Cuba: Hemingway, mojitos e nada de máfia

Texto por Julliana Bauer / Arte por Sarah Bauer

 

hemingway

 

11.06

É engraçado perceber como a ideia que temos de uma cidade antes de conhecê-la é sempre, sempre, sempre muito diferente da cidade com a qual finalmente nos deparamos. E que é só pisar pra fora do aeroporto para que todo aquele cenário imaginado por tanto tempo – puf !– apenas desapareça completamente das nossas cabeças e seja substituído pelo real. Tento me lembrar de como eu imaginava Havana ao longo dos tantos anos em que quis conhecê-la. Não consigo. Foi uma viagem que adiei por três ou quatro anos, sempre impedida pela falta de grana, falta de tempo, falta de planejamento.

Você pode ver todos os documentários disponíveis sobre Cuba, sobre a Revolução Cubana e sobre o Fidel Castro que encontrar disponíveis por torrents ou no Netflix, pode ver O Poderoso Chefão Parte II, pode ler mil blogs de viagens, mas nada vai te preparar tanto para Cuba quando assistir a Dirty Dancing 2: Havana Nights. Porque a vibe em Havana é assim: você está caminhando por uma ruazinha assustadoramente escura em Habana Vieja tentando desviar dos muitos cocôs de cachorro que transformam qualquer rua sem asfalto em um campo minado, quando ouve uma música muito alta vindo do segundo andar de uma casa qualquer em um horário muito improvável. Aí você atravessa a rua e um homem aparece do nada te perguntando onde você planeja bailar naquela noite, ou te convidando pra dar uns passos de salsa ali mesmo, e quando você tenta desviar do maluco, outro bróder surge com um celular com toques polifônicos tocando a música da moda no volume máximo.

O ar de Havana é pesado e quente, que umedece as narinas e se mistura com a poeira palpável das ruas. É uma cidade barulhenta, não por causa do trânsito – por causa das pessoas, que cantam, gritam e gargalham muito alto, oferecendo serviços de táxi, de cocotáxi, de bicitáxi. É como andar por uma cidade de interior nos anos 90 no Brasil – as crianças jogam bolinha de gude nas ruas, andam de bicicleta tentando fazer manobras e ficam com os pés pretos, pretos, pretos da poeira. Quando percebem a presença de estrangeiros, correm atrás deles pedindo um euro, um chinelo, um chocolate ou um presente que possam levar para as mães. “En Cuba no hay mafia, solo socialismo, lady!”, repetem uma, duas, três vezes, tentando conseguir alguma coisa. Os adultos sentam-se na rua pra ver o movimento, pra conversar com os vizinhos ou, por que não, pra curtir uma música da moda com toques polifônicos no celular.

Quando chegamos ao aeroporto, um funcionário da segurança pediu que eu abrisse minha mochila e mostrasse os livros que eu carregava comigo. Mostrei primeiro um caderno, que ele folheou e sacudiu, na esperança de que caísse algum documento ou papel proibidão. Em seguida, pegou meu livro – Cem Anos de Solidão, e examinou a capa, deu mais uma sacudida, sorriu e me disse: “que buen libro, chica”.

 

12.06

Optamos por ficar em uma casa de renta, uma opção bem mais barata do que os hotéis e que custa algo como 35 reais a diária por pessoa. É meio enganação acreditar que ficando em uma casa de renta, será possível ver como vivem os cubanos, porque as casas de renta são como pensões – é um negócio para os cubanos, que precisam pagar uma taxa mensal ao governo para poder receber turistas. A que escolhemos se parece muito com um mix da casa do meu avô paterno com a casa dos meus avós maternos. Tudo é muito antigo e tem muitos quadros espalhados pelas paredes. O pé esquerdo deve ter uns seis metros e há lustres pesadíssimos em cada cômodo. Vista de fora, é horrenda. Por dentro, maravilhosa. Tudo em Havana é assim: horroroso e incrivelmente lindo ao mesmo tempo.

