Matando Marlon Brando

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Texto: Julliana Bauer / Ilustração: Sarah Bauer

Gosto de Maria Schneider em O Último Tango em Paris porque ela tinha um rosto redondo e infantil e falas quase declamadas. Naquelas primeiras cenas, com chapéu, franja, casaco de pele e olhos delineados, ela representava exatamente meu ideal de beleza na adolescência: uma pessoa que fica bem de chapéu e franja, ué. Maria Schneider ficava bem com os cabelos soltos, mas ficava melhor ainda com eles presos. Acho que gosto dela principalmente porque ela tinha aqueles seios enormes e, sabe como é, mulheres com seios grandes sempre simpatizam umas com as outras.

Gosto de Marlon Brando em O Último Tango em Paris porque ele não decorava as próprias falas. Gosto um pouco mais porque ali ele representa um dos muitos tipos errados de homens que consideramos ideais: triste, mandão, secretamente romântico e razoavelmente bem vestido. Do tipo que não cala a boca nunca, ainda bem. Do tipo que te propõe uma relação estranha e a estraga no final. Pactos precisam ser mantidos.

Maria Schneider mata Marlon Brando no final de filme e eu passei muito tempo tentando entender o motivo. No primeiro ano de faculdade, decidi que Bertolucci seria meu diretor preferido. Uma opção um pouco cafona, o que combina comigo. Eu tinha a mania de perguntar pras minhas amigas quem elas gostariam de ser caso pudessem escolher uma vida completamente diferente. Eu queria ser Maria Schneider em O Último Tango em Paris. Uma escolha nem um pouco motivada pela manteiga, sinto decepcionar. Queria ter aquela franja, aquele chapéu e poder decidir se mataria ou não Marlon Brando no final. Afinal, quem quebrou o pacto foi ele.

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Uma opinião sobre “Matando Marlon Brando

  1. Eu não decoro minhas próprias falas, embora às vezes até tente. Sou triste: meio como em um livro do Dostoievski, passeando em uma fria São Petersburgo; mandão: meio como um Hemingway, passeando por uma tourada aqui, ou um ringue de boxe ali, ou uma guerra civil acolá; secretamente romântico: porque claro, tristeza e imperatividade demais ofuscam muita coisa; não sou de me calar muito – só quando o ouvinte não vale a pena – e sou mestre faixa preta em propor-relações-estranhas-só-pra-ter-o-prazer-de-arruiná-las-antes-de-seu-devido-termo.

    Não me manifestei sobre ser razoavelmente bem vestido, porque não sei de fato o que isso significa e também porque já fiz muita publicidade enganosa por dois parágrafos.

    Eu gosto da Maria Schneider pelo chapéu, pela franja e muito – mas muito mesmo – pelos seios. Gosto da sensação que ela me passa de estar vulnerável, sem de fato estar (ela com certeza queria aquela cena da manteiga mais do que ele, mas soube fingir muito bem que nem tanto) e gosto da impressão que ela dá de não ser alguém que mata um descumpridor de tratos, quando na verdade, nasceu pra fazer isso. Tem mais uma ou duas coisas que eu gosto também, mas agora não.

    No entanto, acredito que nem todos os pactos precisam ser mantidos. É que se estamos em Paris e este é nosso último tango, bom…

    Mas você escreve e pensa de um jeitinho que faz parecer ser uma boa ideia descumprir um ou dois tratos com você. E isso pode ser encarado como um convite.

    E se serve pra alguma coisa, tenho que dizer que a manteiga está cortada da minha dieta há tempos.

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