Caravelas

Texto por Julliana Bauer / Ilustração por Sarah Bauer

 

larissa

 

Na noite em que conheci a Larissa, eu já havia bebido quatro tequilas, dois drinks coloridos e nenhum gole d’água. Percebendo que eu estava tonta, ela me segurou pela mão e foi me puxando pela festa para me levar até uma cadeira, dizendo a todos que não mexessem comigo, que eu era sua namorada. Achei engraçado. Cada vez que um rapaz se aproximava de mim para falar alguma gracinha, para pedir licença ou mesmo perguntar se eu estava bem, ela o empurrava, dizendo que eu estava com ela naquela noite. Eu não estava. Quer dizer, eu achava que não.

As pessoas têm mil teorias sobre Larissa. É que ela nunca quis fazer faculdade, nunca teve um emprego desses que exigem entrevistas constrangedoras e ia a cada noitada para casa com um cara diferente. Pensando bem, não sei nem se ela terminou o ensino médio. Uma vez ela quebrou o braço na praia, coisa feia, chorava de dor. Saía mesmo assim, pegando a carona da volta com um rapaz que tinha acabado de conhecer. As histórias sobre o que ela tinha feito com os garotos divertiam nosso grupo no dia seguinte, “sua louca, sua irresponsável, sua safada”. Pelas costas dela, todos se diziam preocupados. O que ela faria quando a juventude passasse e ela só tivesse um currículo de meia página e um cabelo detonado?

É que o cabelo de Larissa sempre estava com cores e cortes diferentes, sempre estourado, sempre implorando por uma trégua dos produtos químicos, do cloro, do mar. Quando ela viu que o cabelo estava perdido, apenas o raspou. Assim, sem drama. Foi aí que percebemos que ela tinha uma cicatriz no couro cabeludo que mais parecia o mapa do Equador, e ela mostrava aquela marca pra todo mundo. Assim que o cabelo cresceu o suficiente, ela o detonou mais uma vez. Foi a primeira do grupo a usar batom vermelho, e aí todas nós resolvemos tentar também, batom vermelho ainda era coisa de filme antigo e musa do fotolog. Ela não era musa do fotolog. Longe disso, fazia imitações hilárias daquelas meninas montadas com vidas encenadas.

Eu brincava que nunca tinha visto a Larissa durante o dia, só durante a noite, ela recusava convites para cafés, filmes e parques. Demoramos em nos tornar o tipo de amigas que trocam mensagens, que ligam uma pra outra. Na verdade, acho que nunca conversamos por telefone. Ela me passou o número da loja de roupas em que tinha acabado de ser contratada e que ficava em um shopping, para que eu a avisasse quando estivesse passando de táxi para buscá-la. “A Larissa está fechando o caixa, não pode atender”, era sempre a resposta. Era engraçado saber que a Larissa estava trabalhando.

Uma vez eu perguntei pra ela por que ela tinha agido como agiu na noite em que me conheceu, me tirando do meio da pista de dança para que eu não passasse mal ali mesmo, sendo que sequer tínhamos algum amigo em comum. Ela disse que fez o que ninguém tinha feito por ela, sempre a largavam em um canto uma vez que terminada a diversão. Contou que uma vez acordou de manhãzinha no banheiro de uma balada, tinha passado mal e nenhum de seus amigos tinha notado seu sumiço. Quando saiu do banheiro, os garçons que estavam limpando o salão já vazio lhe emprestaram vinte reais para um táxi. Ela usou o dinheiro para tomar um Chocomilk e comer um croissant de quatro queijos em uma padaria próxima e foi caminhando para casa.

Perdi o contato com a Larissa no ano em que ela me disse que iria voltar para sua cidade natal para ajudar a mãe a administrar uma loja de cosméticos. Eu só fui vê-la novamente uns três anos depois – na semana passada, mais precisamente. Andando pela Sete de Setembro, eu percebi que ela estava lá do outro lado, com a mesma tatuagem de caravela na coxa. Só que ela estava com as pernas finas, fininhas. Lembrei-me de quando nos deitávamos na cama dela para ouvir música com as nossas quatro pernas para cima, esticadas na parede. As coxas dela eram tão grossas quanto as minhas, fazíamos piadas a respeito. Uma vez ela pegou uma canetinha e desenhou uma versão medonha de uma tatuagem igual a dela na minha coxa esquerda. Tiramos uma foto, ainda não existia Instagram.

Tentei chamá-la, apesar do barulho que vinha de uma construção próxima. Ela estava com os cabelos na altura dos ombros, na cor natural, um loiro acinzentado. Acho que foi a primeira vez que vi a cor natural dos cabelos da Larissa. Ao me ouvir berrando, ela se virou, mas sequer tirou os enormes óculos de sol que usava. Sem atravessar a rua ou me esperar atravessar, ela acenou timidamente, colocou os fones de ouvido de volta e continuou andando. Acho a Larissa sabe que, como os tantos outros amigos dela, eu nunca fiz por ela o que ela fez por mim.

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