Nojeiras

Limpar o ralo cheio de cabelo é a atividade doméstica mais ingrata. Cabelos, uma vez que separados das mechas presas na cabeça, perdem vertiginosamente seu valor no caminho até o chão. Sentir um fio de cabelo enroscado nas pernas, nos pés, na cintura naquele momento pós banho é arrepio certeiro de repulsa, de busca frenética pelo fio pródigo para encaminhá-lo para fora da janela, para o lixo, para a privada – qualquer lugar onde nunca mais terei que encará-lo.

E quanto aos tapetinhos de banheiro? Aqueles que ficam perto do box, recebendo diariamente suco de pé e que agem como um ímã para os cabelos desertores: meu reino para não ter que tocar com as mãos inteiras em um pedaço de pano desses. Mais que uma vez por dia fantasio sobre o apartamento bacaninha, talvez um studio com janelas enormes e vista de filme que um dia quero comprar: não há tapetinhos de banheiro nele. Nem paninhos sempre úmidos de pia. Que até lá o homem desista de criar novos modelos de poltrona e pense em uma solução menos sofrida anti-resbalos e molhaceira em banheiros.

Dizem que uma cabeça de vinte e tantos anos conta com 150 mil fios de cabelo. A minha certamente chega aos 200 mil, se os comentários  assustados de cabeleireiros que encontrei ao longo da vida estiverem corretos. Já me flagrei mais de uma vez no banho, calculando quanto gastei nos últimos tempos em xampus, hidratações e tinta para que aqueles rolinhos de fios rebeldes se desfaçam do meu couro cabeludo e nadem até o ralo, onde me atormentarão até eu encarar a tarefa de limpá-lo. Ingratos.

O monstro do ralo entupido não nos abandona nunca.  Em uma estadia de duas semanas em um apartamento alugado pelo AirBnB, eu e minha amiga sofríamos com o impasse do ralo entupido. Cabelos meus, cabelos dela: tudo junto, acrescido de resíduos de xampu, sabonete e sabe-se lá mais o quê, impediam a água do chuveiro de escoar. Adiamos a resolução do problema, passamos a tomar banhos mais rápidos, evitávamos o assunto. Até que um dia ela apareceu saltitando na cozinha, encharcando-se em álcool gel e berrando: “limpei o maldito ralo, agora você me deve dinheiro!”. Paguei-lhe um sorvete de três contos mais tarde como gratidão. Deveria é ter-lhe pago o jantar inteiro.

 

 

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Oito quilos

– Preciso emagrecer. Pensei em uns oito quilos, mas não estou preparada para parar de comer carboidrato, entende?

– Quanto você quer emagrecer?

– …Oito quilos.

-Não, não…eu digo ‘quanto’ no sentido de intensidade. Tipo, você sacrificaria um dedo do pé em troca do corpão perfeito?

-…

-…

-…Talvez. Menos o dedão, né.

-É, o dedão tem muitas funções, ajuda a andar e tudo mais.

-E você? Perderia um dedo pra ser gostosona?

-Sei lá, só se desse pra negociar um mindinho. Mesmo assim, tenho minhas dúvidas, acho que atrapalha um pouco a vida amorosa.

– Cê acha?

– Acho. O cara vai te olhar, olhar pra tua cintura, olhar pro teu pé e pensar “pô, é bem gata, mas sem dedo não rola”.

-Credo, que tipo cretino de gente pensa assim?

-Homem, ué.

-Hm, acho válido. Se for analisar bem, eles poderiam pensar “pô, tá meio porpetinha, mas pelo menos tem todos os dedinhos no pé e nas mãos”.

-Exato. Uma coxa sarada é passageira, mas dedo do pé é pra sempre.

-Pra sempre!!

 

Melhoramos.

natal

Quando alguém chegar pra você reclamando que antes da era do smartphone as pessoas tinham uma relação mais saudável com a fotografia, ou que hoje em dia as pessoas fotografam o momento em vez de vivê-lo e ladainhas do tipo, por favor, mostre a este alguém esta foto do natal de 1999 na antiga garagem de meus avós.

Veja bem: ao fundo temos meu irmão, segurando um osso de peru roído em pose de vitória. Ao lado dele, um centímetro de uma cabeça grisalha e uma pulseira dourada sugerem que a madrinha de minha mãe também estava na cena – não temos certeza. Em primeiro plano, meu pai acena para minha priminha, que está lá atrás e opta por deixá-lo no vácuo.

Já no outro lado da mesa, minha tia, sem perceber a presença do fotógrafo, traça um pratão de maionese e carne e foi pega de olhos meio fechadinhos, coitada. E o que dizer sobre esse enquadramento, sobre o péssimo timing da foto, que foi feita quase no final da ceia, com uma coca-cola pela metade, latas de cerveja e restos de comida nos pratos aparecendo?

As únicas pessoas prontas para o mundo da fotografia digital que as aguardava eram minha avó e minha prima, que mostram conhecer seus melhores ângulos, fazem pose fofinha e ostentam looks coordenados. Um crop só nelas, um filtro Hefe (acho quente e festivo) e uma legenda engraçadinha e, aí sim, essa foto estaria pronta para se tornar um registro para a eternidade.

Majirel 7.4

A melhor parte de aprender um novo idioma é que, inevitavelmente, assumimos uma nova personalidade quando o colocamos em prática. A parte ruim é que nem sempre essa personalidade é interessante. Esse negócio de falar uma nova língua compromete muito a espontaneidade. No desgaste de ter que traduzir rapidamente cada frase a um idioma diferente, me flagro evitando assuntos que eu ainda não domine na nova língua e opto por um possivelmente mais leve, algo que eu consiga traduzir instantaneamente pra três línguas sem precisar sacar o celular da bolsa pra consultar o tradutor do google. Então, sempre que um italiano me pergunta sobre o cenário político brasileiro, de alguma forma acabo falando sobre tintura capilar.

