Rory Gilmore e o reajuste de expectativas

MUITOS, MUITOS SPOILERS

 

 

rory

 

Conheci as garotas Gilmore em um sábado a tarde, quando voltava de uma sessão de prova-prova de vestidos para uma festa de debutantes de uma amiga. Tinha provado cerca de 12 vestidos, odiado todos, e ido pra casa com um vestido curto, preto, de alcinhas e que me fazia parecer uma mulher divorciada de 40 anos que vai tomar Martins com as amigas em uma sexta-feira desesperada. No episódio, Rory também provava vestidos horrorosos. Para ir ao prom, acabou também usando um vestido triste feito pela mãe: azul, angelical e evidenciado por um coque apertado com cara de boa moça.

Rory Gilmore, vamos confessar, sempre foi meio chatinha: menina branca, rica, privilegiada e cheia de cagação de regras sobre livros e música. Mas a gente a perdoava, porque ela ia contra os demais personagens de séries adolescentes. Seu grande atrativo era não ser Marissa Cooper. Aos 16 anos, já tinha lido mais livros do que seria humanamente possível que um adulto perto dos 30 tivesse lido. Perdeu a virgindade somente aos 19. Sem grandes esforços, era a melhor aluna da sala, para desespero de sua futura melhor amiga e, convenhamos, melhor personagem da série toda, Paris Geller.

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Rory passou por dois namoros sem graça e sem sexo até conseguir encontrar, finalmente, alguém ainda mais rico, mais branco e mais privilegiado do que ela: Logan Huntzberger. Ei, não me leve a mal, eu sempre fui #teamLogan. Quero fugir daquele papo das problematizações com os três namorados da moça que pipocaram pela rede (todas bem reais), pois meu argumento é muito simples: Rory e Logan são one and the same. Se ele consegue tudo o que quer com um telefonema do pai, ela também o consegue com um telefonema do avô.

Quando a série terminou, Rory se formava em Jornalismo. Como boa menina privilegiada, estudiosa e com bons contatos, ela já tinha um currículo invejável: estágio no jornal do pai do namorado, editora-chefe do Yale Daily News e terminava a temporada com a notícia de que cobriria a campanha de Obama. O OBAMA, sabe. Sua carreira era sua prioridade e, por isso, quando Logan, o namorado mais branco e mais rico do que ela a oferece um casamento aos 22 e uma casa com um abacateiro, ela recusa o pedido. As meninas que amavam Rory por ela não ser Marissa Cooper podiam respirar aliviadas novamente.

Corta a cena para o momento em que, nove anos depois, a Netflix anuncia o reboot da série. O assunto era um só: com quais dos namorados da adolescência Rory estaria namorando? A discussão, além de chata, era ridícula: quem quer estar aos 32 com o casinho que deu errado aos 20? Em que mundo os fãs de Gilmore Girls vivem por acharem que, ao longo de uma década, a menina não conheceu dezenas de outros rapazes? Aos meus 27 anos, minha certeza era uma só: eu era #TeamSingleRory.

Mas Rory reapareceu, e ela não estava solteira.  Apesar de colocar alarmes no celular e avisos em post-its, Rory Gilmore – desempregada, mais chatinha do que nunca e sem teto – não arranja cinco minutos para terminar o relacionamento com o rapaz, do qual se esquece com frequência. E o trai com o ex, Logan, que pacientemente ouve seus problemas banais em DDIs trilhardários, porque ele é rico e pode bancar relacionamentos com duas mulheres em continentes diferentes.

Mas o mais decepcionante é descobrir que Rory Gilmore, conforme Mitchum Huntzberger já havia previso, não parece ser lá uma boa jornalista. Ela dorme enquanto entrevista as fontes. Ela dorme com as fontes. Ela vai a entrevistas de emprego com ar de superioridade e sem sequer pesquisar a linha editorial do veículo.

Não se trata de uma personagem que apenas quicou erraticamente abaixo na ladeira da vida – falamos aqui de um reajuste de expectativas. Rory, que um dia teve um futuro brilhante e um final feliz, foi convocada pela Netflix apenas para ter tudo isso roubado dela em quatro episódios nostálgicos demais, canastrões demais e cheios de meninas com problemas que não são reais, porque, convenhamos: quem pode se dar ao luxo de trabalhar de graça ao longo de uma estação inteira para salvar (cof!) o jornalzinho da cidade é porque, de fato, não precisa da grana dos artigos da New Yorker. Só precisa do reconhecimento que vêm deles em seu círculo pessoal. A Rory Gilmore que a Netflix despertou da cápsula do tempo jogou sua vida fora – e  o Logan nem sequer tem uma moto.

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Macumba

Texto por Julliana Bauer / Ilustração por Sarah Bauer

 

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Não sou uma pessoa muito escolada no tema espiritualidade, mas morro de ódio da tal da lei do carma, que te pune na vida atual pelas cagadas das vidas anteriores. Ou seja, pode mandar ver na sacanagem, zoeira e difamação na vida atual, mas fique sabendo que na próxima você certamente irá sofrer de uma acne brutal e constante rejeição amorosa como compensação. É por isso que quando alguém te sacaneia, você demora a ver o sujeito ter o que merece por ter te magoado: as chances são de que ele só vá pagar por isso na próxima encarnação, e você talvez nem esteja lá pra vê-lo se ferrando – o que é muito, muito injusto.

Não duvido nem um pouco do poder da macumba, mas sempre acho difícil de levar a sério quando ouço alguém creditando as desgraças da própria vida a um trabalho espiritual feito por outra pessoa. Quer dizer, com trabalho, estudos, Netflix e vida social, quem tem tempo de sair por aí matando galinha preta pra fazer despacho contra inimizades em 2014? Eu que não.

Depois de conhecer a lei do carma, passei a relacionar toda e qualquer frustração da encarnação atual com o marido que provavelmente chifrei na vida anterior ou, quem sabe, com alguns crimes de latrocínio que cometi em 1837, quando eu era uma dançarina russa. Para ganhar pontos na lei do carma, me vejo agora mudando alguns hábitos: quase já não olho mais com sede de vingança para aquela pasta de print screens de conversas comprometedoras que mantenho em meu computador desde 2011. Como recompensa, espero nascer na próxima vida com algum talento musical.