Marshmallows e maconha

Julliana Bauer

Quatro garotos muito magros, brancos e altos sentam-se discretamente em uma mesa de um bar em Amsterdã. O sotaque sugere que são ingleses e nenhum aparenta ter mais de vinte anos. Na verdade, não fosse o cenário, todos pareceriam extremamente inexperientes e assépticos com seus rostos que passaram imunes pela puberdade, sem deixar rastros de barba. O diálogo entre eles é rápido e baixo: pedem empréstimos de apetrechos como papéis de seda, isqueiros, dichavadores. Em poucos minutos, quatro baseados perfeitos surgem na mesa. Na tela das TVs espalhadas pelo ambiente, uma mensagem em inglês avisa: é proibido fumar tabaco naquele local – apenas maconha pura.

Nos coffee shops próximos à Dam Square, área turística da cidade que fica próxima do Distrito Vermelho, garotos como os ingleses desbarbados são extremamente comuns. O cheiro adocicado da maconha toma as ruas, já que a região é a mais procurada por quem quer aproveitar uma passagem pela cidade para experimentar a droga. Por ser uma área que abriga muitos hostels – hotéis de preços baixos e quartos compartilhados por até doze pessoas – os rostos mais jovens são os que dominam nas pequenas multidões dos bares e coffee shops mais populares por aqueles canais.

Entrar em um desses ambientes exige um mínimo de preparo, pois embora os cardápios elaborados instrutivos oferecidos pelos estabelecimentos expliquem um pouco sobre cada tipo de semente de cannabis que é vendida, tudo ali é certamente mais forte do que qualquer baseado passado em rodinhas no Brasil. É possível comprar até cinco gramas da droga por dia, sendo que o THC máximo permitido – substância química produzida pela cannabis e responsável pelos efeitos da droga – é de 15%. As sementes com THC superior a isso já são classificadas como drogas pesadas.

No Greenhouse, um dos coffe shops mais requisitados da Rua Oudezijds Voorburgwal (nem tente pronunciar esse nome), o atendente brasileiro Guilherme ganhou o apelido de Guy. Com a cabeça raspada e alargadores nas orelhas, ele instrui os fumantes inexperientes a optar por tipos mais leves de maconha – a “Diamond Girl”, ensina, é ótima para iniciantes que querem apenas relaxar. O Greenhouse está sempre muito cheio e é quase impossível conseguir um lugar para se sentar próximo ao balcão, mas mesmo assim Guy dá uma atenção especial aos clientes brasileiros, aos quais ele se apresenta ao ouvir conversas em português. A maioria dos fumantes curiosos, conta, sequer sabe a diferença entre Cannabis Sativa e Cannabis Indica, conhecimento que considera essencial para não se cair numa cilada. No bê-a-ba da maconha, essa é a regra número um: a Indica relaxa e a Sativa causa certa euforia, além de propiciar sensações um tanto psicodélicas.

Pelas mesas dos coffee shops, grupos animados que ainda não consumiram a droga se misturam com grupos de pessoas completamente caladas após o uso da maconha, com os olhos apertados e distantes. A música é alta, e a maioria das playlists alterna entre clássicos propositalmente cafonas dos anos 80 e 90 e hits repetitivos de Justin Timberlake. Todos oferecem no cardápio lanches rápidos como batatas fritas, já que a “larica” ou “munchie” – gírias para a fome característica após o baseado – é um dos efeitos mais recorrentes do uso da droga. Não é raro conhecer garotos e garotas de nacionalidades diversas que incluíram Amsterdã no roteiro da viagem que ganharam de presente dos pais apenas para passar três ou quatro dias enfurnados dentro dos coffee shops. Entrar em um lugar desses é sentir as luvas, casaco e cachecóis defumados por dias com o odor da erva.

