Aranhas e fantasmas

Texto por Julliana Bauer / Arte por Sarah Bauer

 

matando aranha

 

Eu tenho uma dificuldade imensa de me decidir se tenho mais medo de aranhas ou de fantasmas. Na boa, não entendo uma pessoa que não tenha medo de aranhas – elas são medonhas, pernudas e andam bizarramente rápido. Eu até entendo pessoas que não tenham medo de fantasmas – deve ter quem sinta um certo conforto na ideia de acordar com uma alma penada de pé lhe fazendo companhia no quarto. Sei lá, tem carência pra tudo.

E daí que minha mãe viajou e eu fiquei sozinha em casa e, depois dos 20, ficar sozinha em casa já não tem mais aquele tom de UHUU FESTA, mas só faz com que você tenha mais tretas pra resolver – tipo matar você mesma suas aranhas. E o que aconteceu foi que, em uma segunda-feira pós treino de boxe, eu estava saindo do banho e fui alcançar meu hidratante, quando vi uma aranha marrom imensa e disforme saindo do ralo da pia. Ok, sem pânico. Por cerca de três segundos, pensei em minhas opções. Eu poderia tacar veneno nela, só que o veneno estava lá na lavanderia, e eu teria que caminhar uns trinta passos – no tempo de trinta passos, a filha da puta poderia se esconder, e como é que eu iria conseguir dormir sabendo que tinha uma aranha viva na minha casa? Sem chance.

Chamar um vizinho pra matar uma aranha também não fazia sentido. Eu e minhas primas já fizemos isso uma vez no apartamento da praia e, acredite, pode passar uma ideia muito errada. Fora que a casa está uma bagunça e nós raramente vamos em reuniões de condomínio, certeza que o vizinho em questão aproveitaria nossa ausência para espalhar pra todo mundo que, além de chama-lo para “matar uma aranha” depois das 23h, eu também largo canecas com três dedos de água em cada cômodo da casa. Nem pensar. O jeito era fazer de uma forma mais bruta, mais pessoal mesmo – a boa e velha chinelada. Só que meus chinelos estavam no quarto.

Tive que praticar o desapego. Peguei meu desodorante aerosol novinho – daqueles caros, sem perfume, sem parabenos e etc e etc – e borrifei naquela vagabunda. Ela se contorceu em um rolinho e…não morreu. Liguei a torneira. A água até a desnorteava, ela forjava um breve afogamento, mas não, não morria a desgraçada. Sério, como uma pessoa pode não ter medo de uma coisa dessas? Dei mais uma borrifada de desodorante e corri no quarto buscar o chinelo. Esperei a água escorrer, a aranha se contorcer num rolinho novamente e a esmaguei. Crec. Morreu. Na boa, não sinto prazer algum em matar uma aranha, nem mesmo um feeling de “A-HA”, sinto mesmo é desgosto e pavor de que as irmãs, primas e cunhadas da falecida venham se vingar.

Foi aí que me dei conta de que estava nua. Tipo, nua não, de toalha na cabeça, no meio da sala, com a janela e persiana escancaradas e uma havaiana branca e azul na mão. E que no prédio ao lado, muitas luzes estavam acesas e muitos vizinhos pareciam estar de boaça na janela. Não que seja possível me identificar do prédio ao lado. Mas acho que a silhueta de uma peladona desesperada tentando borrifar uma aranha até a morte é meio que inconfundível. E agora, além de torcer para que a parentada da aranha assassinada não volte pra se vingar de mim de madrugada, terei que torcer para que nenhum vizinho tenha uma teleobjetiva dando bobeira em casa. Pensando bem, meu medo de fantasmas me é bem mais conveniente.

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4 opiniões sobre “Aranhas e fantasmas

  1. Não é perseguição,adoro os devaneios e sempre venho comentar! 😀
    Odeio insetos em geral, e já paralisei uma barata com um spray fixador/laquê,e pedi pra minha irmã matar!(claro).
    Como sempre ótimo!
    bjim!!!
    Tô sentido falta das criativas ilustrações!
    Att.:Safira

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