Milão e eu

 

Milão, ❤

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Milão não é uma daquelas cidades que tenham me causado amor à primeira vista. Na verdade, nas três vezes em que a visitei, tive que me esforçar para procurar coisas que gostasse na cidade, tão grande e urbana, onde turistas se enfileiram para usar o banheiro McDonald´s e homens parecem competir pelo prêmio de cabelo mais estiloso. Meu descaso com a cidade sempre revoltou Nicco, que em nosso primeiro passeio pelos canais de Navigli, não conseguia disfarçar que preferia que eu tivesse mentido por educação e dito que Milão era a cidade mais incrível que já havia conhecido.

“É um pouco como São Paulo”, ele tentava argumentar, gesticulando em desespero ao me ouvir rebater que detesto São Paulo. Percebi que deveria reconhecer o esforço do rapaz para trazer uma referência mais próxima da minha realidade para tentar despertar em mim alguma ternura pela cidade que ele havia escolhido para viver, tão longe daquela em que nasceu, no sul da Itália. Nicco tinha um melhor amigo e colega de quarto que também se chamava Nicco. Juntos, eram o estereótipo do homem milanês, sempre vestidos com roupas alinhadíssimas. Mas nenhum dos dois eram nascidos ali. A verdade é que ambos endeusavam o estilo de vida que lhes era propiciado pela cidade e por seus empregos, então saíam para comer caviar e outras gororobas elitizadas em festas povoadas de jovens de 30 e poucos anos em que a temática escolhida era “crise” – ironicamente, é claro. Fotografar os rótulos dos vinhos que custavam um salário mínimo em um país em desenvolvimento era obrigatório nessas festas, bem como fazer fotos que mostrassem os looks completos dos convidados – sapatos Dolce&Gabbana nas mulheres, sempre muito magras, e mocassins e paletós nos rapazes.

Nicco me perguntou por que eu não tinha amigas italianas. Respondi que não sabia, mas que as italianas não se interessavam muito por mim, então eu passei a também não me interessar por elas. Sempre as achei  até elegantes, com suas roupas em cores sóbrias e sapatos impecáveis, mas aquele ar de superioridade, ainda mais forte nas milanesas, não me intimidava. Sororidade ainda não era um tema recorrente por lá. Meu maior pavor era o de começar a achar bonitas as sobrancelhas que estavam na moda entre as italianas – muito finas e arqueadas, por isso eu evitava salões de beleza. Contei que eu até tinha tentado fazer amizade com Alessandra, uma advogada que dividia apartamento comigo em Florença, mas que a nossa relação tinha tomado um caminho amargo quando ela retirou minhas roupas ainda úmidas do varal para pendurar as calcinhas dela no lugar. Ele riu e disse que ia me arranjar algumas amigas italianas, mas isso nunca aconteceu.

Milão é uma daquelas cidades onde é preciso morar para aprender a amar, argumentei a Nicco – assim como São Paulo. Um passeio pelos pontos turísticos não basta, jantar em um restaurante da moda também não. É preciso viver a cidade, fazer amigos nela, descobrir lojas e bares que se adequem ao seu gosto e memorizar as linhas de metrô. Caso contrário, você não a entenderá, se sentirá um caipira nela no momento em que sai da Estação Central e se depara com aquelas ruas todas iguais que levam a ruas menores com outdoors da Valentino. É preciso encontrar algo que te leve a São Paulo, é preciso encontrar algo que te leve a Milão, e no momento, a única coisa que me traz a Milão é você, Nicco.

Nicco sempre falava comigo um pouco devagar, se certificando de pronunciar muito bem cada palavra, e por vezes arriscava um pouco de português. “Ax mininax de Minaix Geraix” era uma frase cantadinha recorrente, porque sua noção de música brasileira era  Jammil e Uma Noites e aparentemente ele tinha feito seis meses de aulas de português com uma professora carioca quando ainda estava na faculdade. Não é como se ele achasse que eu era burra ou algo assim. O argumento dele era que eu precisava praticar meu italiano e que o inglês dele andava enferrujado. Ele me perguntava sobre a situação política e econômica brasileira, sobre os meus livros preferidos e sobre Cuba – cidade que ambos visitamos no mesmo ano, antes de nos conhecermos. Quando eu ocasionalmente o convidava a largar o apê em Milão para viver como hippie comigo em uma praia colombiana, ele me dava lições de moral sobre o capitalismo e como ele é benéfico e bem sucedido quando há igualdade. Mas onde há igualdade, Nicco?

