Françoise não quer cozinhar

Françoise não quer cozinhar. Logo que chegou a Florença, não quis saber de ver pontes ou museus – foi direto ao supermercado e comprou refeições prontas que seriam suficientes para cinco dias. No dia em que me foi apresentada como uma de minhas novas colegas de apartamento, ela estava com o marido, mas ele só ficou na cidade por um dia e, no seguinte, deu-lhe um beijo, um abraço, um maço de dinheiro e foi embora.

Os primeiros dias foram estranhos. Ela passava as tardes inteiras em casa, vendo filmes dublados em italiano e comendo risoto frio. Sempre que eu chegava em casa após as aulas, após correr ou mesmo na madrugada, lá estava Françoise, com uma bacia de alguma massa, um garfo e uma toalha na cabeça. “Cozinho todos os dias na Suíça, não vim pra cá pra cozinhar”, comentava, antes mesmo que eu dissesse algo. Seu italiano era bom, e ela se recusava a falar em inglês com qualquer outro membro da casa, pois achava a língua feia e fácil demais. “Italiano é mais bonito e é pra isso que eu vim pra cá”, justificou-se, entre uma garfada e outra de salada, em nossa primeira conversa.

Françoise tinha o maior quarto da casa, onde estocava shampoo, papel higiênico e lanches para não correr o risco de ter que dividir com o restante dos moradores. Me acostumei a encontrá-la com com a porta escancarada, debruçada sobre o computador enrolada em uma manta verde que ganhou de alguma companhia aérea. Volta e meia me chamava para ver alguma foto que o filho mandava da Suíça, onde todos moram juntos em uma grande casa bege. Ao final da primeira semana, ela só tinha saído de casa para jantar com uma amiga francesa do curso de italiano e para comprar mais e mais congelados que estocava no frigobar que dividíamos.

Françoise propiciou uma das maiores piadas internas da casa. Em uma terça feira de noite, organizamos um jantar entre os moradores do apartamento – eu, uma australiana, um israelense e uma italiana – e ela se recusou a participar, porque não queria nenhum envolvimento com a cozinha – nem que fosse para pôr a mesa. Para se esquivar da socialização, disse que precisava conferir sua agenda – andava ocupadíssima. Françoise, ocupadíssima? Rimos do fato por dias.

Em uma fim de semana, cheguei em casa depois das duas da madrugada e Françoise não estava lá. Pela fresta do quarto aberto eu podia ver que suas coisas ainda estavam jogadas pelo chão. Duas horas depois, acordei ao ouvi-la chegando esbaforida por causa dos cinco lances de escada. Não perguntei, mas no dia seguinte me contou que tinha ido a uma festa promovida pela escola em que estudava.

As saídas de Françoise se tornavam mais frequentes. Aperitivos, jantares, idas a museus. Acho que a vi duas ou três vezes com um grupo de senhoras faceiras no mesmo bar, ao entardecer, rindo com a cabeça voltada para trás, todas falando em um italiano um pouco enrolado mas surpreendentemente bom. Com frequência ela chegava em casa e me encontrava com uma toalha enrolada na cabeça, debruçada sobre meu laptop vendo fotos de meu sobrinho pequeno com bigode pintado de coelhinho da páscoa enquanto eu comia pizza.

A cada vez que Françoise chegava em casa e eu estava de pijama, com cabelos embaraçados ou cara de quem tinha acabado de acordar, eu morria um pouco por dentro. A situação estava se invertendo e eu imaginava Françoise rindo com as colegas da roommate brasileira que passava tempo demais em casa.

Fiz um combinado com outra colega de apartamento: passaríamos a sair mais de casa. A beber mais. A ver mais museus. Estudar? Besteira. Queríamos ter uma vida mais agitada que a da senhora de quase sessenta anos que morava no enorme quarto ao lado do nosso. Quando chegou o dia da notte bianca – uma noite em que museus, restaurantes, lojas e bares ficam abertos madrugada adentro, resolvemos que não voltaríamos para casa antes de ver o nascer do sol. Tomamos dois gelatos, quatro drinks, uma garrafa de vinho e dois cafés expressos cada e desistimos de ver o nascer do sol lá pelas cinco e meia, após percebermos que o dia que estava por vir seria nublado e que nosso clube de jazz preferido estava fechado. Quando chegamos em casa, Françoise roncava sonoramente. Dormimos aliviadas e perdemos a aula no dia seguinte.

Acho que Françoise foi embora uma semana depois da notte bianca. Quando cheguei em casa após a aula, ela me esperava com uma sacola de coisas que não queria levar na mala: todos os lanches prontos, lenços umedecidos, demaquilantes e rolos de papel higiênico que vinha estocando em seu quarto. Antes de ir embora, me deu um abraço um pouco constrangido e pediu ajuda para carregar a mala até lá embaixo.

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