Miudezas

Pelo menos uma vez por dia, ao longo da última semana, me flagrei tirando do bolso de meu único casaco as chaves do apartamento que alugo em Florença. Olho fixamente para cada uma delas – grandes, velhas e pesadas, porque abrem portas grandes, velhas e pesadas, e me certifico de que sim, ainda estão ali. Posso perder tudo, menos as chaves de casa. Não possuo ainda um número de uma operadora italiana para ligar para meu senhorio, não conheço bem as pessoas que dividem apartamento comigo e já criei um certo afeto pelo quarto minúsculo e infantil em que fui colocada.

Vivo com um rapaz de Israel que estuda arquitetura e com uma italiana que trabalha como advogada. Tudo o que sei sobre eles vem de informações colhidas nos banheiros que dividimos. Ele tem cabelos secos, a julgar pelos shampoos com três tipos de óleos hidratantes que deixa no boxe (abacate, karité e oliva). Ela possui calcinhas bege em grandes quantidades, as quais deixa por dias secando penduradas no aquecedor.

Meu senhorio é um homem idoso e extremamente entusiasmado sobre tudo. No apartamento em que vivo, ele deixa sua biblioteca particular de livros de temas que variam entre arte e romances melosos. Desde que me viu enfiando o nariz pra tentar reconhecer algum título, ele separa livros pesadíssimos de arte com muitas gravuras e poucos textos para que eu leia. Acho que ele percebeu que meu nível de conhecimento da língua ainda não permite nada além disso.

Em meu primeiro dia na cidade, ainda arrastando malas e esperando por um sinal de vida de meu senhorio, testemunhei uma idosa americana tentando dar um golpe em uma vendedora ambulante de souvenirs. Passou uma nota falsa de vinte euros e, minutos depois, ao ser denunciada, continuou a engolir, trêmula, uma porção de chips na sacada de um restaurante turístico, onde foi protegida por outros turistas americanos que alegavam que a vendedora é quem tinha dado o golpe. A situação toda foi resolvida com uma discreta troca de notas, e com a garçonete italiana consolando a cliente pela situação constrangedora com uma taça grátis de prosecco. Minutos mais tarde, a mesma garçonete declinou educadamente a mesma nota falsa que a americana novamente tentava repassar – desta vez, para pagar a conta do restaurante.

Por um tanto de preguiça e outro tanto de praticidade, elegi o café na esquina de casa como o melhor da cidade. Gosto de sentar–me em uma banqueta alta, pedir um café com leite e fingir que entendo algo no jornal esportivo amassado sobre o balcão. Durante a semana, tento ignorar os cornettos, as rosquinhas açucaradas, os enormes biscoitos decorados e os sanduíches de presunto dispostos na vitrine. Mas em uma quinta-feira particularmente gelada, esqueci de ver a previsão do tempo e saí de casa só com uma jaqueta jeans e um lenço amarelo amarrado no pescoço. Ao passar para pegar meu café, o dono do estabelecimento – um velhinho magrelo e calvo, me entregou dois biscoitos de chocolate em formato de coração quando viu que eu me preparava para ir embora. “Tá frio demais pra não comer biscotti”, explicou. E é assim que se cria uma dependente. No mesmo dia, passei mais duas vezes no café para buscar mais biscotti – que quando não são dados pelo dono, custam quarenta centavos cada.

Migas posando pra foto, queria ter entrado junto #firenze

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