Apesar das extravagâncias, Nicco e Nicco eram pessoas modestas. Tentei ponderar que eles vinham de uma realidade muito diferente da minha, não de um país onde organizar encontros para comer caviar antes dos 35 anos fosse considerado algum tipo de ofensa social – talvez apenas um pouco cafona. O apartamento que dividiam no centro de Milão era pequeno e simples, com aquelas características comuns a apartamentos habitados por homens: louças descombinadas, copos lascados e uma cortina manchada pelo sol viviam tristes na mesma sala de TV, onde os dois recebiam convidados todos os domingos para almoços feitos em casa. O box do banheiro era minúsculo, desproporcional ao restante de espaço que sobrava ao redor e que permitia que uma ginasta fizesse um espacate entre a pia e a privada sem temer bater o dedinho do pé em algum móvel. No lugar de cama, Nicco tinha apenas um colchão no chão, onde deixava sempre à mão uma garrafa de água de dois litros e o carregador do celular. Eu nunca perguntei, mas sabia que o aluguel devia custar uma pequena fortuna.

Ele me disse que gostava de sair comigo porque me achava divertida, e como foi a primeira vez que alguém usou esse adjetivo para me descrever, resolvi acreditar. Quer dizer, já tinham me dito que me achavam engraçada, mas divertida tinha sido a primeira vez. Comentei isso com Nicco em um bar escolhido por ele, onde cada drink custava inacreditáveis doze euros. Ele se levantou para buscar nossos Amaretto Sours que tinham ficado prontos e, quando retornou, deu um gole, pousou o copo sobre a mesa e disse que talvez eu e Milão tivéssemos isso em comum: talvez fosse necessário viver um pouco em nós para captar o que nós realmente tínhamos a oferecer além de nossas aparências, e talvez fosse por isso que eu e ela – a cidade – não tivéssemos nos dado bem logo de cara. Nós, mulheres, por vezes nos estranhamos quando reconhecemos uma na outra as mesmas características. Acho que a frase não tem exatamente o impacto que ele tinha em mente quando a formulou naqueles quarenta segundos em que se ausentou para buscar as bebidas, mas mesmo assim, aceitei a analogia como um elogio.

 

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Sobre homens italianos

“E os ragazzi?”. Essa pergunta foi a que mais ouvi enquanto estava na Itália, quando voltei da Itália e sempre que alguém que eu acabo de conhecer descobre que estive na Itália. Talvez por culpa de Benedito Ruy Barbosa, talvez por causa das aparições semanais da Laura Pausini no Faustão nos anos 90, o estereótipo do italiano em que crescemos querendo acreditar é: lindíssimo, romântico, alto, e que e te cozinha o jantar sem camisa enquanto você bebe vinho deitada em um sofá revestido em veludo.

Mas os estereótipos estão aí para serem destruídos, não é mesmo?

Os italianos são bonitos? 

Sim, com certeza. Mas assim, é uma beleza que quase sempre cabe em até um metro e setenta – e olhe lá. O que não é ruim, mas vai contra o estereótipo do italianão grandão sem camisa. De uma forma geral, os italianos têm uma estatura mais modesta e um porte menorzinho do que o dos brasileiros – coisa que eles compensam em cabelo. Os italianos cultivam cabelos maravilhosos, e por lá agora existem basicamente três tipos principais de cabelos de italiano: o cabelo ondulado/cacheado e muito cheio; o cabelo raspadinho nas laterais estilo jogador de futebol e o já globalizado coque masculino.

Na Itália, principalmente em cidades hypadas como Milão e Florença, os homens se vestem muito, muito bem. Os sapatos são sempre impecáveis, o terno é sempre ajustado, e eles andam de bicicleta de terno e sapato social com mais segurança do que Gisele Bundchen desfilando na passarela da Colcci.

Os italianos são românticos?

