Tabaccheria

As dores de cabeça são a única certeza dos meus domingos. Tem vezes em que elas já acordam comigo e me acompanham no café com ovo mexido me trazendo náusea e me fazendo voltar para a cama a cortinas fechadas. Às vezes elas esperam até ás seis da tarde .  Estamos falando aqui de dores literais, pulsantes, que começam perto da nuca e se alastram pelo crânio. Não são dores de ressaca, não são dores do ciclo menstrual, são dores dominicais.

O médico recomendou que eu beba dois copos bem cheios de água antes de recorrer a remédios, mas eu não tenho toda essa paciência. Vou logo tomando dois e espero na cama, de olhos fechados, que a dor e a náusea passem. O sono vem junto com a os remédios, e quando eu acordo, duas horas depois, a dor já foi embora.

No dia em que eu te conheci, F., era domingo, mas as dores ainda não tinham aparecido. Coloquei a aspirina na bolsa mesmo assim, jantei sozinha em um restaurante oriental moderno demais para aquela cidade, comprei balas de hortelã, errei a rua uma, duas, quatro vezes e finalmente te mandei a mensagem: estou sentada em frente à igreja.

Olhei ao redor e você não estava lá. Olhei novamente e você ainda não estava lá, mas resolvi parar de te procurar por alguns instantes para notar que a praça, que um dia eu tinha achado tão linda, estava se decompondo. O canto coberto que um dia abrigou uma feira agora estava vazio e servia de banheiro para os mendigos. Os degraus estavam forrados de bitucas, as enotecas estavam vazias e até mesmo as árvores pareciam ter viver um outono prolongado bem no meio da primavera. A decomposição pode ser bonita, pensei, mesmo sabendo que era mentira.

Você chegou e não me cumprimentou, apenas se sentou ao meu lado e resmungou algo – uma mentira, só para me agradar –  sobre aquela praça ser sempre linda, mesmo quando suja, mesmo em um domingo horrendo. O domingo não tinha sido horrendo, te corrigi, tinha apenas sido longo demais.

Eu nunca tinha visto olhos como os seus – muito escuros e caidinhos nos cantos externos, com a sobrancelha esquerda um pouco mais espessa que a direita. Eu acho que nunca te disse isso, mas sempre preferi olhos escuros a olhos claros. Olhos castanhos inspiram mais confiança. Como confiar em olhos azuis, quase transparentes, que parecem querer ler nossas fraquezas sem querer compreendê-las – apenas para usá-las contra nós?

Você nunca sorriu, F,.acho que sorrir nem combinaria com você, mas às vezes fecho os olhos e tento puxar pela memória: como eram mesmo seus dentes? Acho que nunca os vi. Eu te perguntei como tinha sido crescer em uma cidade como aquela – a melhor do mundo, para mim. Eu cresci em uma cidadezinha torta e empoeirada, e você cresceu em Florença. Você deu de ombros, me pediu para recitar um pedaço de um poema em português, o seu preferido. Recitei, lendo lentamente no celular, evitando te olhar nos olhos.

Hoje é domingo, F., você está a nove mil quilômetros de distância e minha cabeça já começa a doer.

 

 

 

 

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Previsão do tempo

Minha primeira professora de italiano em Florença era velha, muito velha. Tão velha que fazia piadas sobre a própria idade, piadas ótimas e que sempre acabavam com uma risada de ronquinho, olhos fechados, um bater de palmas e uma ajeitadinha no casaco. Ela tinha dentes muito longos, cabelos curtinhos e grisalhos e dizia fumar muito, mas eu acho que nunca a vi fumando.

Já na primeira semana, descobri que Carla – este era seu nome – era minha vizinha. Morávamos as duas na rua Borgo Pinti, ela com a mãe, de idade incalculável e com quem saracoteava pelos mercados do quarteirão; e eu com quatro colegas de quarto de nacionalidades diferentes. A cada mais ou menos três dias, ela me abordava no início da aula pra me contar que tinha me visto correndo na rua e que era pra eu tomar cuidado com o asfalto molhado. Choveu muito naquela época e por isso a professora se enrolava em uma camisa, um cardigan e um casaco cinza que, a cada ajeitadinha pós piada sobre a velhice, revelava uma etiqueta gigantesca: Gucci.

