Vacas Cubanas

Texto por Julliana Bauer / Arte por Sarah Bauer

 

vaca sagrada

 

É proibido matar vacas em cuba. Se um cubano matar uma vaca pra fazer um bifinho acebolado e for descoberto, esse cara estará em sérios problemas com a polícia. É que as vacas em Cuba são contadinhas e fiscalizadíssimas, sabe, e o governo se emputece muito se descobre que mataram alguma delas sem autorização. Acho que essa foi uma das primeiras informações que li sobre o país quando comprei as passagens, e a usei pra puxar assunto com estranhos no Brasil por um bom tempo. Sei lá, se uma pessoa não acha interessante que matar vacas em Cuba é crime, acho que não quero continuar a ter uma conversa com ela.

14.06

“Varadero não é Cuba, é Europa”, disse-nos um cubano sobre a praia mais requisitada da ilha. Para chegar a Varadero, cidade que fica a duas horas de Havana, resolvemos alugar um carro. Pagamos caro e tivemos muitos problemas com a falta de sinalização nas estradas, que nos fez cair num lugar chamado Marianao, onde os locais se cutucavam nas calçadas apontando para as três turistonas obviamente perdidas. Pedir informação a policiais não nos ajudou muito, e eles basicamente nos mandaram retornar a Havana e recomeçar todo o trajeto do zero, sendo que já estávamos há uma hora rodando pelas estradas.

A falta de placas com direções é compensada com uma quantidade assustadora de imagens com frases motivacionais de guerrilheiros famosos. Não são frases sobre a revolução e sobre o socialismo, como as que pipocam por cada esquina de Havana, mas mensagens tipo aquelas que brasileiro adora atribuir erroneamente ao Jô Soares e fazer montagenzinha cafona no Facebook. Só que lá elas estão em espanhol e vêm com uma imagem do Karl Marx, o que, vou confessar, dá todo um ar romântico pra coisa. O Fidel, aliás, já demorou pra dar um prêmio de design pros caras que criaram essas imagens, elas são incríveis, limpas e nunca, nunquinha escritas em fontes estúpidas.

**

Nosso resort em Varadero era tão, mas tão cilada, que dá pra resumir o nível da tosqueira com a seguinte cena: na lanchonete da piscina, um menino de uns três anos tirou a mini-coisinha pra fora da sunga e mijou na frente do balcão. Mi-jou. Por uns trinta segundos. Tinha umas vinte pessoas descalças por perto, e a água que escorria das roupas de banho da galera se misturava ao xixi do menino, mas ninguém pareceu se importar. Quando ele terminou, a mãe do moleque, que estava ali o tempo todo, só olhou pra ele e perguntou:

–  Balançou bem?

Cuba tem a cultura da gorjeta mais assustadora que já conheci. Você pode escolher um bar a dedo justamente por ele ser o único a não ter uma banda tocando Guantanamera repetidamente, mas pode crer que antes mesmo de você bebericar o primeiro mojito, uma banda de doze pessoas vai entrar vestida a caráter e chacoalhar uma cestinha no seu nariz pedindo uma propinita ou oferecendo um CD. Aí você dá uns trocos pra galera não te fuzilar com os olhos e, em seguida, uma segunda banda surge com direito a dançarinos e tudo.

Em uma noite meio tensa, eu estava sem moedas para dar aos músicos e disse que daria assim que trocasse dinheiro, mas um deles me segurou muito forte pelo braço exigindo a gorjeta, e eu fiquei tão puta que o empurrei de leve e fui embora do bar. Na versão da história que recriei em minha cabeça mais tarde, eu usei uma estrela ninja para agredi-lo e fiz uma releitura de um daqueles golpes que só As Panteras fazem, embora eu não saiba ao certo pra quê servem ou como funcionam estrelas ninjas.

As ciladas de Varadero são perfeitamente justificáveis: a praia é a mais bonita que já vi na vida, com água muito verde e areia muito branca. O pessoal dos resorts prefere ficar na piscina mijada e deixa a praia praticamente vazia.

 

15.06

A primeira vez que um cubano sentiu dó de mim por eu ser brasileira aconteceu quando fomos estacionar o carro em um dos muitos e caros estacionamentos do governo, na volta de Varadero. Ao abrirmos as portas do carro, fomos abordadas pelo fiscal do estacionamento, dois homens querendo oferecer passeios turísticos e dois menininhos que pediam dinheiro e meus chinelos. Foi atordoante, ninguém parava de falar e oferecer coisas e um homem me encurralou tanto que bati minha cabeça na porta do bagageiro do carro. Ele então me abraçou para pedir desculpas, passou a mão nos meus cabelos por 40 segundos muito desconfortáveis e e me contou que a mãe dele está trabalhando como médica no Brasil. Perguntei se ela estava gostando.