Bom, aí depende da tua ideia de romance. Eu passei por umas situações meio chatas, tipo uma em que um cara de uns cinquenta anos me seguiu até em casa, bateu na minha porta e me chamou pra almoçar and ir pra casa de praia dele no próximo final de semana sendo que eu nunca o tinha visto antes. Isso tudo porque ele tinha me ouvido conversando com uns amigos no bar e, ao saber que sou brasileira, achou que isso significasse que eu acharia maravilhoso ter um cara mais velho que meu pai me seguindo até meu apartamento. Quando pedi pra ele ir embora e tentei fechar a porta, ele enfiou o pé entre a porta e a parede para que eu não conseguisse fechá-la e foram minutos de tensão tentando convencê-lo a ir embora por bem. Isso normalmente faria um cara normal entender a mensagem e desistir de você, mas o sujeito ainda deu um jeito de descobrir meu telefone, a escola em que eu estudava e de me esperar na saída por uns três dias seguidos, até eu ter que pedir ajuda para me livrar dele com segurança.

É que assim como nós crescemos com o estereótipo do italiano romântico Terra Nostra, eles aparentemente cresceram com o estereótipo da brasileira-liberal-topa-tudo. Existe brasileira liberal-topa-tudo? Existe sim, inclusive este é um exemplar maravilhoso e válido de brasileira, mas também existe brasileira freira, brasileira defensora do Bolsonaro e brasileira gótica suave que quer casar virgem. Ser liberal  e ir pra um país estrangeiro querendo sair geral com os caras de lá é normal, o que não é normal é um cara ser louco psicopata e te seguir até a sua casa e insistir após ouvir um não como resposta.

É que se trata de um país ainda muito machista. Ouvi de um professor da escola em que estudava, por exemplo, que eu não poderia ser muito boa em boxe porque sou mulher. Já uma amiga levou uma PEDRADA na cabeça quando ignorou as cantadas de um vizinho mal educado. Quando olhou pra ver de onde tinha vindo a pedra, o bonitão estava lá, com um sorriso no rosto e acenando, alegremente: “ciao, bella!“. Quando contamos o incidente para outro italiano, ele riu e disse que achou super fofa e romântica a atitude do vizinho. Vai entender.

É claro que existem italianos bem diferentes desses tipos, existem italianos hippies de dread que te oferecem maconha em uma praça com nome de santo, italianos não muito interessados em mulheres, italianos que só querem amizade pura e verdadeira mesmo você não tendo piscina em casa. Tem italiano que é bonito, educado, gentil e nada machista – tudo isso de uma vez só.

O fato é que eles são mais diretos. Se estão interessados em uma moça, a abordam e a chamam pra sair, simples assim. No restaurante, na rua, no bar, eles não perdem tempo. Não acho que essa seja uma característica ruim, inclusive corta muito do drama da vida quando a abordagem não é psicótica. Um amigo disse que muitos italianos gostam das brasileiras porque somos mais “divertidas” do que as italianas – que eles acham sérias demais. Mas sinceramente, acho que as mulheres de lá têm todos os motivos do mundo pra não darem moleza pros rapazes.

italian

O piriri de cada viagem e o trem noturno para a Sicília

Dor de barriga não é um assunto fácil, nem popular, mas acontece. Acontece com todo mundo todo ano, e com uma frequência maior em viagens. Piriris testam relacionamentos amorosos e de amizade, deixando os amigos ou amantes mais próximos ou os afastando de vez. Você nunca vai saber se uma pessoa gosta mesmo de você até vocês sobreviverem juntos a uma diarreia. Esses tempos encontrei uma amiga que não via há meses em Milão, e a primeira frase que ela me disse, ao chegar no hotel e me dar um abraço de oi, foi: “Agora me dá dez minutos que preciso fazer cocô”. Eis aqui uma amizade inabalável.

E daí que eu sou sempre a pessoa que passa mal em viagens. Nem sempre tenho dor de barriga, mas já conquistei uma cistite e uma torção de tornozelo num período de dez dias em Amsterdã. Uma tia se recusou a falar comigo por três dias por não acreditar em uma queda de pressão que sofri no Vaticano e que fez com que eu e uma prima debandássemos do grupo pra pegar um arzinho fresco longe das estátuas de bebês feiosos. Em Cuba, camarões tão baratos que me fizeram brindar ao socialismo e a Fidel voltaram mais tarde para me assombrar por três longos dias.

Quando viajo com amigas, já aviso das probabilidades de elas acabarem me acompanhando a um médico do seguro em algum momento, para que não aleguem surpresa depois. Mas em minha última viagem, que teve início como uma aventura solo e teve continuidade com uma australiana que conheci no caminho, tudo foi diferente. Eu não adoecia. Nem uma dorzinha de ouvido. Corria todos os dias em um frio de cinco graus e minha saúde permanecia gloriosa. Quando minha garganta ameaçou inflamar, comprei um spray de própolis brasileiro superfaturado, ignorei a febre e segui com a vida, inabalável.