Paciente e repetitiva, ela tinha um gosto particular por fazer aluno por aluno repetir a conjugação de um novo verbo em voz alta, o que deixava Anna, uma holandesa de vinte anos e cabelos ruivos, muito vermelha. As aulas eram sempre iguais. Enquanto os atrasados iam chegando aos poucos, ela lia a previsão do tempo. Ela amava a previsão do tempo. Em seguida, fazia uma pergunta sobre nossa rotina, sempre de acordo com o tempo verbal que estávamos aprendendo. Se a ideia era falar sobre passado, ela pedia para que explicássemos detalhadamente tudo que havíamos feio no dia anterior, desde o momento em que havíamos saído da sala de aula, até o momento em que tínhamos ido dormir. Se a aula era sobre o futuro, ela se adiantava e perguntava sobre nossos planos não apenas para a próxima tarde, mas para os próximos dez anos. Eu provavelmente menti muito.

Em nossos jantares de sexta-feira, elaborávamos teorias sobre Carla. Provavelmente ela tinha optado por não ter filhos para poder gastar o dinheiro das intermináveis escolinhas com closets repletos de casacos Gucci – uma escolha que respeitávamos e aplaudíamos, apesar de nunca comprovada. Acreditávamos convictamente que há algumas décadas houve uma fila de fiorentinos querendo se casar com Carla, mas ela rejeitava todos, pois estava fabulosamente bem sozinha com suas bolsas Prada.

Nos intervalos íamos ao bar mais próximo para tomar um café e comer biscoitos, e foi assim que descobri que Carla era conhecida na escola por ser a melhor professora dali. Era a única a olhar para o diretor com um muxoxo de desprezo quando ele a interrompia diariamente para anunciar os eventos sociais da semana.

Minhas amigas que estavam na turma iniciante tinham aulas com Nico, o professor galã. A alegria da mulherada era encontrar Nico dando sopa na Piazza Santo Spirito depois do jantar de sexta, ele sempre estava meio bêbado e se esquivava elegantemente dos assédios múltiplos de alunas de todos os continentes. Nico tinha métodos diferentões de ensino, organizava eventos gastronômicos e levava os alunos nas melhores gelaterias de Florença. Se Carla era tradicional, Nico era um rockstar. Uma noite o encontramos na praça, chapado e rindo com um amigo, feito um adolescente que acaba de fazer barulho de peido com o sovaco. Gabou-se das viagens que já tinha feito, da coleção de namoradas de diversas nacionalidades que faziam parte de seu currículo e do fato que tinha acesso a maconha, mas que não poderia nos oferecer. “Seria irresponsável”, dizia, controlando-se para se manter sério por cinco segundos.

Minha melhor amiga na cidade engatou uma paixonite platônica por Nico. Esperava por mensagens dele que nunca chegavam, sorria e chacoalhava o cabelo quando o via nos corredores, falava obsessivamente sobre ele. Um dia, dois meses após sua partida da cidade, ela recebeu um e-mail dele, com uma daquelas mensagens que os homens às vezes se dão ao trabalho de nos passar apenas para nos relembrar que um dia fomos a fim deles: “Olha, você é linda, mas me desculpe, não me soube corresponder aos seus sentimentos, passar bem”.

Em meu último dia de aula, vi que a nova turma de Nico era composta por um grupo grande de meninas mexicanas que falavam muito alto e pareciam animadíssimas em estar sob a tutela do professor mais estrela da escola. Nunca tive uma aula com Nico. Mas o fato é que enquanto Carla nos ensinava gramática com uma habilidade Jiraiya, os alunos dele mal conseguiam pedir uma entrada em um restaurante sem soar como o Yoda.

Carros roubados

” Você quer roubar um carro?”

