Restaurante por quilo

Texto por Julliana Bauer / Ilustração por Sarah Bauer

 

warhol

 

Andy Warhol gostava de comer sozinho. Dizia que queria montar uma rede de restaurantes nos quais cada freguês se serviria, pegaria sua bandeja e comeria sozinho em uma pequena mesa com uma TV. Fico triste que ele tenha morrido sem concretizar essa ideia, pois eu definitivamente seria uma frequentadora assídua de um restaurante do tipo. Detesto comer sozinha, mas por vezes é inevitável e seria bem melhor se fosse em um ambiente em que todos ao meu redor também estivessem comendo sozinhos.

Eu tenho um amigo que comeu pouquíssimas vezes em restaurantes por quilo porque segue a filosofia do pai de que comida feita em grandes quantidades simplesmente não pode ser boa. Tentei convencê-lo algumas vezes da experiência antropológica que um almoço no bandejão pode representar para um cara como ele, acostumado a hambúrgueres gourmet. Não tive sucesso. Viajamos juntos para São Paulo para ver um show e, como ele já tinha morado lá, me levou para comer hambúrgueres gourmet. Pra mim, que estou acostumada a restaurantes por quilo, aquilo sim foi uma experiência antropológica.

Entrevistas de emprego deveriam ser realizadas em restaurantes por quilo. O tempo que um candidato demora pra escolher meticulosamente as folhas de alface diz muito mais sobre a personalidade dele do que uma resposta ensaiada sobre como ele se vê daqui a cinco anos. Prefere feijão branco ao preto? Tem algo errado ali. Veto. Conta as calorias de tudo que coloca no prato? Vai ser o típico colega vigilante do peso que tenta barrar a tradição do bolo de aniversário na empresa. Veto.

Tenho algumas ideias de negócios nos quais pretendo investir caso algum dia eu ganhe na loteria. Concretizar o restaurante para solitários idealizado por Andy Warhol é um deles.  Deve ter um monte de gente por aí que trocaria as conversas com os colegas sobre o tempero do estrogonofe pelo conforto de poder almoçar assistindo cartoon network.

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Escolhendo livros pelas capas

Texto por Julliana Bauer

De uns tempos pra cá, passei a escolher os livros pelas capas. Edições econômicas ou de bolso não têm a menor chance de entrar na minha coleção – quero capas com ilustrações caprichadas ou feitas num material especial. Entendam que isso não tem nada a ver com o preço, tanto que a maior parte dos livros que adquiri recentemente foi encontrada nos sebos do São Francisco. Mês passado eu revirei três deles até achar uma edição com uma capa decente para O Grande Gatsby e acabei indo pra casa com uma edição de mais de trinta anos que contava com uma foto de Mia Farrow estampada na contracapa.

Acredito que essa mania inconveniente tenha começado no ano passado, quando aos 23 anos eu finalmente descobri a frase eficiente para manipular a minha mãe: “Estou pensando em sair de casa”. Após ouvir alguns argumentos como “mas com o seu salário?” ou “não tem por que sair de casa se você não vai se casar”, esperei alguns minutos em silêncio e comuniquei então o meu desejo de colocar todos os meus livros na estante da sala principal. Eu pedia para fazer isso já há muito tempo, mas minha mãe nunca sequer aceitou minhas ideias para mudar um sofá de lugar, quanto mais para decidir o que poderia ou não ser colocado na estante da sala de estar. Não sou lá muito boa com manipulações e por isso tive que segurar a risada maléfica de vitória quando vi que ela cedeu instantaneamente.

Tive que sair pela casa resgatando meus livros – alguns estavam no meu armário, outra pilha deles estava em meu criado mudo e eu até havia entulhado um bom tanto deles no quarto abandonado do meu irmão, que saiu de casa para procriar há pouco mais de um ano. Retirei alguns objetos decorativos medonhos que estavam na estante e coloquei ali meus livros de acordo com categorias que estabeleci na hora. Tem uma divisória inteira dedicada a biografias relacionadas aos Rolling Stones, o que me torna uma das jornalistas paranaenses com maior conhecimento de detalhes inúteis sobre a vida do Mick Jagger – como, por exemplo, que sua ex-esposa Jerry Hall tinha uma cecê que deixava Andy Warhol inconformadíssimo.

Depois disso, a coisa só piorou. Parei de pegar livros em bibliotecas. O que me interessa, no momento, é rechear a estante. Tive que estabelecer um novo ritmo de leitura para dar conta de minhas novas aquisições. Ao começar a ler um novo livro, divido seu número total de páginas por sete, para saber exatamente quantas eu terei que ler por dia para terminá-lo em uma semana. Eu não lia com tanta frequência desde o ensino médio, quando eu colocava um livro de ficção escondido no meio do livro didático para não ter que prestar atenção em aulas absolutamente monótonas, como física ou química. A verdade é que eu leio bem menos do que minha família e meus amigos pensam, a julgar pela quantidade de livros que ganho em datas comemorativas.

Ainda na semana passada eu falei sobre essa culpa da leitura escassa com uma amiga que é bem mais inteligente e culta do que eu, e aparentemente eu não sou a única pessoa que sofre de consciência pesada por não ter vencido os principais clássicos da literatura. Victor Hugo? Nunca li. Dostoiévski? Nem sei qual o estilo de sua narrativa.

Em Buenos Aires, pedi ao vendedor de uma espécie de sebo que encontrei na Santa Fé para que me ajudasse a achar livros do Cortázar com capas interessantes. Ele não entendeu muito bem a proposta, me olhou com desconfiança e me empurrou uma edição de Salvo el Crepúsculo com uma capa das bem comuns e ainda teve a pachorra de me cobrar cinquenta pesos. Pedi também que me indicasse algum outro autor argentino, e então ele me mostrou uma antologia de poemas do Juan Gelman que fez com que a minha compra lá valesse a pena, e desta vez eu não me refiro à capa do livro.

Tenho pavor de parecer pedante, e por isso tentei ser justa com o posicionamento dos livros na estante. Aqueles que considero medíocres estão lado a lado com autores consagrados. Tem O Segredo ao lado de Madame Bovary. Tem Cem Anos de Solidão ao lado de Cinquenta Tons de Cinza. Não seria justo colocar Rhonda Byrne e E. L. James em um canto escondido da prateleira. Pensando bem, elas me renderam conversas muitíssimo mais divertidas do que o García Márquez ou Flaubert jamais fizeram.