Fui a Palermo com um trem noturno que partia de Roma. Cerca de treze horas de viagem dormindo em uma cabine com Pascale – a amiga australiana, e dois estranhos. Poderíamos ter pego um avião, que custaria o mesmo e faria o trajeto em 40 minutos, mas uma série de infortúnios com companhias aéreas low cost me fizeram jurar nunca mais ser muquirana com passagens aéreas e virar uma pessoa de trem. Chegando na cabine, tomei um valium da Pascale para encarar a longa viagem e descobri que os estranhos seriam um casal fofíssimo de sicilianos que tinham ido a Roma visitar os filhos. Pegavam aquele trem há quinze anos, sabiam o protocolo de cor, roncavam muito e resmungavam durante a madrugada.

Trem noturno pra Sicília: essa noite foi L0k4

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No dia seguinte, acordei lá pelas sete com a senhorinha me oferecendo Plum Cake, um bolinho tipo Ana Maria, só que melhor, porque até quando se trata de comida industrializada os italianos manjam mais que o resto do mundo. Comi feliz da vida, anotei as dicas sobre a Sicília que o velhinho me passou e segui com a viagem. Cerca de duas semanas depois, já com passagem marcada para voltar sozinha a Roma no mesmo trem noturno, conhecemos um casal de italianos que nos convidaram a jantar com eles.

A cada garfada, o rapaz me metia três tipos de medos diferentes. Roma? Eu seria assaltada na certa. Andar no Roma Termini depois das 20h? Só para suicidas. Mas o que o fez engasgar em uma garfada de farofa foi descobrir que eu viajaria de trem noturno sozinha. Estupros, saques e até mesmo uma espécie de gás do sono utilizado por quadrilhas especializadas me aguardavam naquela viagem, ele alertou. “Siga minha dica. Se você não tem verba pra isso, ligue agora pro seu pai e peça cem euros emprestados para uma passagem de última hora de avião”, ele me suplicou, segurando minha mão teatralmente no meio do restaurante.

Não dormi direito naquela noite. Apesar da Pascale tentar me tranquilizar, mencionando nossa ótima primeira experiência com o trem noturno, fui ao google buscar em português, inglês e italiano todos os perigos que me aguardavam na viagem programada para dali a três noites. Que erro. Aparentemente ninguém vai a fóruns de viagens relatar experiências normais com trens noturnos. Algumas pessoas alegavam ter acordado sem sapatos, sem pochete e sem mochila, juravam ter sido drogadas por estranhos que ofereciam doces. Lembrei-me do plum cake e do valium da viagem anterior. A ignorância realmente é uma bênção.

Eu já estava prestes a levantar a bandeirinha de “estamos há 75 dias sem piriris de viagem” quando, talvez por causa da preocupação, talvez por causa de duas semanas regadas a muito vinho e frituras, acordei na manhã em que pegaria o trem noturno com a pior dor de estômago que já senti na vida. A dor foi migrando para o sul e passei aquele dia todo me revezando entre a cama e o banheiro. Me perdoem se isso é gráfico demais, mas como eu disse, piriri nunca é um assunto fácil. Minha sorte era a Pascale ser estudante de medicina e dar conselhos super profissionais, como: “se entupa de coca-cola que logo passa”.

Seis horas antes do horário marcado para a viagem, suspendi os líquidos. Uma hora antes, amarrei todos meus documentos e dinheiro perto do meu sutiã, vesti uma jaqueta bem fechada, me muni de uma faca de cozinha ameaçadoríssima, uma cara de poucos amigos, um pouco de soro caseiro em uma garrafa de água e entrei no trem. Apesar de meu único contratempo naquela viagem ter sido o pé sujo da passageira do beliche de cima ter ficado mais perto do meu rosto do que eu gostaria, eu não preguei o olho a noite toda e respirei mais fundo a cada vez que sentia que precisava ir ao banheiro.

Bem, amigos, essa história não é lá muito bonita, mas histórias de viagens nem sempre são bonitas. Eu ainda não sei ao certo se recomendo trens noturnos. Mas a coca-cola pra curar piriri, ah, essa dica é de ouro!