Foi com essa frase que Brian abordou Mariela em uma festa universitária que acontecia em um bar no centro de Florença, em maio de 2014. Ele não era universitário – e sim, um marinheiro americano que estava na cidade apenas de passagem. Ela, estudante de design que nunca soube ao certo explicar sua origem – seus pais eram filipinos, mas por alguma improvisação ou capricho do destino, ela acabou nascendo na Alemanha e conseguindo cidadania estadunidense por meio do pai diplomata. Mariela cresceu na Holanda e se identificava como holandesa, muito embora ela não falasse sequer uma palavra de holandês e não tivesse amigos holandeses, por ter estudado apenas em escolas americanas caríssimas.

Cansada de viver com os pais e as duas irmãs em Amsterdã, viu no curso de design em Florença a desculpa perfeita para adicionar mais um país à confusão invejável que era seu mapa de origem. Levou cinco anos de estudos na Itália para que ela tomasse a iniciativa de aprender italiano, e foi por isso que eu a conheci em uma segunda-feira chuvosa quando, em saltos muito altos e calças muito justas, ela veio saltitando em minha direção para me convidar para um tradicional jantar que acontecia entre as garotas da sala de aula.

“Você fala inglês com um sotaque tão americano, nem parece que nunca morou lá”, ela me falou, em tom de elogio, como se estivesse surpresa que eu não me comunicasse por meio de tambores. Por algum motivo estranho, agradeci, como se aquilo fosse realmente um comentário lisonjeiro. É que Mariela era uma das meninas mais bonitas que eu já tinha visto, do tipo que faz com que as pessoas queiram muito ser suas amigas – até porque ninguém quer ter uma menina bonita como ela como inimiga. Ela tinha traços orientais, bochechas altas e cabelos muito pretos e volumosos, com cachos que se formavam ao longo do comprimento e terminavam em uma cascata perto da cintura.

Acho que ela foi a primeira pessoa a ser legal comigo quando cheguei à cidade, então eu a apresentava a todas as pessoas que eu ia conhecendo pouco a pouco. Por morar em Florença há mais tempo que as outras meninas, Mariela agia como uma forma de guia local – sabia dos melhores restaurantes, já tinha ido a todas as boates e conhecia os melhores gelatos. Aos 25 anos, nunca tinha tido um emprego na vida, graças ao pai rico, que permitia que cada uma das três filhas vivesse como desejasse em uma parte diferente do mundo.

Estive apenas uma vez em seu apartamento alugado no bairro Santa Croce. Seu quarto era o maior da casa, e a porta, grande e antiga, era completamente marcada porque ela havia brincava de tiro ao alvo na madeira escura. O acordo era que faríamos um trabalho para a aula da semana seguinte, mas passei a tarde cochilando enquanto a observava atirar dardos e destruir pouco a pouco a parede centenária.

Mariela passava três horas por dia na academia que ficava na rua da minha casa, cuja mensalidade de 90 euros me causava arrepios. Os exercícios lhe eram passados por seu namorado via skype, e ela dava longos discursos sobre os melhores horários para ingerir carboidratos, enquanto nos estufávamos de pizza em um restaurante próximo à escola. “O Brian não pode nem sonhar que estou comendo isso”, choramingava. Fazia pouco tempo que ela tinha aderido ao vegetarianismo, após uma tentativa frustrada de se tornar vegana –  a experiência durara menos de 48h até que ela se sentisse fraca, faminta e muito desmotivada, então ela decidiu se contentar em cortar apenas a carne da alimentação. Ela me contava frequentemente sobre um garoto brasileiro com quem tinha namorado por algumas semanas, mas com quem tinha terminado por perceber que era “muito histérico e infiel”. Dei de ombros. Parecia verídico.

Por coincidência, Mariela dividia o apartamento com Anna, uma holandesa de 19 anos e olhos assustados que estava passando uns meses na Itália antes de iniciar a faculdade de Moda em Amsterdã. As duas chegavam sempre juntas à escola, aos jantares e a qualquer passeio que combinávamos de fazer juntas, de forma que pareciam inseparáveis. Mariela era alguns anos mais velha que Anna e, por isso, a tratava como um tipo de irmã quando saíamos em grupo – na verdade, todas nós fazíamos isso, de forma que Anna era a única a ser acompanhada até a porta de casa por todas nós quando voltávamos de madrugada de alguma noitada.