 Ai meu Deus, não! O Brasil é muito perigoso, mas ao menos ela ganha um pouco mais por lá.

Os cubanos tem muita dó dos brasileiros. Eles leem e ouvem muito sobre a violência e pobreza do Brasil, e sempre fazem uma cara de “vixe” quando ouvem que somos brasileiras. A novela que mais bomba por lá agora é Salve Jorge, e imagino que ver uma Nanda Costa saindo de uma favela e sendo traficada como escrava sexual não ajuda a desmentir muito essa imagem.

Os meninos que queriam dinheiro continuaram andando conosco por uma quadra ou duas. Eles tinham a pele negra de um tom aveludado, a cabeça raspada, olhos muito grandes e não usavam camisa. Vencida pelo cansaço, dei a eles um sabonete que estávamos usando pra disfarçar o fedor do carro e, de repente, mais dois surgiram do nada, pedindo também sabonetes, dinheiro e comida. Eram todos irmãos e muito parecidos, formando um pianinho de cubaninhos exatamente iguais.

 

16.06

Há apenas quatro ônibus diários que levam os cidadãos de Havana para Viñales e outras cidades ali por perto. Para conseguir uma vaga no ônibus, os cubanos precisam fazer reservas com quatro dias de antecedência, o que faz com que as estradas e pontos de ônibus sejam abarrotados de gente pedindo carona. Em nosso caminho a Viñales, fomos paradas por um homem que parecia ser da polícia. Ele queria que levássemos um homem até Piñar del Rio de carona. Nossas experiências com homens cubanos até então não tinham sido as melhores, mas concordamos. Percebendo nosso receio, o oficial pediu ao caroneiro a cédula de identidade e sugeriu que ela ficasse conosco até o fim da carona, por “motivos de segurança”, mas acho que nossas expressões de constrangimento com aquele absurdo ficaram bem óbvias, porque o próprio policial resolveu devolver o documento ao homem.

Wilson, nosso caroneiro, trabalhava em uma plantação de tabaco. Encontrá-lo foi a nossa sorte, pois ele nos levou até a fazenda onde trabalhava, e ganhamos charutos, café e uma visita guiada pela fazenda, onde os funcionários nos mostraram como são feitos os charutos. Eles nos mostraram os preferidos de Che e de Fidel e pediram que provássemos algum de nossa escolha . Escolhi o do Fidel, pois tenho fetiches pelo poder.

Ao longo do caminho, Wilson nos mostrava as plantações de milho, feijão e nos contava sobre a vida do pessoal que trabalha com o tabaco. Wilson já nasceu na Cuba socialista e sempre trabalhou com tabaco, como fizeram também seu pai e avô. Demorei muito a fazer a Wilson a pergunta que eu queria ter feito desde que ele tinha entrado no carro. Quando ele retornou após uma parada para ir ao banheiro, tomei coragem e perguntei:

– É verdade que é proibido matar vacas por aqui?

Entendam que eu fiz a pergunta sorrindo e forjando descontração, para o caso de precisar fingir que estava brincando se ele achasse minha pergunta muito estúpida. Aí o Wilson me olhou pelo retrovisor, ergueu as sobrancelhas, deu um suspiro muito longo e respondeu:

– Bem, digamos que se algum dia eu matar uma vaca para comer e um vizinho em quem não confio muito chegar no meio da refeição me perguntando o que estou comendo, vou logo responder: “PORCO!”.

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6 opiniões sobre “Vacas Cubanas

  1. Ir á Cuba nem de graça,dar carona a desconhecidos??kkkkkk nem pensar!
    E a piscina do resort?banheiro fechado,ir á praia? banheiro aberto!kkkk
    Esqueceram de contar a parte boa da viagem!!!
    E um pergunta que não quer calar,vão voltar para cuba?
    Adorei o texto bjim!

    Att.:Safira

    • Oi Safira,

      Cuba é uma viagem beeem bacana, eu voltaria, sim! é claro que eles levam um estilo de vida bem diferente do nosso, mas essa é uma das coisas mais legais de se perceber na viagem. e você tem razão, a piscina mijada não rolava de encarar mesmo, haha, mas a praia estava limpíssima, deusa e maravilhosa! obrigada pela visita, beijo!

  2. Gostei muitíssimo. Um texto bem construído, agradável e ainda por cima informativo. E digo mais o seguinte: LONGA VIDA ÀS VAQUINHAS de CUBA! rsrs

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