parecida com o Brasil: os mendigos a xingam na rua, há revendedores da Herbalife e um enorme interesse em tudo que é estrangeiro. Pra conseguir um namorado sul-africano, basta ser gringa.

A história imediatamente me lembrou de uma moça italiana que trabalha comigo. Após algum tempo solteira, ela veio trabalhar no Brasil e arranjou namorado em questão de duas semanas. Fiz uma piada idiota sobre ela ter vindo do país que mais soma homens lindos no mundo pra encontrar namorado justo aqui. “É o encantamento do estrangeiro”, ela me contou, com um sotaque que, em nome do charme, espero que ela nunca perca.

O amigo intercambista gringo é sempre o cara que recebe mais atenção em um grupinho. Além de ajudar a galera a mostrar que o cursinho Fisk valeu a pena, é uma graça acompanhar a evolução do aprendizado de palavrões em português do sujeito. Embora eu entenda todo o conto de fadas que um relacionamento com um estrangeiro pareça propiciar, me incomoda que eu não possa fazer piadinhas e trocadilhos em português que exijam do cara o tal do conhecimento nativo da língua portuguesa.

Em uma viagem farofeira que eu e Sarah fizemos para conhecer alguns países europeus numa época de maior desprendimento material e menores obrigações, fizemos uma lista com os que reuniam os homens mais bonitos: Itália, Holanda e Alemanha, se não me engano. O mais próximo que chegamos de viver algum romance europeu foi na Suíça, quando já estávamos naquela fase de pico de retenção líquida que sempre surge em longas viagens. Descemos para o saguão do hotel mal vestidas, mal maquiadas e em busca de um chá digestivo quando conhecemos John, um inglês que estava no mesmo hotel à trabalho. Após vinte minutos de uma conversa sobre cigarros e os boxes de banho bizarros dos quartos do hotel (eram cilíndricos, transparentes e NO MEIO do quarto, fora do banheiro), o John nos olhou com aquela cara de “e aí, qual das duas vai ser?”. A Sarah já tinha tirado o corpo fora desde o começo e ficou indignada quando eu inventei uma desculpa qualquer para também me livrar do cara. É que ela ignorou os dentes literalmente podres e o discurso misógino do John.

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