A única coisa que Anna e Mariela tinham em comum era a Holanda. Se Mariela nunca tinha recebido um salário na vida, Anna, com seus poucos anos, tinha trabalhado dois turnos por meses para economizar o dinheiro para manter-se na Itália. Em um passeio a um museu na companhia da holandesinha, descobri que ela odiava Mariela. Precisei parar por um momento. “Mas por que, Anna? vocês até mesmo se vestem como se fossem irmãs”. Ela então me contou que não suportava que Mariela se dissesse holandesa sem nunca ter se dado ao trabalho de aprender o idioma. “Não te parece estranho ela só ter tomado a iniciativa de aprender italiano agora, depois de cinco anos na Itália?”. Sim, parecia. Mas ao mesmo tempo, me parecia também uma atitude muito americana, e embora Mariela se apresentasse como holandesa, ela era o retrato de todas aquelas garotas que vemos em reality shows americanos.

Aparentemente, Mariela não ajudava muito nas atividades domésticas, passava horas falando alto com o namorado no skype e deixava longos fios de cabelo preto entupindo o ralo sem cerimônia alguma. Ao ouvir o relato de Anna, as demais garotas começaram a também desabafar. Era unânime: todas detestavam Mariela.

A informação me pegou de surpresa. Apesar da  fama de superficial, Mariela tinha me contado com detalhes toda a história dos Medici, que tinha aprendido ao longo das aulas de design. “Deveriam fazer uma série sobre eles, como fizeram sobre os Tudors”, concluiu, pensativa. Ao longo de um de nossos almoços na pizzaria, ela me contou sobre uma aposta que tinha feito com o namorado – aquele que conseguisse passar mais tempo sem se masturbar, teria que pagar ao outro um jantar.

“Mas como você vai saber se ele não está mentindo?”, eu perguntei.

“Ah, acredite, eu vou saber”.

Pascale, minha colega de apartamento e, de certa forma, minha amiga mais próxima naquele contexto, também detestava Mariela. Ao saber que ela tinha demonstrado interesse em ir conosco à Sicília, Pascale foi categórica: não a queria conosco em Palermo. Fiquei sem resposta.

Com o passar dos dias, fui me afastando lentamente de Mariela. Como não sabia como dar a má notícia a ela, a evitava nos corredores da escola. Ao perceber a infantilidade da coisa toda, peguei o telefone e a convidei para ir comigo a Casa Buonarroti, um museu sobre Michelangelo que eu sabia que ela ainda não conhecia. “Não posso, se eu não for a academia hoje, meu namorado me mata”, justificou. Ela começou a sentir o clima hostil das demais garotas e começou também a se afastar, indo embora de vez em um feriado com a desculpa de que iria visitar os familiares. Anna me mandou uma mensagem naquela tarde: “the bitch is gone”.

Tudo o que soube sobre Mariela desde então vem de suas redes sociais: terminado o curso de italiano em Florença, foi visitar o namorado nos Estados Unidos. Voltou em seguida para a Holanda. Engatou, então, mais um curso em Milão. Virou vegana de vez. Semana passada, ela atualizou a foto de perfil: acompanhada de uma amiga loira, vestia um maiô colorido, fazia cara de susto e tampava a boca com a mão esquerda. Ao fundo, uma praia rochosa italiana, acompanhada da legenda: “capa de cd de rap dos anos 90”. Todas as meninas do nosso pequeno grupo curtiram a foto.

Sobre homens italianos

“E os ragazzi?”. Essa pergunta foi a que mais ouvi enquanto estava na Itália, quando voltei da Itália e sempre que alguém que eu acabo de conhecer descobre que estive na Itália. Talvez por culpa de Benedito Ruy Barbosa, talvez por causa das aparições semanais da Laura Pausini no Faustão nos anos 90, o estereótipo do italiano em que crescemos querendo acreditar é: lindíssimo, romântico, alto, e que e te cozinha o jantar sem camisa enquanto você bebe vinho deitada em um sofá revestido em veludo.

