Falta de

Texto de Julliana Bauer / Ilustração de Sarah Bauer

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Adquiri a mania chata de policiar alguns amigos quando o assunto é mulher amarga. É que mesas de bar sempre dão vez pra reclamações sobre um ex, um vizinho ou qualquer mulher azeda que represente um percalço em nossas vidas. Neste último caso, a conversa sempre termina com um diagnóstico: “isso é falta de” (frase sempre acompanhada de um gesto com mãozinhas paralelas que imitam o tamanho de um pênis). Não se trata de um argumento feminista, mas acho muita ingenuidade pensar que toda a amargura feminina do mundo possa ser curada com um simples pênis.

Detesto me contradizer, então passei a substituir as mãozinhas paralelas por um meigo autoabraço sempre que chega a hora de completar o “é falta de” e mudar de tópico na mesa de bar. Posso estar enganada, mas deve ter muito mais gente fazendo terapia por ser mal abraçada do que por ser mal comida.

Dia desses me contaram que a versão em espanhol para mal comida é mal cogida. Lembrei-me das aulas de espanhol em que a professora nos alertava para que nunca soltássemos a expressão “coger el autobús” na América Latina quando precisássemos pegar um ônibus, a não ser que quiséssemos lidar com risinhos abafados, dada a conotação sexual adquirida pelo verbo coger. Aparentemente a ilusão de que um pênis pode salvar o temperamento feminino desconhece fronteiras.

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