Domingo.

Nada de ruim nunca me aconteceu num domingo. Nas sextas-feiras já somei algumas decepções, as segundas eu sempre acho lastimáveis e já tive um bom par de terças raivosas, mas domingos sempre foram dias neutros. Tive cerca de cinco domingos interessantes neste ano – e acho que o primeiro deles foi em maio. Estava começando a ficar frio, mas eu ainda não estava vestida apropriadamente para o inverno. Eu usava uma regata e um casaco muito pesado, de forma que ficava muito quente enquanto eu o usava e muito frio quando o tirava, então eu ficava tirando e colocando aquela peça desengonçada feito besta.

Às 16h, minha prima me chamou para sair e beber algo,às 17h eu toquei o interfone da casa dela e às 18h30 já estávamos rodeando os bares do centro em busca de um lugar com algum vestígio de vida. A prima bebeu uma cerveja. Eu, um mojito horroroso. Passamos umas três horas sentando em mesas de bares diferentes, quase sempre sem pedir nada. No último e já meio alegres, nos desentendemos com um rapaz que jogava sinuca, e estávamos prestes a ir embora quando percebemos dois senhores que nos observavam do outro lado do bar. Só me lembro bem de um deles – alto, de porte grande que usava um terno risca de giz – coisa que sempre vai me lembrar do Poderoso Chefão. Ele também tinha bigode e cabelos brancos, o que certamente ajudaria na referência a Marlon Brando, se o homem em questão não fosse tão sorridente. Ele jogava a cabeça para trás quando ria e insistia que bebêssemos um licor da escolha dele. Não vou me lembrar qual era, mas era adocicado, desse tipo de bebida que os avôs sempre têm em casa para que possam beber escondidos aos domingos.

Bebemos uma dose, e depois outra, e então atrapalhamos mais um pouco o jogo de sinuca do menino ranzinza com quem tínhamos brigado mais cedo. Em um momento, o senhor pediu que eu estendesse uma mão. Estendi. Ele me entregou um parafuso e uma porca, dizendo que aquilo era “um convite”. Eu então ri muito, acho que ri jogando minha cabeça para trás, tenho essa mania boba e meio inconsciente de imitar os trejeitos de pessoas que acabei de conhecer. Guardei o parafuso e a porca no bolso do casaco. Sentei no meio-fio para esperar meu táxi e pensei que tinha acabado de afogar a feminista dentro de mim ao achar engraçada a piada infantil do parafuso e porca de um homem que conheci em um bar com mesa de sinuca.

Nunca tirei o parafuso e a porca do bolso. Me diverte a ideia de sempre encontra-los quando visto o casaco. Agora, sempre que o uso, lembro da piada boba e do licor enjoativo quando meto as mãos nos bolsos. Em uma terça raivosa, fui alcançar meu cartão-transporte e derrubei o parafuso sem querer no chão do ônibus. Ele foi rolando, rolando, rolando até ser interrompido pelos pés de uma mulher. Ela me entregou o objeto e sugeriu que eu me sentasse ao lado dela. Desliguei a música que ouvia e obedeci. “Não sei por que uma moça da sua idade sai por aí caçando parafusos”, ela me disse, “mas não deve fazer mal ter um segredo”.

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