Mas os estereótipos estão aí para serem destruídos, não é mesmo?

Os italianos são bonitos? 

Sim, com certeza. Mas assim, é uma beleza que quase sempre cabe em até um metro e setenta – e olhe lá. O que não é ruim, mas vai contra o estereótipo do italianão grandão sem camisa. De uma forma geral, os italianos têm uma estatura mais modesta e um porte menorzinho do que o dos brasileiros – coisa que eles compensam em cabelo. Os italianos cultivam cabelos maravilhosos, e por lá agora existem basicamente três tipos principais de cabelos de italiano: o cabelo ondulado/cacheado e muito cheio; o cabelo raspadinho nas laterais estilo jogador de futebol e o já globalizado coque masculino.

Na Itália, principalmente em cidades hypadas como Milão e Florença, os homens se vestem muito, muito bem. Os sapatos são sempre impecáveis, o terno é sempre ajustado, e eles andam de bicicleta de terno e sapato social com mais segurança do que Gisele Bundchen desfilando na passarela da Colcci.

Os italianos são românticos?

Bom, aí depende da tua ideia de romance. Eu passei por umas situações meio chatas, tipo uma em que um cara de uns cinquenta anos me seguiu até em casa, bateu na minha porta e me chamou pra almoçar and ir pra casa de praia dele no próximo final de semana sendo que eu nunca o tinha visto antes. Isso tudo porque ele tinha me ouvido conversando com uns amigos no bar e, ao saber que sou brasileira, achou que isso significasse que eu acharia maravilhoso ter um cara mais velho que meu pai me seguindo até meu apartamento. Quando pedi pra ele ir embora e tentei fechar a porta, ele enfiou o pé entre a porta e a parede para que eu não conseguisse fechá-la e foram minutos de tensão tentando convencê-lo a ir embora por bem. Isso normalmente faria um cara normal entender a mensagem e desistir de você, mas o sujeito ainda deu um jeito de descobrir meu telefone, a escola em que eu estudava e de me esperar na saída por uns três dias seguidos, até eu ter que pedir ajuda para me livrar dele com segurança.

É que assim como nós crescemos com o estereótipo do italiano romântico Terra Nostra, eles aparentemente cresceram com o estereótipo da brasileira-liberal-topa-tudo. Existe brasileira liberal-topa-tudo? Existe sim, inclusive este é um exemplar maravilhoso e válido de brasileira, mas também existe brasileira freira, brasileira defensora do Bolsonaro e brasileira gótica suave que quer casar virgem. Ser liberal  e ir pra um país estrangeiro querendo sair geral com os caras de lá é normal, o que não é normal é um cara ser louco psicopata e te seguir até a sua casa e insistir após ouvir um não como resposta.

É que se trata de um país ainda muito machista. Ouvi de um professor da escola em que estudava, por exemplo, que eu não poderia ser muito boa em boxe porque sou mulher. Já uma amiga levou uma PEDRADA na cabeça quando ignorou as cantadas de um vizinho mal educado. Quando olhou pra ver de onde tinha vindo a pedra, o bonitão estava lá, com um sorriso no rosto e acenando, alegremente: “ciao, bella!“. Quando contamos o incidente para outro italiano, ele riu e disse que achou super fofa e romântica a atitude do vizinho. Vai entender.

É claro que existem italianos bem diferentes desses tipos, existem italianos hippies de dread que te oferecem maconha em uma praça com nome de santo, italianos não muito interessados em mulheres, italianos que só querem amizade pura e verdadeira mesmo você não tendo piscina em casa. Tem italiano que é bonito, educado, gentil e nada machista – tudo isso de uma vez só.

