Previsão do tempo

Minha primeira professora de italiano em Florença era velha, muito velha. Tão velha que fazia piadas sobre a própria idade, piadas ótimas e que sempre acabavam com uma risada de ronquinho, olhos fechados, um bater de palmas e uma ajeitadinha no casaco. Ela tinha dentes muito longos, cabelos curtinhos e grisalhos e dizia fumar muito, mas eu acho que nunca a vi fumando.

Já na primeira semana, descobri que Carla – este era seu nome – era minha vizinha. Morávamos as duas na rua Borgo Pinti, ela com a mãe, de idade incalculável e com quem saracoteava pelos mercados do quarteirão; e eu com quatro colegas de quarto de nacionalidades diferentes. A cada mais ou menos três dias, ela me abordava no início da aula pra me contar que tinha me visto correndo na rua e que era pra eu tomar cuidado com o asfalto molhado. Choveu muito naquela época e por isso a professora se enrolava em uma camisa, um cardigan e um casaco cinza que, a cada ajeitadinha pós piada sobre a velhice, revelava uma etiqueta gigantesca: Gucci.

Paciente e repetitiva, ela tinha um gosto particular por fazer aluno por aluno repetir a conjugação de um novo verbo em voz alta, o que deixava Anna, uma holandesa de vinte anos e cabelos ruivos, muito vermelha. As aulas eram sempre iguais. Enquanto os atrasados iam chegando aos poucos, ela lia a previsão do tempo. Ela amava a previsão do tempo. Em seguida, fazia uma pergunta sobre nossa rotina, sempre de acordo com o tempo verbal que estávamos aprendendo. Se a ideia era falar sobre passado, ela pedia para que explicássemos detalhadamente tudo que havíamos feio no dia anterior, desde o momento em que havíamos saído da sala de aula, até o momento em que tínhamos ido dormir. Se a aula era sobre o futuro, ela se adiantava e perguntava sobre nossos planos não apenas para a próxima tarde, mas para os próximos dez anos. Eu provavelmente menti muito.

Em nossos jantares de sexta-feira, elaborávamos teorias sobre Carla. Provavelmente ela tinha optado por não ter filhos para poder gastar o dinheiro das intermináveis escolinhas com closets repletos de casacos Gucci – uma escolha que respeitávamos e aplaudíamos, apesar de nunca comprovada. Acreditávamos convictamente que há algumas décadas houve uma fila de fiorentinos querendo se casar com Carla, mas ela rejeitava todos, pois estava fabulosamente bem sozinha com suas bolsas Prada.

Nos intervalos íamos ao bar mais próximo para tomar um café e comer biscoitos, e foi assim que descobri que Carla era conhecida na escola por ser a melhor professora dali. Era a única a olhar para o diretor com um muxoxo de desprezo quando ele a interrompia diariamente para anunciar os eventos sociais da semana.

Minhas amigas que estavam na turma iniciante tinham aulas com Nico, o professor galã. A alegria da mulherada era encontrar Nico dando sopa na Piazza Santo Spirito depois do jantar de sexta, ele sempre estava meio bêbado e se esquivava elegantemente dos assédios múltiplos de alunas de todos os continentes. Nico tinha métodos diferentões de ensino, organizava eventos gastronômicos e levava os alunos nas melhores gelaterias de Florença. Se Carla era tradicional, Nico era um rockstar. Uma noite o encontramos na praça, chapado e rindo com um amigo, feito um adolescente que acaba de fazer barulho de peido com o sovaco. Gabou-se das viagens que já tinha feito, da coleção de namoradas de diversas nacionalidades que faziam parte de seu currículo e do fato que tinha acesso a maconha, mas que não poderia nos oferecer. “Seria irresponsável”, dizia, controlando-se para se manter sério por cinco segundos.

Minha melhor amiga na cidade engatou uma paixonite platônica por Nico. Esperava por mensagens dele que nunca chegavam, sorria e chacoalhava o cabelo quando o via nos corredores, falava obsessivamente sobre ele. Um dia, dois meses após sua partida da cidade, ela recebeu um e-mail dele, com uma daquelas mensagens que os homens às vezes se dão ao trabalho de nos passar apenas para nos relembrar que um dia fomos a fim deles: “Olha, você é linda, mas me desculpe, não me soube corresponder aos seus sentimentos, passar bem”.

Em meu último dia de aula, vi que a nova turma de Nico era composta por um grupo grande de meninas mexicanas que falavam muito alto e pareciam animadíssimas em estar sob a tutela do professor mais estrela da escola. Nunca tive uma aula com Nico. Mas o fato é que enquanto Carla nos ensinava gramática com uma habilidade Jiraiya, os alunos dele mal conseguiam pedir uma entrada em um restaurante sem soar como o Yoda.

Anúncios

Limbo

Julliana Bauer

Existe um pequeno limbo quando estamos aprendendo uma nova língua, que fica localizado talvez entre a segunda e a décima aula, no qual já sabemos nos apresentar, mas ainda não sabemos ao certo como lidar com questões realmente importantes quando necessitamos colocar a tal língua à prova para evitar situações constrangedoras. Cursos de línguas sempre te obrigam a aprender primeiro a se apresentar, e não a perguntar onde fica o banheiro mais próximo.

Estou em minha quinta aula de italiano e ainda não sei bem como perguntar onde fica o banheiro mais próximo, mas já sei contar ao mundo que sou jornalista, quantas línguas falo e onde fica o escritório onde trabalho. É claro que nenhum colega nunca memoriza o que todos os outros dez fazem, onde trabalham e quantas línguas falam, então já repetimos a apresentação pessoal à exaustão.

Dia desses, eu sonhei que estava presa em um navio com um bando de italianos, e que a única pessoa que me entendia por ali era minha professora de italiano, mas ela tinha encasquetado que só falaria português ao longo de toda a viagem. Para meu azar, eu precisava muito fazer xixi. Ainda não criei intimidade o suficiente com a professora para contar o tal sonho, mas venho estudando italiano em casa por conta própria nos finais de semana por medo de se tratar de um sonho premonitivo – deus me livre de ficar segurando o xixi por não saber perguntar onde fica o banheiro.

Na terceira série, meu pai foi transferido de cidade, e me matriculou em um colégio particular que contava com aulas de espanhol e inglês – e eu era a única aluna da sala que ainda não tinha tido aulas de inglês. Todos já sabiam se apresentar, contar até o dez e listar pelo menos oito cores, mas eu vinha de uma escola pública e não entendia bulhufas. A professora se esquivava da tarefa de me ensinar o conteúdo anterior à minha chegada, eu me descabelava de chorar por não entender nada e acabei indo parar no CCAA para ficar no nível dos colegas.

Agora, mais de quinze anos mais tarde, ainda sinto o mesmo pavor de não conseguir acompanhar uma turma de dez estudantes, mas ao menos já conto com ferramentas tecnológicas pra descobrir como traduzir uma frase besta sobre a localização do banheiro para o italiano, alemão e, quem sabe, o russo. Mas de algum modo, ainda desejo que a professora de inglês da terceira série se flagre com uma bela intoxicação alimentar e buscando desesperadamente por um banheiro em um país de idioma que ela não domina.