Papo estranho

Entro em pânico quando percebo que tem uma celebridade no mesmo voo que eu. Se o avião cair, na certa essa pessoa vai ofuscar a minha morte, e eu só vou ganhar um obituário de poucas linhas no jornal. Não sou muito narcisista, mas faço questão da principal regalia proporcionada pela morte: a de sermos lembrados como pessoas bem melhores do que realmente fomos.

Já peguei um voo com Arnaldo Jabor. Ele não é exatamente uma celebridade, mas no caso de uma queda de avião, choveria montagens no Facebook com aquelas frases erroneamente atribuídas a ele. Para mim, sobraria apenas uma foto de um ângulo ruim sendo compartilhada à exaustão por familiares.

Na volta, Ricardo Amorim estava na mesma fila de embarque que eu. Tremi. Além de ter visto personalidades reacionárias demais pra uma viagem só, pensei nas últimas fotos que eu tinha postado em minha conta do Instagram. Imaginei meus amigos me stalkeando ao saber da minha morte e encontrando imagens de algum momento vexatório de minhas férias.

Se eu morresse hoje em algum acidente trágico, ou – em um cenário um pouco menos mórbido – fosse apenas sequestrada, os curiosos encontrariam em meu Instagram registros de meus sobrinhos, de uma tentativa frustrada de pintar as pontas do meu cabelo de azul e uma foto minha segurando uma caneca com os dizeres “Slut Pride”. Neste caso, eu provavelmente torceria para ao menos passar pela tragédia em questão na companhia de alguma mulher-fruta que tenha sido destaque no Ego em 2009. Biografia é uma só.

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