Havana tem homens, muitos homens. Por algum motivo, eles curtem ficar sentados na soleira das casas apenas vendo o tempo passar. Se em uma ruazinha qualquer tiver uns nove homens sentados nas beirada das portas, ou consertando um carro ou apenas batendo um papo com um vizinho e você resolver passar por essa ruazinha, pode ter certeza que os nove caras vão mexer com você ao mesmo tempo, vão berrar, vão te gritar cantadas em todas as línguas que eles conhecerem e, quem sabe, vão te seguir por uma quadra ou duas. No começo, é bem assustador.

–          Lady.

–          …

–          LAAAAAAAADY! BEEEAUTIFUL LADY! WHERE ARE YOU FROM? MÉEEEEEEXICO? I LOVE YOU! PRECIOSA, DIOSA, QUIERES UN NOVIO?

–          …

–          LAAAAAAAAAAAAAAAADY!

O fato de estarmos em três mulheres não colabora muito. Voltando de um bar, perto das 23h, fomos cercadas por motoristas de bicitáxis que, inconformados com nosso tratamento de silêncio perante as cantadas, fecharam nosso caminho com as rodas de uma bicicleta e berraram: “Tenham modos!”. Eu devo ter pisado em uns três cocôs de cachorro naquele dia, tentando apressar o passo pra fugir dos bicitáxis.

A verdade é que fora as cantadas, os homens cubanos são quase passivos. O medo constante da polícia faz com que eles não tentem tocar nas mulheres sem consentimento, e as cantadas se tornam, como no resto do mundo, em uma mera questão de poder. Quando comentei sobre a situação com a cozinheira que trabalhava em nossa casa de renta, ela me olhou como se eu fosse muito inocente e disse: “e você acha que os estrangeiros que vêm pra cá não tratam as mulheres cubanas exatamente da mesma forma?”.

 

***

 

Acho que a santíssima trindade de referências culturais cubanas é formada por Fidel, Che e Hemingway. O primeiro porque mandava, o segundo porque morreu (e era extremamente fotogênico) e o terceiro porque é um dos únicos gringos que os cubanos aceitaram como se fosse um deles. Hemingway optou por viver uma vida simplona em Cuba, e os cubanos o respeitam por isso. É claro que tem também o fato de que Havana é muitíssimo visitada por europeus sexagenários, e europeus sexagenários aparentemente têm um fetiche por Hemingway. Há referências dele por tudo: os hotéis parecem disputar o título de qual foi o que mais o hospedou, cada botequim se gaba de ser o que fazia seu mojito ou seu daiquiri preferido.

Fomos ver o jogo do Brasil contra a Croácia no hotel Ambos Mundos , que é recheado de fotografias do escritor. Só gringos idosos e ricos circulam por lá, confirmando a teoria de que gringos idosos adoram o Hemingway. Eu particularmente não o coloco em minha lista de favoritos, mas vai ver Hemingway é uma daquelas coisas tipo frutas cristalizadas: você precisa ter pelo menos 65 anos pra começar a curtir.

De noite, paramos meio que por acaso na Bodeguita del Medio, a bodeguita mais famosa de Havana, onde bebia, é claro, Hemingway. Um quadro na parede, assinado pelo próprio escritor, diz: “My mojito in La Bodeguita. My daiquiri in El Floridita”. O lugar é pequeno e apertado e recheado de alemães tentando mexer os quadris ao som de clássicos da música cubana. Como bônus, o barman nos ensinou a fumar charutos como “profissionais”.

Um senhor espanhol de 84 anos me tirou pra dançar. Ele me contou que é poeta e escritor, e estava lá com a namorada – uma mulher muito empolgada de uns sessenta e tantos anos que dançava como se seu quadril fosse independente do corpo, rodopiava e cantava pelo salão minúsculo, rindo alto e puxando assunto. Lá pelas tantas, o espanhol tirou um caderninho da bolsa da namorada e começou a ler um poema. A banda parou de tocar e naquele momento e todos se viraram para ouvir o homem. Eram uns poucos versos sobre como ele tinha conhecido a esposa dele ali mesmo, na Bodeguita, e como ele nunca vai esquecê-la após ela ter morrido de câncer. A namorada apoiava as duas mãos sobre os ombros dele e, assim que o poema terminou, pediu para que a banda tocasse El Cuarto de Tula.

O mojito da Bodeguita del Medio é o melhor da cidade, de Cuba e do mundo. Hemingway era um mala, mas ele certamente sabia beber.

 

(…continua?)

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