O fato é que eles são mais diretos. Se estão interessados em uma moça, a abordam e a chamam pra sair, simples assim. No restaurante, na rua, no bar, eles não perdem tempo. Não acho que essa seja uma característica ruim, inclusive corta muito do drama da vida quando a abordagem não é psicótica. Um amigo disse que muitos italianos gostam das brasileiras porque somos mais “divertidas” do que as italianas – que eles acham sérias demais. Mas sinceramente, acho que as mulheres de lá têm todos os motivos do mundo pra não darem moleza pros rapazes.

italian

Françoise não quer cozinhar

Françoise não quer cozinhar. Logo que chegou a Florença, não quis saber de ver pontes ou museus – foi direto ao supermercado e comprou refeições prontas que seriam suficientes para cinco dias. No dia em que me foi apresentada como uma de minhas novas colegas de apartamento, ela estava com o marido, mas ele só ficou na cidade por um dia e, no seguinte, deu-lhe um beijo, um abraço, um maço de dinheiro e foi embora.

Os primeiros dias foram estranhos. Ela passava as tardes inteiras em casa, vendo filmes dublados em italiano e comendo risoto frio. Sempre que eu chegava em casa após as aulas, após correr ou mesmo na madrugada, lá estava Françoise, com uma bacia de alguma massa, um garfo e uma toalha na cabeça. “Cozinho todos os dias na Suíça, não vim pra cá pra cozinhar”, comentava, antes mesmo que eu dissesse algo. Seu italiano era bom, e ela se recusava a falar em inglês com qualquer outro membro da casa, pois achava a língua feia e fácil demais. “Italiano é mais bonito e é pra isso que eu vim pra cá”, justificou-se, entre uma garfada e outra de salada, em nossa primeira conversa.

Françoise tinha o maior quarto da casa, onde estocava shampoo, papel higiênico e lanches para não correr o risco de ter que dividir com o restante dos moradores. Me acostumei a encontrá-la com com a porta escancarada, debruçada sobre o computador enrolada em uma manta verde que ganhou de alguma companhia aérea. Volta e meia me chamava para ver alguma foto que o filho mandava da Suíça, onde todos moram juntos em uma grande casa bege. Ao final da primeira semana, ela só tinha saído de casa para jantar com uma amiga francesa do curso de italiano e para comprar mais e mais congelados que estocava no frigobar que dividíamos.

Françoise propiciou uma das maiores piadas internas da casa. Em uma terça feira de noite, organizamos um jantar entre os moradores do apartamento – eu, uma australiana, um israelense e uma italiana – e ela se recusou a participar, porque não queria nenhum envolvimento com a cozinha – nem que fosse para pôr a mesa. Para se esquivar da socialização, disse que precisava conferir sua agenda – andava ocupadíssima. Françoise, ocupadíssima? Rimos do fato por dias.

Em uma fim de semana, cheguei em casa depois das duas da madrugada e Françoise não estava lá. Pela fresta do quarto aberto eu podia ver que suas coisas ainda estavam jogadas pelo chão. Duas horas depois, acordei ao ouvi-la chegando esbaforida por causa dos cinco lances de escada. Não perguntei, mas no dia seguinte me contou que tinha ido a uma festa promovida pela escola em que estudava.

As saídas de Françoise se tornavam mais frequentes. Aperitivos, jantares, idas a museus. Acho que a vi duas ou três vezes com um grupo de senhoras faceiras no mesmo bar, ao entardecer, rindo com a cabeça voltada para trás, todas falando em um italiano um pouco enrolado mas surpreendentemente bom. Com frequência ela chegava em casa e me encontrava com uma toalha enrolada na cabeça, debruçada sobre meu laptop vendo fotos de meu sobrinho pequeno com bigode pintado de coelhinho da páscoa enquanto eu comia pizza.

A cada vez que Françoise chegava em casa e eu estava de pijama, com cabelos embaraçados ou cara de quem tinha acabado de acordar, eu morria um pouco por dentro. A situação estava se invertendo e eu imaginava Françoise rindo com as colegas da roommate brasileira que passava tempo demais em casa.

