O piriri de cada viagem e o trem noturno para a Sicília

Dor de barriga não é um assunto fácil, nem popular, mas acontece. Acontece com todo mundo todo ano, e com uma frequência maior em viagens. Piriris testam relacionamentos amorosos e de amizade, deixando os amigos ou amantes mais próximos ou os afastando de vez. Você nunca vai saber se uma pessoa gosta mesmo de você até vocês sobreviverem juntos a uma diarreia. Esses tempos encontrei uma amiga que não via há meses em Milão, e a primeira frase que ela me disse, ao chegar no hotel e me dar um abraço de oi, foi: “Agora me dá dez minutos que preciso fazer cocô”. Eis aqui uma amizade inabalável.

E daí que eu sou sempre a pessoa que passa mal em viagens. Nem sempre tenho dor de barriga, mas já conquistei uma cistite e uma torção de tornozelo num período de dez dias em Amsterdã. Uma tia se recusou a falar comigo por três dias por não acreditar em uma queda de pressão que sofri no Vaticano e que fez com que eu e uma prima debandássemos do grupo pra pegar um arzinho fresco longe das estátuas de bebês feiosos. Em Cuba, camarões tão baratos que me fizeram brindar ao socialismo e a Fidel voltaram mais tarde para me assombrar por três longos dias.

Quando viajo com amigas, já aviso das probabilidades de elas acabarem me acompanhando a um médico do seguro em algum momento, para que não aleguem surpresa depois. Mas em minha última viagem, que teve início como uma aventura solo e teve continuidade com uma australiana que conheci no caminho, tudo foi diferente. Eu não adoecia. Nem uma dorzinha de ouvido. Corria todos os dias em um frio de cinco graus e minha saúde permanecia gloriosa. Quando minha garganta ameaçou inflamar, comprei um spray de própolis brasileiro superfaturado, ignorei a febre e segui com a vida, inabalável.

Fui a Palermo com um trem noturno que partia de Roma. Cerca de treze horas de viagem dormindo em uma cabine com Pascale – a amiga australiana, e dois estranhos. Poderíamos ter pego um avião, que custaria o mesmo e faria o trajeto em 40 minutos, mas uma série de infortúnios com companhias aéreas low cost me fizeram jurar nunca mais ser muquirana com passagens aéreas e virar uma pessoa de trem. Chegando na cabine, tomei um valium da Pascale para encarar a longa viagem e descobri que os estranhos seriam um casal fofíssimo de sicilianos que tinham ido a Roma visitar os filhos. Pegavam aquele trem há quinze anos, sabiam o protocolo de cor, roncavam muito e resmungavam durante a madrugada.

Trem noturno pra Sicília: essa noite foi L0k4

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No dia seguinte, acordei lá pelas sete com a senhorinha me oferecendo Plum Cake, um bolinho tipo Ana Maria, só que melhor, porque até quando se trata de comida industrializada os italianos manjam mais que o resto do mundo. Comi feliz da vida, anotei as dicas sobre a Sicília que o velhinho me passou e segui com a viagem. Cerca de duas semanas depois, já com passagem marcada para voltar sozinha a Roma no mesmo trem noturno, conhecemos um casal de italianos que nos convidaram a jantar com eles.

A cada garfada, o rapaz me metia três tipos de medos diferentes. Roma? Eu seria assaltada na certa. Andar no Roma Termini depois das 20h? Só para suicidas. Mas o que o fez engasgar em uma garfada de farofa foi descobrir que eu viajaria de trem noturno sozinha. Estupros, saques e até mesmo uma espécie de gás do sono utilizado por quadrilhas especializadas me aguardavam naquela viagem, ele alertou. “Siga minha dica. Se você não tem verba pra isso, ligue agora pro seu pai e peça cem euros emprestados para uma passagem de última hora de avião”, ele me suplicou, segurando minha mão teatralmente no meio do restaurante.

Não dormi direito naquela noite. Apesar da Pascale tentar me tranquilizar, mencionando nossa ótima primeira experiência com o trem noturno, fui ao google buscar em português, inglês e italiano todos os perigos que me aguardavam na viagem programada para dali a três noites. Que erro. Aparentemente ninguém vai a fóruns de viagens relatar experiências normais com trens noturnos. Algumas pessoas alegavam ter acordado sem sapatos, sem pochete e sem mochila, juravam ter sido drogadas por estranhos que ofereciam doces. Lembrei-me do plum cake e do valium da viagem anterior. A ignorância realmente é uma bênção.

Eu já estava prestes a levantar a bandeirinha de “estamos há 75 dias sem piriris de viagem” quando, talvez por causa da preocupação, talvez por causa de duas semanas regadas a muito vinho e frituras, acordei na manhã em que pegaria o trem noturno com a pior dor de estômago que já senti na vida. A dor foi migrando para o sul e passei aquele dia todo me revezando entre a cama e o banheiro. Me perdoem se isso é gráfico demais, mas como eu disse, piriri nunca é um assunto fácil. Minha sorte era a Pascale ser estudante de medicina e dar conselhos super profissionais, como: “se entupa de coca-cola que logo passa”.

Seis horas antes do horário marcado para a viagem, suspendi os líquidos. Uma hora antes, amarrei todos meus documentos e dinheiro perto do meu sutiã, vesti uma jaqueta bem fechada, me muni de uma faca de cozinha ameaçadoríssima, uma cara de poucos amigos, um pouco de soro caseiro em uma garrafa de água e entrei no trem. Apesar de meu único contratempo naquela viagem ter sido o pé sujo da passageira do beliche de cima ter ficado mais perto do meu rosto do que eu gostaria, eu não preguei o olho a noite toda e respirei mais fundo a cada vez que sentia que precisava ir ao banheiro.

Bem, amigos, essa história não é lá muito bonita, mas histórias de viagens nem sempre são bonitas. Eu ainda não sei ao certo se recomendo trens noturnos. Mas a coca-cola pra curar piriri, ah, essa dica é de ouro!

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