Fumar maconha em Amsterdã não é barato. Os preços mínimos começam entre oito e dez euros – o que é mais caro do que uma refeição nas muitas casas de massas ali por perto, que vendem macarrão ao molho carbonara por cinco. Quem não sabe enrolar o cigarro também precisa gastar mais e comprar apetrechos como cachimbos, vendidos por uma média de cinco euros, ou apelar para os cigarros prontos – mas aí a variedade é bastante limitada e a qualidade, um tanto inferior. As infames receitas de bolo com maconha, conhecidos como space cakes, saem por assustadores sete euros cada fatia. Embora pequena, a fatia pode tranquilamente ser compartilhada por duas ou três pessoas, pois embora aparentem ser inofensivos, os bolinhos “mágicos” surpreendem por “bater” como uma pedrada.  Os space cakes costumam ser vendidos em forma de bolo inglês ou de muffin, e sequer é possível sentir neles o sabor da Cannabis.

Maconha, aliás, é coisa de turista. Daniel Duclos, brasileiro que mora em Amsterdã desde 2007 e é autor de um blog sobre a cidade, o Ducs Amsterdam, conta que a média de holandeses que são usuários da droga chega a ser menor do que a média europeia – 5,4% contra 6,8%. Uma pesquisa realizada em 2010 pelo instituto Peil revelou que 57% dos holandeses nunca usaram nem mesmo drogas leves.

Mesmo assim, os residentes são simpáticos à curiosidade dos turistas. É que o mesmo viajante que passa no coffee shop em busca de um baseado também se hospeda, gasta e come na cidade. Afinal, são cerca de 12 milhões de turistas recebidos pela cidade anualmente. Destes, 35% vão em busca da droga, de acordo com dados da prefeitura.

Para Daniel, a vista grossa dos holandeses em relação ao turismo da maconha tem muito a ver com o fato de o povo holandês ser um dos mais tolerantes da Europa. Comprovando a teoria do blogueiro, uma escola primária do bairro Joordan fixou um aviso absurdamente simpático e educado pedindo para que os fumantes que porventura se acomodem no banco público logo em frente, não se esqueçam de se livrar dos vestígios da droga após o uso, já que as crianças que estudam ali são pequenas demais para conviver com bitucas.

Não que seja permitido fumar maconha nas ruas, mas a reação dos holandeses em relação à temática, no geral, é quase um dar de ombros, em uma atitude “não é nada demais”. E quando não é nada demais, o tabu morre. Amsterdã pode até ter prostitutas seminuas em vitrines e locais específicos para se fumar maconha. Mas o turista que espera encontrar uma atmosfera pesada na cidade por causa disso, certamente vai esquecer o estereótipo exagerado assim que sair da Centraal Station. No inverno, o cheiro dos stroopwafels – um doce feito de caramelo e waffles – e a decoração lúdica natalina espantam qualquer esperança de se encontrar ali uma cidade barra pesada no meio da Europa.

Uma das bebidas mais pedidas no Greenhouse é um inofensivo e adorável chocolate quente, que pode vir com adicional de marshmallows coloridinhos por apenas cinquenta centavos a mais. É que os coffee shops normalmente não vendem álcool – assim como os bares e pubs não vendem maconha, embora alguns permitam que o cliente traga a erva para consumir no local. É uma medida de segurança, já que a mistura das duas substâncias pode potencializar os efeitos da droga e causar reações colaterais nos clientes com as quais os gerentes definitivamente não querem ter que lidar. Então, se você for a um Coffee Shop, esqueça a cerveja e peça um chocolate quente com o adicional de marshmallows – eles valem cada centavo.

“Quer bongar?”

Em janeiro, o ar de inverno de congelar as narinas não parece incomodar os residentes de Amsterdã, que esboçam uma incredulidade quase forçada quando alguém lhes mostra os dedos roxos. “Ora, mas nem está tão frio assim” é o resmungo oficial dos holandeses para os viajantes reclamões. Frio mesmo só sentem quando precisam sair de qualquer ambiente com calefação para fumar um cigarro lá fora.

