O dia em que Lou Reed morreu

Texto por Julliana Bauer / Ilustração por Sarah Bauer

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No dia em que Lou Reed morreu, eu estava passeando com uma amiga pelos antiquários e sebos da feirinha do Largo da Ordem. Acho que vou me lembrar desse dia por um bom tempo, não só porque o Lou Reed morreu ou porque eu estava passeando com a tal amiga, mas porque era um desses primeiros dias muito quentes após vários dias muito frios, e havia uma sensação de início de verão na cidade. Dava pra testemunhar até aquela desarmonia comum de início de verão, em que as pessoas ainda não sabem bem como se vestir para o clima e andam segurando casaquinhos, com medo do tempo esfriar – só que não era verão e nem esfriou.  Mas acho que vou me lembrar desse dia principalmente porque, em uma caça por dedicatórias engraçadas nos livros do Solaris, encontramos uma das mais tristes. “João Carlos: Você, juntamente com o livro Ópera do Malandro, participou comigo de momentos de dor. Rosângela, janeiro de 79”.

O livro era de Carlos Castaneda, O Segundo Círculo do Poder, que eu não tinha interesse nenhum de comprar ou mesmo ler. Na verdade, eu queria mesmo era comprar livros do Cortázar, ao que a dona do sebo me avisou que “olha, ninguém vende livros do Cortázar”, e foi buscar algum livro pra mim enquanto eu bagunçava as estantes.

Fiquei triste pela Rosângela. Quer dizer, sei lá o que aconteceu entre os dois, mas o João Carlos por algum motivo se desfez do livro que ganhou de presente, e condeno muito essa gente que troca ou se desfaz de presentes. Minha amiga riu ao ler a dedicatória e disse que, de agora em diante, só vai escrever dedicatórias tristes, pra história de cada livro ficar ainda mais interessante. Acho que faz sentido.

Nesse dia, o dia em que Lou Reed morreu, lembrei-me também de um professor de literatura que tive no ensino médio e que nos contou da decepção que teve ao encontrar um livro da autoria dele pela primeira vez em um sebo. Na época, eu pensei algo como “bom, se tem livros do García Márquez por lá, ele deveria ficar feliz, aparentemente todo bom escritor uma hora acaba num sebo”. Hoje sei que eu estava errada e que livros do Cortázar muito raramente param em sebos.

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2 opiniões sobre “O dia em que Lou Reed morreu

  1. Olá! Muito legal o seu texto. Mas, permita-me: há ótimos livros em sebos, inclusive de autores excelentes. Comprei “O jogo da amarelinha” em um. Quanto ao João Carlos, coitado, passou por sua última dor: falecido, viu, do além, alguém desfazer-se de seus amados livros, especialmente aquele que a Rosângela lhe tinha oferecido

    • Oi, Tomás. Nós aqui desse blog somos muito fãs de sebos. Em qual deles você encontrou esse livro? Ah, e prefiro acreditar que o João Carlos tá vivão, mas não aguentava mais nem as lamúrias da Rosângela, nem o Carlos Castaneda, e resolveu se livrar dos dois de uma vez só. Valeu pela visita!

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