Homens e livros

Homens gostam de me dar livros. E eu gosto muito de recebê-los, mas a reincidência meio que eliminou o fator surpresa, e eu já tenho uma área especial em minha mini biblioteca para livros que ganhei de alguns ex-casinhos. Acho que é bem melhor que ganhar cacarecos da Imaginarium. Às vezes tenho ganas de realizar rituais de magia negra com aqueles que foram presentes de gente que me sacaneou de alguma forma, mas penso que a futura Julliana de 30 anos um dia riria da cara da atual por ter eliminado memórias curiosas do passado.

Eu gosto muito de ler, mas não faço aquele tipo aficionada por livros que bate metas criadas por si mesma para a leitura mensal. Leio com calma, por vezes até espaçadamente, intercalando um mês sem leitura alguma com meses de leitura frenética. Que meus amigos jornalistas não leiam isso – rola quase uma competição de quem é maior leitorzão nesse meio. Bobagem.

Gosto muito da coisificação do livro – não é objeto pra ficar preciosinho e impecável em estante, é pra ser usado e rabiscado mesmo. Quando compro livros em sebos, dou preferência àqueles que tenham anotações e frases sublinhadas ao folhear as páginas. É fascinante pensar em toda a trajetória que ele pode ter percorrido antes de chegar as minhas mãos.

Tinha um rapaz que me emprestava livros de todo e qualquer autor que eu ainda desconhecia e de quem ele era fã. Se não me engano, começou com O Grande Gatsby, que eu só fui ler mesmo anos depois, por pura birra. Ele cobrava quase diariamente a minha leitura e me mandava links de críticas que deveriam complementá-la. Algumas julgariam isso fofo, eu achava meio psicótico. Era como se ele quisesse me educar para que eu ficasse à altura dele na coisa toda.

Mais recentemente, passei alguns dias conversando no Tinder (sim, no Tinder) com um cara de cabelos cacheados que dizia ser fã de Cortázar. Veja bem, nós estávamos conversando já há alguns dias, mas foi só aí que ele prendeu de vez minha atenção. Tenho um fraco por Cortázar – e por cabelos cacheados. Por motivos de força maior, nunca conheci o cara pessoalmente, mas após o incidente, resgatei um livro antigo de poemas do autor que comprei num sebo.

Se esse papo todo tivesse que ter uma moral, acho que seria de que algumas pessoas entram em nossas vidas para resgatar o Cortázar esquecido ou aumentar nossas bibliotecas. Outras, para nos lembrar do quanto detestamos a narrativa de Fitzgerald.

Escrevi sobre esse tema por causa de um texto da Isa, na Gazeta, e de uma conversa que tive com ela a respeito depois.

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