Carros roubados

” Você quer roubar um carro?”

Foi com essa frase que Brian abordou Mariela em uma festa universitária que acontecia em um bar no centro de Florença, em maio de 2014. Ele não era universitário – e sim, um marinheiro americano que estava na cidade apenas de passagem. Ela, estudante de design que nunca soube ao certo explicar sua origem – seus pais eram filipinos, mas por alguma improvisação ou capricho do destino, ela acabou nascendo na Alemanha e conseguindo cidadania estadunidense por meio do pai diplomata. Mariela cresceu na Holanda e se identificava como holandesa, muito embora ela não falasse sequer uma palavra de holandês e não tivesse amigos holandeses, por ter estudado apenas em escolas americanas caríssimas.

Cansada de viver com os pais e as duas irmãs em Amsterdã, viu no curso de design em Florença a desculpa perfeita para adicionar mais um país à confusão invejável que era seu mapa de origem. Levou cinco anos de estudos na Itália para que ela tomasse a iniciativa de aprender italiano, e foi por isso que eu a conheci em uma segunda-feira chuvosa quando, em saltos muito altos e calças muito justas, ela veio saltitando em minha direção para me convidar para um tradicional jantar que acontecia entre as garotas da sala de aula.

“Você fala inglês com um sotaque tão americano, nem parece que nunca morou lá”, ela me falou, em tom de elogio, como se estivesse surpresa que eu não me comunicasse por meio de tambores. Por algum motivo estranho, agradeci, como se aquilo fosse realmente um comentário lisonjeiro. É que Mariela era uma das meninas mais bonitas que eu já tinha visto, do tipo que faz com que as pessoas queiram muito ser suas amigas – até porque ninguém quer ter uma menina bonita como ela como inimiga. Ela tinha traços orientais, bochechas altas e cabelos muito pretos e volumosos, com cachos que se formavam ao longo do comprimento e terminavam em uma cascata perto da cintura.

Acho que ela foi a primeira pessoa a ser legal comigo quando cheguei à cidade, então eu a apresentava a todas as pessoas que eu ia conhecendo pouco a pouco. Por morar em Florença há mais tempo que as outras meninas, Mariela agia como uma forma de guia local – sabia dos melhores restaurantes, já tinha ido a todas as boates e conhecia os melhores gelatos. Aos 25 anos, nunca tinha tido um emprego na vida, graças ao pai rico, que permitia que cada uma das três filhas vivesse como desejasse em uma parte diferente do mundo.

Estive apenas uma vez em seu apartamento alugado no bairro Santa Croce. Seu quarto era o maior da casa, e a porta, grande e antiga, era completamente marcada porque ela havia brincava de tiro ao alvo na madeira escura. O acordo era que faríamos um trabalho para a aula da semana seguinte, mas passei a tarde cochilando enquanto a observava atirar dardos e destruir pouco a pouco a parede centenária.

Mariela passava três horas por dia na academia que ficava na rua da minha casa, cuja mensalidade de 90 euros me causava arrepios. Os exercícios lhe eram passados por seu namorado via skype, e ela dava longos discursos sobre os melhores horários para ingerir carboidratos, enquanto nos estufávamos de pizza em um restaurante próximo à escola. “O Brian não pode nem sonhar que estou comendo isso”, choramingava. Fazia pouco tempo que ela tinha aderido ao vegetarianismo, após uma tentativa frustrada de se tornar vegana –  a experiência durara menos de 48h até que ela se sentisse fraca, faminta e muito desmotivada, então ela decidiu se contentar em cortar apenas a carne da alimentação. Ela me contava frequentemente sobre um garoto brasileiro com quem tinha namorado por algumas semanas, mas com quem tinha terminado por perceber que era “muito histérico e infiel”. Dei de ombros. Parecia verídico.

