O fantasma colombiano

Julliana Bauer

A melhor decisão que eu e minha amiga Bruna tomamos em nossa viagem a Colômbia foi alugar um carro. Deu uma despesa que estava fora de nossos planos, mas ao menos nos livramos da farofada que vem de brinde com passeios comprados em agências de turismo. Pesquisamos detalhes na internet e fizemos tudo que as agências de lá ofereciam, mas fizemos sozinhas e de carro.

A pior decisão que eu e minha amiga Bruna tomamos em nossa viagem a Colômbia foi não pesquisar previamente sobre como funcionavam os estacionamentos colombianos. Na primeira noite com o carro, após termos encontrado um lugar bonito e bem distante para ver o pôr do sol, nos deparamos com riscos enormes na lataria. Não eram riscos aleatórios. Alguém havia rabiscado a palavra “Oreja” na parte de cima do automóvel. O dano definitivamente não estava lá antes – ao menos, não o havíamos percebido. Decidimos que o melhor a fazer no momento seria não nos preocuparmos com o quanto aquilo nos custaria na hora da entrega do carro, pois adiar problemas é sempre a melhor decisão.

A conversa da noite girou em torno de “Oreja”. Seria o apelido do vândalo? Seria a vingança de algum flanelinha que não havíamos visto? Seria um fantasma colombiano disposto a assombrar o carro de duas jovens brasileiras indefesas? Guardamos o carro no estacionamento duvidoso do hotel e esquecemos o assunto.  Acordamos no dia seguinte e prontamente carregamos o porta-malas com mochilas, cangas e tudo que precisaríamos para ir a uma praia que ficava a duas horas de Cartagena, onde estávamos hospedadas. Ao abrir a porta do lado do passageiro – meu eterno assento – vi um amassado que definitivamente não estava ali antes. Atribuímos o dano a Oreja, a entidade que certamente assombrava nosso Spark vermelho. Será que o desgraçado do fantasma colombiano nos tinha tomado por milionárias?

Desenvolvemos uma relação confusa, de carinho e raiva por Oreja. Ele era um espírito malcriado, com certeza, mas era nosso espírito malcriado. Quantas pessoas podem dizer por aí que já foram assombradas por um fantasma colombiano? Oreja não tinha lá muito carinho por nós. Aumentava e diminuía o volume do som do carro sem nosso consentimento. Tentávamos acalmá-lo. Não adiantava.

Acho que a pior traquinagem de Oreja aconteceu no dia em que decidimos visitar a Ciudad Amurallada de Cartagena, uma das principais atrações locais. Passamos horas caminhando num calor de 40 graus e, quando voltamos ao estacionamento, percebemos que o carro não estava ligando e que a bateria tinha acabado. Olhamos pra cima e logo detectamos o problema: a luz tinha ficado acesa. Nunca acendemos a luz do carro. Oreja atacara novamente. Xingamos Oreja de todos os palavrões em espanhol que conhecíamos, mas ficamos aliviadas por ele ter feito com que nossa  bateria acabasse em um estacionamento, e não em uma praia distante e deserta. Pedimos ajuda aos funcionários do estacionamento que, sem disfarçar as risadas, resolveram nosso problema amável e rapidamente.

Quando fomos devolver o carro para a locadora, estávamos preparadas para pagar literalmente milhões de pesos colombianos  (a moeda lá é estranhíssima) em reparos. Que nada. A dona fez uma vistoria completa – gasolina, lataria, estofamento, extintor. Estávamos sentadas em um muro baixo com cara de culpadas, quando a moça decretou, sorrindo: “Listo”. Não nos cobraram nada pelos rabiscos.

Era uma sexta-feira de manhã quando entregamos o Spark vermelho e Oreja de volta aos donos, e ainda tínhamos mais um dia inteiro na cidade. A saída foi alugar bicicletas, que saem muito em conta por lá. Como havia se tornado um ritual nosso na viagem, saímos pedalando em busca de um lugar ainda desconhecido para podermos assistir ao pôr do sol. Escolhemos uma praia no lado rico da cidade, frequentado por crianças bem penteadas e por suas babás sempre de uniformes brancos.

Estacionamos as bicicletas na areia, deitamos em uma canga cor de rosa e ficamos ali comportadíssimas por cerca de uma hora, quando fomos abordadas por dois policiais. Apontando uma lanterna para nossos rostos, pediram para nos revistar de forma bem grosseira. Olharam minha bolsa, minha carteira, meus documentos e abriram meu batom em busca de possíveis drogas escondidas. Nada. Quando foram embora, estávamos tão assustadas que desistimos de pedalar e passamos a empurrar as bicicletas de volta para o hotel, a la Oil Man. Estávamos com as pernas trêmulas e uma baita saudade do Oreja.

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