O Estranho

Texto por Julliana Bauer /  Ilustração por Sarah Bauer

 

estranho

 

No mês passado, eu conheci um Estranho. No começo, ele não tinha rosto, então eu o imaginava como outros estranhos que eu já tinha conhecido, ou, em alguns momentos, como o Larry David. Ele me escrevia sobre buracos negros e carrinhos hot wheels, e eu o respondia falando sobre fantasmas e o mar do Caribe. Até aí tudo bem, eu gostava das coisas que o Estranho escrevia porque ele nunca falava de coisas sérias ou chatas, por mais que parecesse ser fã do Hemingway. Não que eu não goste de coisas sérias, de coisas chatas ou do Hemingway, mas eu já somava conhecidos demais que falavam comigo sobre coisas sérias e chatas.

Eu contava coisas demais a meu respeito pro Estranho, o que provavelmente não seria nada aconselhável, mas nada nessa história toda era aconselhável mesmo, então mandei pro inferno os possíveis conselhos. Ele nunca me contava nada sobre ele, apenas que ele tinha medo de buracos negros quando era criança, mas, bem – todos tínhamos medo de buracos negros quando éramos crianças.

Então, ele começou a esconder cartas para que eu encontrasse. Eu ainda não sabia se ele se parecia com os outros estranhos que eu já tinha conhecido ou com o Larry David, mas eu fui atrás das cartas mesmo assim. Vejam bem, é nessas horas que nos filmes de terror a plateia fica resmungando coisas como “não vá por aí, sua idiota, o assassino está te esperando lá com uma foice e uma máscara vintage”. Mas eu fui. E foi aí que entrei no jogo do Estranho, e que dei a ele a liberdade de conduzir a coisa toda.

Eu escrevi pro Estranho explicando que o roteiro dele era genial, mas que eu tinha me assustado, eu não sou uma personagem de livro, Estranho. Na verdade, eu utilizo a função soneca do meu celular umas quatro vezes antes de levantar, corto carboidratos vez ou outra na esperança de que minhas coxas diminuam e troco whisky velho e caro por qualquer drink colorido e muito doce – que personagem de Hemingway faria isso tudo? Nenhum, Estranho, nenhum.

Eu conheci o Estranho numa quarta-feira e ele não se parecia nada com o Larry David ou com os estranhos que eu já conhecia. Ele também não tinha uma foice, nem uma máscara vintage. Ele era atraente, falava baixo e cheirava bem, e me falou sobre sua teoria de que Zooey Deschanel é uma mulher fria. Quando percebi que o Estranho tinha ido embora, passei uma madrugada inteira vendo filmes ruins do Polanski.

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4 opiniões sobre “O Estranho

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