O triste fim de Dolores Haze

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Lolita é possivelmente uma das personagens mais mal interpretadas da literatura. Enquanto marmanjas de vinte e muitos anos entopem o Instagram de fotos em que exibem óculos de coração com a hashtag #lolita, o mais provável é que a pobre Lô tenha sido fadada a passar o resto de sua vida fictícia tal qual as garçonetes de filmes americanos: apanhando de tempos em tempos de um marido não muito inteligente e esperando eternamente por gorjetas melhores.

Sobre homens italianos

“E os ragazzi?”. Essa pergunta foi a que mais ouvi enquanto estava na Itália, quando voltei da Itália e sempre que alguém que eu acabo de conhecer descobre que estive na Itália. Talvez por culpa de Benedito Ruy Barbosa, talvez por causa das aparições semanais da Laura Pausini no Faustão nos anos 90, o estereótipo do italiano em que crescemos querendo acreditar é: lindíssimo, romântico, alto, e que e te cozinha o jantar sem camisa enquanto você bebe vinho deitada em um sofá revestido em veludo.

Mas os estereótipos estão aí para serem destruídos, não é mesmo?

Os italianos são bonitos? 

Sim, com certeza. Mas assim, é uma beleza que quase sempre cabe em até um metro e setenta – e olhe lá. O que não é ruim, mas vai contra o estereótipo do italianão grandão sem camisa. De uma forma geral, os italianos têm uma estatura mais modesta e um porte menorzinho do que o dos brasileiros – coisa que eles compensam em cabelo. Os italianos cultivam cabelos maravilhosos, e por lá agora existem basicamente três tipos principais de cabelos de italiano: o cabelo ondulado/cacheado e muito cheio; o cabelo raspadinho nas laterais estilo jogador de futebol e o já globalizado coque masculino.

Na Itália, principalmente em cidades hypadas como Milão e Florença, os homens se vestem muito, muito bem. Os sapatos são sempre impecáveis, o terno é sempre ajustado, e eles andam de bicicleta de terno e sapato social com mais segurança do que Gisele Bundchen desfilando na passarela da Colcci.

Os italianos são românticos?

Bom, aí depende da tua ideia de romance. Eu passei por umas situações meio chatas, tipo uma em que um cara de uns cinquenta anos me seguiu até em casa, bateu na minha porta e me chamou pra almoçar and ir pra casa de praia dele no próximo final de semana sendo que eu nunca o tinha visto antes. Isso tudo porque ele tinha me ouvido conversando com uns amigos no bar e, ao saber que sou brasileira, achou que isso significasse que eu acharia maravilhoso ter um cara mais velho que meu pai me seguindo até meu apartamento. Quando pedi pra ele ir embora e tentei fechar a porta, ele enfiou o pé entre a porta e a parede para que eu não conseguisse fechá-la e foram minutos de tensão tentando convencê-lo a ir embora por bem. Isso normalmente faria um cara normal entender a mensagem e desistir de você, mas o sujeito ainda deu um jeito de descobrir meu telefone, a escola em que eu estudava e de me esperar na saída por uns três dias seguidos, até eu ter que pedir ajuda para me livrar dele com segurança.

É que assim como nós crescemos com o estereótipo do italiano romântico Terra Nostra, eles aparentemente cresceram com o estereótipo da brasileira-liberal-topa-tudo. Existe brasileira liberal-topa-tudo? Existe sim, inclusive este é um exemplar maravilhoso e válido de brasileira, mas também existe brasileira freira, brasileira defensora do Bolsonaro e brasileira gótica suave que quer casar virgem. Ser liberal  e ir pra um país estrangeiro querendo sair geral com os caras de lá é normal, o que não é normal é um cara ser louco psicopata e te seguir até a sua casa e insistir após ouvir um não como resposta.

É que se trata de um país ainda muito machista. Ouvi de um professor da escola em que estudava, por exemplo, que eu não poderia ser muito boa em boxe porque sou mulher. Já uma amiga levou uma PEDRADA na cabeça quando ignorou as cantadas de um vizinho mal educado. Quando olhou pra ver de onde tinha vindo a pedra, o bonitão estava lá, com um sorriso no rosto e acenando, alegremente: “ciao, bella!“. Quando contamos o incidente para outro italiano, ele riu e disse que achou super fofa e romântica a atitude do vizinho. Vai entender.

É claro que existem italianos bem diferentes desses tipos, existem italianos hippies de dread que te oferecem maconha em uma praça com nome de santo, italianos não muito interessados em mulheres, italianos que só querem amizade pura e verdadeira mesmo você não tendo piscina em casa. Tem italiano que é bonito, educado, gentil e nada machista – tudo isso de uma vez só.

O fato é que eles são mais diretos. Se estão interessados em uma moça, a abordam e a chamam pra sair, simples assim. No restaurante, na rua, no bar, eles não perdem tempo. Não acho que essa seja uma característica ruim, inclusive corta muito do drama da vida quando a abordagem não é psicótica. Um amigo disse que muitos italianos gostam das brasileiras porque somos mais “divertidas” do que as italianas – que eles acham sérias demais. Mas sinceramente, acho que as mulheres de lá têm todos os motivos do mundo pra não darem moleza pros rapazes.

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