Proust não me humilha mais

Texto: Julliana Bauer / Ilustração: Sarah Bauer

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Coloquei na cabeça que vou ler todos os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, do Proust, ao longo 2014. Não foi uma decisão pautada por motivos intelectuais, acadêmicos nem nada do tipo. É apenas vingança.

Há alguns anos, eu saía com um rapaz que se dizia muito culto. Tinha lido mais clássicos do que um guri normal de vinte e tantos anos normalmente teria lido naquela altura da vida e conseguia citar frases de Proust que se adequassem a qualquer momento do cotidiano – o sonho da padaria, o cachorrinho fazendo cocô na moita, o fone de ouvido que tinha estragado. Quando eu pedia algum livro emprestado, ele rebatia com uma risadinha seguida de um comentário sugerindo que eu era jovem demais para ler Proust. Ele tinha quatro anos a mais que eu. Depois disso, o cara se mudou pra outra cidade, deixou o cabelo crescer pra usar coque e sumiu na vida. Eu segui por alguns meses me sentindo inferior a ele por ainda não ter lido Proust – e por ter cabelos curtos demais para usar um coque.

Esqueci o rapaz. Esqueci o Proust. Meu cabelo cresceu. No comecinho de novembro, para curar uma insônia, estava vendo um documentário sobre Rousseau na TV quando foi citada alguma frase que o rapaz-muito-culto sempre associava a Proust. Era de Rousseau. RÁ. Comecei a pesquisar sobre Proust no Google às 3h da manhã para tentar descobrir se a frase errada se tratava apenas de um deslize do garoto ou se ele tinha passado, sei lá, meses associando a autoria de qualquer frase que conseguisse decorar a Proust. Sim, ele tinha.

Putíssima por ter sido tão facilmente ludibriada pelo falso intelectual, comprei o primeiro volume de Tempo Perdido no Natal, e olha, estou gostando. Se alguém encontrar o rapaz de coque por aí, por favor, o avise: Proust já não me humilha mais.

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3 opiniões sobre “Proust não me humilha mais

  1. a pós-modernidade em forma de estado de espírito: “Eu segui por alguns meses me sentindo inferior a ele por ainda não ter lido Proust – e por ter cabelos curtos demais para usar um coque.”

  2. Ah, ah, ótima! Boa leitura! Que você encontre o tempo perdido e se delicie com as mais minuciosas descrições da literatura. E lembre-se: quem costuma arrotar conhecimento para para aparentar superioridade geralmente é enganador kkkkkkkkkk.

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