Tabaccheria

As dores de cabeça são a única certeza dos meus domingos. Tem vezes em que elas já acordam comigo e me acompanham no café com ovo mexido me trazendo náusea e me fazendo voltar para a cama a cortinas fechadas. Às vezes elas esperam até ás seis da tarde .  Estamos falando aqui de dores literais, pulsantes, que começam perto da nuca e se alastram pelo crânio. Não são dores de ressaca, não são dores do ciclo menstrual, são dores dominicais.

O médico recomendou que eu beba dois copos bem cheios de água antes de recorrer a remédios, mas eu não tenho toda essa paciência. Vou logo tomando dois e espero na cama, de olhos fechados, que a dor e a náusea passem. O sono vem junto com a os remédios, e quando eu acordo, duas horas depois, a dor já foi embora.

No dia em que eu te conheci, F., era domingo, mas as dores ainda não tinham aparecido. Coloquei a aspirina na bolsa mesmo assim, jantei sozinha em um restaurante oriental moderno demais para aquela cidade, comprei balas de hortelã, errei a rua uma, duas, quatro vezes e finalmente te mandei a mensagem: estou sentada em frente à igreja.

Olhei ao redor e você não estava lá. Olhei novamente e você ainda não estava lá, mas resolvi parar de te procurar por alguns instantes para notar que a praça, que um dia eu tinha achado tão linda, estava se decompondo. O canto coberto que um dia abrigou uma feira agora estava vazio e servia de banheiro para os mendigos. Os degraus estavam forrados de bitucas, as enotecas estavam vazias e até mesmo as árvores pareciam ter viver um outono prolongado bem no meio da primavera. A decomposição pode ser bonita, pensei, mesmo sabendo que era mentira.

Você chegou e não me cumprimentou, apenas se sentou ao meu lado e resmungou algo – uma mentira, só para me agradar –  sobre aquela praça ser sempre linda, mesmo quando suja, mesmo em um domingo horrendo. O domingo não tinha sido horrendo, te corrigi, tinha apenas sido longo demais.

Eu nunca tinha visto olhos como os seus – muito escuros e caidinhos nos cantos externos, com a sobrancelha esquerda um pouco mais espessa que a direita. Eu acho que nunca te disse isso, mas sempre preferi olhos escuros a olhos claros. Olhos castanhos inspiram mais confiança. Como confiar em olhos azuis, quase transparentes, que parecem querer ler nossas fraquezas sem querer compreendê-las – apenas para usá-las contra nós?

Você nunca sorriu, F,.acho que sorrir nem combinaria com você, mas às vezes fecho os olhos e tento puxar pela memória: como eram mesmo seus dentes? Acho que nunca os vi. Eu te perguntei como tinha sido crescer em uma cidade como aquela – a melhor do mundo, para mim. Eu cresci em uma cidadezinha torta e empoeirada, e você cresceu em Florença. Você deu de ombros, me pediu para recitar um pedaço de um poema em português, o seu preferido. Recitei, lendo lentamente no celular, evitando te olhar nos olhos.

Hoje é domingo, F., você está a nove mil quilômetros de distância e minha cabeça já começa a doer.

 

 

 

 

Anúncios

3 opiniões sobre “Tabaccheria

      • Ah! hahah! Claro. Eu conheço o poema. Meu pai, quando eu era pequena, fazia uma peça (um monólogo) só com textos do Fernando Pessoa, e de vez em quando ele dizia pra mim: “Comes chocolates, pequena! Come chocolates. Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes” ele sempre fez isso com trechos de poemas, ou falas de peças, etc. fica mesclando a fala com poesia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s