Limbo

Julliana Bauer

Existe um pequeno limbo quando estamos aprendendo uma nova língua, que fica localizado talvez entre a segunda e a décima aula, no qual já sabemos nos apresentar, mas ainda não sabemos ao certo como lidar com questões realmente importantes quando necessitamos colocar a tal língua à prova para evitar situações constrangedoras. Cursos de línguas sempre te obrigam a aprender primeiro a se apresentar, e não a perguntar onde fica o banheiro mais próximo.

Estou em minha quinta aula de italiano e ainda não sei bem como perguntar onde fica o banheiro mais próximo, mas já sei contar ao mundo que sou jornalista, quantas línguas falo e onde fica o escritório onde trabalho. É claro que nenhum colega nunca memoriza o que todos os outros dez fazem, onde trabalham e quantas línguas falam, então já repetimos a apresentação pessoal à exaustão.

Dia desses, eu sonhei que estava presa em um navio com um bando de italianos, e que a única pessoa que me entendia por ali era minha professora de italiano, mas ela tinha encasquetado que só falaria português ao longo de toda a viagem. Para meu azar, eu precisava muito fazer xixi. Ainda não criei intimidade o suficiente com a professora para contar o tal sonho, mas venho estudando italiano em casa por conta própria nos finais de semana por medo de se tratar de um sonho premonitivo – deus me livre de ficar segurando o xixi por não saber perguntar onde fica o banheiro.

Na terceira série, meu pai foi transferido de cidade, e me matriculou em um colégio particular que contava com aulas de espanhol e inglês – e eu era a única aluna da sala que ainda não tinha tido aulas de inglês. Todos já sabiam se apresentar, contar até o dez e listar pelo menos oito cores, mas eu vinha de uma escola pública e não entendia bulhufas. A professora se esquivava da tarefa de me ensinar o conteúdo anterior à minha chegada, eu me descabelava de chorar por não entender nada e acabei indo parar no CCAA para ficar no nível dos colegas.

Agora, mais de quinze anos mais tarde, ainda sinto o mesmo pavor de não conseguir acompanhar uma turma de dez estudantes, mas ao menos já conto com ferramentas tecnológicas pra descobrir como traduzir uma frase besta sobre a localização do banheiro para o italiano, alemão e, quem sabe, o russo. Mas de algum modo, ainda desejo que a professora de inglês da terceira série se flagre com uma bela intoxicação alimentar e buscando desesperadamente por um banheiro em um país de idioma que ela não domina.

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