Caravaggio matou um cara

Acho que foi antes mesmo de completar minha primeira semana em Florença que decidi parar de desviar de fotos de turistas. Leva tempo demais em uma cidade em que, bem, quase todo mundo é turista. Tenho uma ótima tolerância a comportamentos tipicamente turísticos alheios, como formar filas para tomar o Gelato X ou me esquivar dos paus de selfie que surgem sem aviso prévio a 3 cm do meu rosto; mas se eu for parar ou desviar de cada foto que é tirada em meu caminho diário pra atravessar a Piazza del Duomo, eu simplesmente não chegaria a meu destino final em um horário razoável.

Calculo que pelo menos 50 estranhos de diferentes lugares do mundo já devem ter me fotografado por acidente em uma tentativa de tirar uma foto de um monumento, de um pôr do sol na Ponte Vecchio ou um quadro de Caravaggio. Aí eu me flagro pensando que se essa galera toda decidisse não deletar as fotos em que nem tão acidentalmente assim apareço e passasse a me marcar em todas elas no Facebook, eu já teria um book completíssimo em Florença. Seria maravilhoso, considerando que estou viajando sozinha e raramente tenho ganas de bater uma selfie com uma paisagem renascentista atrás de mim – meu cabeção sempre cobre todas as partes interessantes do cenário, então já nem me dou mais ao trabalho.

Dia desses atravessei a Galleria dei Uffizi inteira procurando pelos quadros de Caravaggio. Passei por Da Vinci, por Botticelli, por trocentas salas dedicadas a imagens da Virgem Maria dando o peito a um menino Jesus cada vez mais loiro e mais gordo, mas nada de Caravaggio. Resolvi seguir um grupo de turistas asiáticos que tinha contratado uma guia com inglês macarrônico para explicar a história de cada quadro do museu, um a um. Quarenta minutos, setenta quadros e quinze olhadas feias da guia direcionadas a mim depois, chegamos aos Caravaggio.

“Caravaggio matou um homem!!!”, explicou a mulher, antes mesmo de começar a falar sobre as obras. “OOOOHHHHHH”, exclamaram os atentos turistas, em uníssono. Tentei então me aproximar da pintura da Medusa, que, de acordo com a guia, existe em duas versões. Caravaggio a teria retratado no momento em que ela mesma se vê em um espelho, milésimos de segundo antes de ser petrificada pela própria imagem. “Vejam a expressão nos olhos da criatura”, explicou, teatralmente. Mas eu me distraí e, em vez de olhar para os olhos da Medusa, virei para trás e olhei para os olhos de uma japonesinha de uns oito anos que já estava me amolando há uns dez minutos. E foi aí que, PAH! A japinha tirou uma foto minha com a Medusa.

Caravaggio matou um cara e eu gosto de pensar que, neste momento, em algum lar japonês, uma foto minha com uma expressão mais assustada do que a de sua obra mais conhecida ornamenta o plano de fundo do iPad de uma japonesinha pentelha de oito anos.

Passei 37 minutos olhando pra bunda do Davi

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Vale ressaltar que a bunda do Davi fica em outro museu e que eu vi sem guia mesmo.

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