Por coincidência, Mariela dividia o apartamento com Anna, uma holandesa de 19 anos e olhos assustados que estava passando uns meses na Itália antes de iniciar a faculdade de Moda em Amsterdã. As duas chegavam sempre juntas à escola, aos jantares e a qualquer passeio que combinávamos de fazer juntas, de forma que pareciam inseparáveis. Mariela era alguns anos mais velha que Anna e, por isso, a tratava como um tipo de irmã quando saíamos em grupo – na verdade, todas nós fazíamos isso, de forma que Anna era a única a ser acompanhada até a porta de casa por todas nós quando voltávamos de madrugada de alguma noitada.

A única coisa que Anna e Mariela tinham em comum era a Holanda. Se Mariela nunca tinha recebido um salário na vida, Anna, com seus poucos anos, tinha trabalhado dois turnos por meses para economizar o dinheiro para manter-se na Itália. Em um passeio a um museu na companhia da holandesinha, descobri que ela odiava Mariela. Precisei parar por um momento. “Mas por que, Anna? vocês até mesmo se vestem como se fossem irmãs”. Ela então me contou que não suportava que Mariela se dissesse holandesa sem nunca ter se dado ao trabalho de aprender o idioma. “Não te parece estranho ela só ter tomado a iniciativa de aprender italiano agora, depois de cinco anos na Itália?”. Sim, parecia. Mas ao mesmo tempo, me parecia também uma atitude muito americana, e embora Mariela se apresentasse como holandesa, ela era o retrato de todas aquelas garotas que vemos em reality shows americanos.

Aparentemente, Mariela não ajudava muito nas atividades domésticas, passava horas falando alto com o namorado no skype e deixava longos fios de cabelo preto entupindo o ralo sem cerimônia alguma. Ao ouvir o relato de Anna, as demais garotas começaram a também desabafar. Era unânime: todas detestavam Mariela.

A informação me pegou de surpresa. Apesar da  fama de superficial, Mariela tinha me contado com detalhes toda a história dos Medici, que tinha aprendido ao longo das aulas de design. “Deveriam fazer uma série sobre eles, como fizeram sobre os Tudors”, concluiu, pensativa. Ao longo de um de nossos almoços na pizzaria, ela me contou sobre uma aposta que tinha feito com o namorado – aquele que conseguisse passar mais tempo sem se masturbar, teria que pagar ao outro um jantar.

“Mas como você vai saber se ele não está mentindo?”, eu perguntei.

“Ah, acredite, eu vou saber”.

Pascale, minha colega de apartamento e, de certa forma, minha amiga mais próxima naquele contexto, também detestava Mariela. Ao saber que ela tinha demonstrado interesse em ir conosco à Sicília, Pascale foi categórica: não a queria conosco em Palermo. Fiquei sem resposta.

Com o passar dos dias, fui me afastando lentamente de Mariela. Como não sabia como dar a má notícia a ela, a evitava nos corredores da escola. Ao perceber a infantilidade da coisa toda, peguei o telefone e a convidei para ir comigo a Casa Buonarroti, um museu sobre Michelangelo que eu sabia que ela ainda não conhecia. “Não posso, se eu não for a academia hoje, meu namorado me mata”, justificou. Ela começou a sentir o clima hostil das demais garotas e começou também a se afastar, indo embora de vez em um feriado com a desculpa de que iria visitar os familiares. Anna me mandou uma mensagem naquela tarde: “the bitch is gone”.

Tudo o que soube sobre Mariela desde então vem de suas redes sociais: terminado o curso de italiano em Florença, foi visitar o namorado nos Estados Unidos. Voltou em seguida para a Holanda. Engatou, então, mais um curso em Milão. Virou vegana de vez. Semana passada, ela atualizou a foto de perfil: acompanhada de uma amiga loira, vestia um maiô colorido, fazia cara de susto e tampava a boca com a mão esquerda. Ao fundo, uma praia rochosa italiana, acompanhada da legenda: “capa de cd de rap dos anos 90”. Todas as meninas do nosso pequeno grupo curtiram a foto.

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