Tipos de humanos em hostels

Texto por Julliana Bauer / Ilustração por Sarah Bauer

virginia

Tipos de humanos que conheci em minha primeira experiência em um hostel: as inglesas que falavam em uníssono, o casal golpista de alemães, os americanos que nunca ouviram falar de David Bowie, o gaúcho professor de novas gírias (“sereno” e “afudê” entraram para meu vocabulário cotidiano) e a viúva americana com transtornos de personalidade. Sem dúvidas, esta última foi a única que provavelmente me causará pesadelos por uns bons meses.

Ela chegou para se hospedar em nosso quarto de oito pessoas no Bulldog Hostel, em Amsterdã, com um discurso sobre como gostava de conhecer jovens mulheres tomando as próprias decisões. Era de Virginia, mas morava há 14 anos em uma cidadezinha alemã e, até então, não tinha aprendido palavra alguma em alemão. Aparentando ter uns 60 anos, a nova colega se mostrou divertida e viajada. Lembro-me de ter comentado com a minha amiga: “Isso vai ser interessante”. Não foi.

No segundo dia, ela já declarou seu ódio pelas inglesinhas. É que elas comiam salgadinhos e bebiam energéticos, deixando sujeira em todos os cantos. Os “Hi-iiii” e “By-yeee” em uníssono também irritavam a americana, que tinha servido o exército dos Estados Unidos por umas boas décadas e demonstrava uma rotina de organização bizarra. Em um episódio de slut-shaming, ela fez com que uma das meninas fosse se vestir no banheiro do quarto, pois achava ultrajante que a menina saísse do banho só de toalha – mesmo que o quarto fosse só de mulheres.

Por algum motivo desconhecido, “Virginia”, como começamos a chamá-la secretamente, nos amou. Queria tomar café conosco. Queria nos acompanhar até a estação de trem para garantir nossa segurança. Queria nos oferecer Gatorade para curar nossa ressaca. Nós só queríamos que a Virginia fosse embora logo.

Virginia se dizia amiga do gerente do hostel e ameaçava banir do local qualquer pessoa com comportamento que ela considerasse inadequado. Comprava patos assados inteiros e os comia no lobby. Usava uma única calça de pijamas larga demais e curta demais durante qualquer hora do dia ou da noite. Estava preocupadíssima com o estado de saúde de Barbara Bush. Previa um futuro cheio de DSTs pras inglesinhas, a quem ela tinha batizado de “little pigs”. Ficamos com pena das inglesinhas – apesar de desorganizadas, elas tinham uma rotina de acordar tarde e gritar para as outras tudo o que tinham tuitado bêbadas na noite anterior, com frases bombardeadas de hashtags.

Acordei de uma soneca vespertina lá pelas 18h30 com a louca da Virginia trepada na escada do meu beliche, me cutucando vigorosamente e pedindo para que eu apagasse a fraquíssima luz individual que eu tinha usado mais cedo para ler. Ao perceber a minha lentidão para acordar e compreender por que diabos aquela louca estava na minha cama, ela se esticou toda naquela calça medonha e apagou minha lâmpada sem meu consentimento. Acordei minha amiga e caímos fora dali.

Por um lado, Virginia jogou um balde de água fria em nossa experiência no hostel. Por outro, ela realmente intensificou nossa experiência em Amsterdã – para evitá-la, ficávamos acordadas e longe do quarto do hostel o tão tarde quanto suportávamos, o que nos deu a chance de conhecer melhor a cidade e os tipos de humanos como o casal de golpistas alemães e os americanos que desconheciam David Bowie. E, como ela mesma me disse, em um momento raro de lucidez: toda viagem é a melhor viagem.

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