Cabelos da nuca

Texto:Julliana Bauer/ Fotografia: July Portioli

cabelos nuca

Prender os cabelos antes de entrar na piscina é um mau sinal. Prendê-los antes de entrar no mar é pior ainda. Não adianta, as ondas vão dar um jeito de desmanchar o seu rabo de cavalo e dar uma caldo de sal nas suas luzes, te despentear e criar verdadeiros ninhos naqueles cabelinhos perto da sua nuca. Prender os cabelos antes de entrar na água deveria estar naquelas listas engraçadinhas de coisas que indicam que você está ficando velha de espírito.

Eu tinha uma amiga de infância que teve que cortar os cabelos após uma temporada de idas diárias à piscina do clube, porque os fios loiros ficaram verdes do cloro da água. Ao longo do ano letivo, o cabelo foi crescendo, e quando chegou o verão seguinte, as pontas se esverdearam do cloro e ela precisou cortá-lo novamente. Acho que me lembro dessa amiga por causa dos cabelos verdes de cloro e também porque ela usou chupeta até uns sete anos. Sempre que eu ia visitá-la, pela manhã, ela estava dormindo em um berço, parecendo um grande bebê de sete anos, chupeta na boca e cabelos esverdeados.

Nós morávamos em Crissiumal, uma cidade muito pequena do Rio Grande do Sul, e o clube ficava a poucas quadras da minha casa, mas longe o suficiente para deixar qualquer mãe preocupada em largar os filhos pequenos atravessando ruas para chegar a um clube onde nadariam sozinhos em uma piscina feita para adultos. Mas não a minha mãe. E aparentemente nem a mãe das minhas amigas – acho que aquela cidade pequena dava uma tranquilidade digna de Stars Hollow pras mães locais, que se ocupavam em organizar os jantares do Rotary e deixavam os filhos adquirindo street smart no clube aquático ou no CTG.

Além de desencanadas com segurança, as mães de Crissiumal também eram desapegadas do cabelo da criançada. Ficou verde do cloro? Corta. Pegou piolho? Raspa. Pelos dois anos em que morei lá, a filha bebê de uma vizinha ostentou a cabeça sempre raspada apenas para prevenir os piolhos. Até minha mãe entrou na onda e raspou os cabelos da minha nuca para evitar que se embolassem com o suor, o que me fazia parecer uma mini punk hiper bronzeada quando eu usava um rabo de cavalo.

Talvez minha memória esteja editando os fatos pra fazer minha infância parecer mais glamourosa e aventureira, mas me recordo de sair correndo de maiô pelas ruas da cidade, passar no restaurante dos pais da menina de cabelo verde e chamá-la para irmos ao clube. O local era frequentado por todas as crianças da escola e, ocasionalmente, por algum jogador decadente do Grêmio, que fazia a piazada se aglomerar para conseguir um autógrafo. Não tem nada mais anos noventa do que autógrafos.

Quando saímos de Crissiumal e fomos morar em uma cidade também minúscula no litoral de Santa Catarina, os cabelos da minha nuca já tinham crescido o suficiente pra criar um visual Chitãozinho e Xororó às avessas, com a camada de baixo bizarramente mais curta que a de cima. A única piscina disponível por perto era a da vizinha, que tinha cabelos de corte e cor comuns e usava a piscina como moeda de troca para brincar com as minhas barbies preferidas.

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