É que o tabaco, embora altamente popular no país, tem seu consumo proibido em locais fechados, como bares e restaurantes, desde 2008. Mas como a lei só se refere ao tabaco, a maconha ainda é liberada nos coffee shops. Maconha pode, tabaco não – simples assim. Daniel conta que essa lei veio seguida de alguma polêmica no país – é que os holandeses fumam muito cigarro e reclamam bastante quando precisam sair no frio para fumar. Amsterdã é cheia de surpresas caretas.

Para driblar a proibição, há quem use truques para disfarçar o uso do tabaco nos coffee shops. Rafael, um gaúcho de 20 anos e sotaque carregado, desmonta cuidadosamente um cigarro Marlboro e o remonta em papel de seda para poder fumá-lo livremente no lounge do Bulldog Hostel sem precisar sair na noite chuvosa de 5 graus. Rafael é um daqueles turistas fazem questão de ensinar os novos e leigos amigos a melhor forma de usar os recursos oferecidos pelos coffee shops. Faz amigos rapidamente – brasileiros, argentinos e ingleses e, em seguida, já os convida para sua mesa: “Quer bongar?”.

O bong é um aparelho de vidro adequado para fumar qualquer tipo de erva e que utiliza o ar e a água para purificar a fumaça.  Ele é construído de forma que a fumaça entre em contato com a água antes de ser inalada. Além de chegar mais concentrada aos pulmões, ela resfria consideravelmente, sendo uma forma mais saudável e eficaz de aproveitar os efeitos de cada tipo de erva. É possível alugar um acessório do tipo em qualquer coffee shop, e ter um bong na mesa dá um ar todo profissional às rodinhas de maconha.

No turno da madrugada do Bulldog Hostel, um segurança careca com feições de desenho animado alterna um baseado com uma xícara de chá. Para os hóspedes doentes, ele sabe indicar o tipo certo de chá e de maconha que podem acalmar dores de cabeça, gastrites e insônias. Ele explica a hierarquia silenciosa que os funcionários dos hostels da rua estabeleceram entre os tipos de fumantes, que são classificados de acordo com o a forma como consomem a maconha. Optar por um Space Cake é assinar o atestado de novato. Os já iniciados, mas ainda não muito íntimos da erva, usam cachimbos ou apelam para baseados vendidos prontos. Em seguida vêm os mais escolados, que já sabem como “bolar” um cigarro agilmente com os próprios dedos e uma boa quantidade de saliva. Os pós graduados utilizam bongs sem cerimônia e, mais importante, sem tosse – coisa de profissional.

As experiências do segurança com a maconha começaram com um space cake e por engano. Um amigo lhe ofereceu o bolinho e, meia hora depois, ele começou a se sentir atordoado. Levou algumas horas para perceber que tinha sido drogado, mas manteve a amizade. Como a maioria dos funcionários dos bares e hostels por ali, o segurança não é holandês.

Enquanto ele se serve de uma nova xícara de chá, duas meninas entram eufóricas no hostel, falando em espanhol rapidamente e com ares de crianças prestes a fazer algo errado. A mais velha, de cabelos escuros e longos, segura um saco de papel muito próximo ao corpo, enquanto a mais nova escolhe bebidas em uma máquina colocada estrategicamente em uma área comum entre o bar e o lounge para atender aos hóspedes lariquentos. Após escolher dois energéticos, elas se sentam juntas e muito espremidas no sofá e abrem o pacote de papel, deixado à mostra um space cake. Sem conseguir controlar as risadinhas, as meninas comem o bolinho calmamente, tirando fotos juntas com a câmera frontal do celular a cada passo – uma foto dando uma mordida, outra deixando o bolinho em primeiro plano e, finalmente, um clique do pacotinho vazio. “Viu? É disso que estou falando”, diverte-se o segurança, quando as meninas finalmente entram no elevador e rumam para os quartos.

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