Fiz um combinado com outra colega de apartamento: passaríamos a sair mais de casa. A beber mais. A ver mais museus. Estudar? Besteira. Queríamos ter uma vida mais agitada que a da senhora de quase sessenta anos que morava no enorme quarto ao lado do nosso. Quando chegou o dia da notte bianca – uma noite em que museus, restaurantes, lojas e bares ficam abertos madrugada adentro, resolvemos que não voltaríamos para casa antes de ver o nascer do sol. Tomamos dois gelatos, quatro drinks, uma garrafa de vinho e dois cafés expressos cada e desistimos de ver o nascer do sol lá pelas cinco e meia, após percebermos que o dia que estava por vir seria nublado e que nosso clube de jazz preferido estava fechado. Quando chegamos em casa, Françoise roncava sonoramente. Dormimos aliviadas e perdemos a aula no dia seguinte.

Acho que Françoise foi embora uma semana depois da notte bianca. Quando cheguei em casa após a aula, ela me esperava com uma sacola de coisas que não queria levar na mala: todos os lanches prontos, lenços umedecidos, demaquilantes e rolos de papel higiênico que vinha estocando em seu quarto. Antes de ir embora, me deu um abraço um pouco constrangido e pediu ajuda para carregar a mala até lá embaixo.

Caravaggio matou um cara

Acho que foi antes mesmo de completar minha primeira semana em Florença que decidi parar de desviar de fotos de turistas. Leva tempo demais em uma cidade em que, bem, quase todo mundo é turista. Tenho uma ótima tolerância a comportamentos tipicamente turísticos alheios, como formar filas para tomar o Gelato X ou me esquivar dos paus de selfie que surgem sem aviso prévio a 3 cm do meu rosto; mas se eu for parar ou desviar de cada foto que é tirada em meu caminho diário pra atravessar a Piazza del Duomo, eu simplesmente não chegaria a meu destino final em um horário razoável.

Calculo que pelo menos 50 estranhos de diferentes lugares do mundo já devem ter me fotografado por acidente em uma tentativa de tirar uma foto de um monumento, de um pôr do sol na Ponte Vecchio ou um quadro de Caravaggio. Aí eu me flagro pensando que se essa galera toda decidisse não deletar as fotos em que nem tão acidentalmente assim apareço e passasse a me marcar em todas elas no Facebook, eu já teria um book completíssimo em Florença. Seria maravilhoso, considerando que estou viajando sozinha e raramente tenho ganas de bater uma selfie com uma paisagem renascentista atrás de mim – meu cabeção sempre cobre todas as partes interessantes do cenário, então já nem me dou mais ao trabalho.

Dia desses atravessei a Galleria dei Uffizi inteira procurando pelos quadros de Caravaggio. Passei por Da Vinci, por Botticelli, por trocentas salas dedicadas a imagens da Virgem Maria dando o peito a um menino Jesus cada vez mais loiro e mais gordo, mas nada de Caravaggio. Resolvi seguir um grupo de turistas asiáticos que tinha contratado uma guia com inglês macarrônico para explicar a história de cada quadro do museu, um a um. Quarenta minutos, setenta quadros e quinze olhadas feias da guia direcionadas a mim depois, chegamos aos Caravaggio.

“Caravaggio matou um homem!!!”, explicou a mulher, antes mesmo de começar a falar sobre as obras. “OOOOHHHHHH”, exclamaram os atentos turistas, em uníssono. Tentei então me aproximar da pintura da Medusa, que, de acordo com a guia, existe em duas versões. Caravaggio a teria retratado no momento em que ela mesma se vê em um espelho, milésimos de segundo antes de ser petrificada pela própria imagem. “Vejam a expressão nos olhos da criatura”, explicou, teatralmente. Mas eu me distraí e, em vez de olhar para os olhos da Medusa, virei para trás e olhei para os olhos de uma japonesinha de uns oito anos que já estava me amolando há uns dez minutos. E foi aí que, PAH! A japinha tirou uma foto minha com a Medusa.

Caravaggio matou um cara e eu gosto de pensar que, neste momento, em algum lar japonês, uma foto minha com uma expressão mais assustada do que a de sua obra mais conhecida ornamenta o plano de fundo do iPad de uma japonesinha pentelha de oito anos.

Passei 37 minutos olhando pra bunda do Davi

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Vale ressaltar que a bunda do Davi fica em outro museu e que eu vi sem guia mesmo.