Maldito I-food

Já era quase uma da manhã e não tinha nada pra comer no hotel. Tínhamos passado cinco horas no estádio para o show dos Rolling Stones, onde só conseguimos dividir uma porção de batatas fritas e alguns cookies integrais, após um almoço mirrado e um pedaço de bolo mofado na padoca das redondezas. O recepcionista sugeriu que baixássemos um app de delivery. Escolhemos a opção que chegaria mais rápido: esfilhas gigantes. Meia hora após fazermos o pedido e já capengas de cansaço, descemos para recepcionar nossas esfilhas de braços abertos no saguão do hotel. Mas elas estavam atrasadas.

Todos que passavam pelo saguão nos olhavam de canto de olho, porque vestíamos roupas muito escrotas – eu estava com uma camiseta que uso pra dormir e com os shorts sujos dos esbarrões com cervejas alheias no show. Minha prima estava com o cabelo bagunçado e havaianas. Nossas maquiagens estavam completamente borradas e estávamos particularmente putas da cara porque mais cedo os táxis queriam nos cobrar cem reais por um trajeto de cinco quilômetros e demoramos muito para encontrar um que aceitasse cobrar pelo taxímetro.

Nos esparramamos nos sofás cor de rosa e observamos enquanto toda a produção do show dos Stones entrava no hotel. Olhamos fixamente pra eles por uns segundos, acho que na esperança de ver se eles tinham algo pra comer.

Eles não tinham. Um dos rapazes, loiro e bonitão, fez um movimento proposital para que o crachá dele com a logo da banda se destacasse enquanto passava por nós. Outro bonitão, negro com dreads, carregava uma câmera e ficou olhando quieto pras tatuagens da minha prima. E nada das esfilhas.

Ligamos no local do delivery. Aparentemente tinha ocorrido um engano – não havia pedido algum registrado em nosso nome. Maldito I-food. Refizemos o pedido e morremos um pouquinho. Os estômagos roncavam. Os rapazes da produção da banda passaram por ali de novo e, desta vez, o rapaz de dreads nos mandou um tchauzinho, nós retribuímos e ele foi até nós. “Vocês estavam no show?”, perguntou. Ele se dizia inglês, mas não tinha sotaque inglês. Fazia o tipo quietão misterioso, falava quase sussurrando, e então decidir quebrar o gelo contando sobre nossa saga das esfilhas. Ele não sabia o que eram esfilhas. “É algo vegano?”, perguntou. “Não, é tipo uma pizza sem molho de tomate”, esclareci.

Minha prima perguntou sobre o paradeiro de Mick Jagger. “Ele está em um hotel mais chique, estou  indo pra lá para fumar um e encontrar uns amigos”, gabou-se. Ele perguntou o número de nosso quarto e se estaríamos ali mais tarde. Demos o número sem pensar muito a respeito, dissemos que sim, e ele foi embora para a festinha com Mick, sem nos convidar.

Quando as esfilhas chegaram, as devoramos em dois minutos. Estavam bem mais ou menos. “E se o dreadlouco aparecer aqui de noite??”, perguntei, retornando à razão. “Ah, não vai, né”, ela respondeu. Fazia sentido. Se vinte minutos depois nós já não nos lembrávamos mais nem do nome e do número do quarto dele, ele jamais se lembraria dos nossos após fumar maconha com a galerinha do Mick.

Tomei um banho, vesti a mesma camiseta – agora, fedendo a esfilhas – e fomos dormir. Meia hora sono adentro, acordo com o som de alguém batendo na porta. Entrei em leve desespero. Olhei pra prima, que dormia profundamente, e fechei também os olhos, tentando ignorar a situação.

-PÁ, PÁA PÁA

As batidas tomaram um tom mais agressivo. Cutuquei a prima. “Sarah, estão batendo na porta!!”, sussurrei. “Acho que é o dreadlouco!”. Ela levantou a cabeça, me olhou impaciente e sussurrou “SHHHH, eu ouvi, fica quieta!!”. Fiquei quieta. Não foi preciso termos um diálogo complexo para entrarmos em um consenso sobre por que aquela seria uma má ideia: estávamos descabeladas, fedendo a esfilhas e tenho quase certeza de que eu tinha largado uns três sutiãs no caminho do banheiro. Nossos pés doíam e aquela comida tinha deixado uma azia que duraria uns dois dias em nossos estômagos. Não era o melhor momento para trocar uma ideia com o produtor misterioso inglês dos Stones em um quarto de hotel bagunçado. Ao longo da próxima meia hora, o interfone tocou duas vezes. Não atendemos.

No dia seguinte, enquanto tomávamos café em uma sala enorme com o ar condicionado no talo, nos perguntamos o que o cara de dreads queria. Quer dizer, é meio óbvio o que ele queria, mas começamos a pensar na hipótese de ele percebido a gafe e retornado lá para nos chamar pra festinha no hotel dos Stones. O que o Mick diria sobre nossas roupas fedendo a esfilhas?

Perdemos nossa única chance de saber. Maldito I-food.

 

Anúncios

Escolhendo livros pelas capas

Texto por Julliana Bauer

De uns tempos pra cá, passei a escolher os livros pelas capas. Edições econômicas ou de bolso não têm a menor chance de entrar na minha coleção – quero capas com ilustrações caprichadas ou feitas num material especial. Entendam que isso não tem nada a ver com o preço, tanto que a maior parte dos livros que adquiri recentemente foi encontrada nos sebos do São Francisco. Mês passado eu revirei três deles até achar uma edição com uma capa decente para O Grande Gatsby e acabei indo pra casa com uma edição de mais de trinta anos que contava com uma foto de Mia Farrow estampada na contracapa.

Acredito que essa mania inconveniente tenha começado no ano passado, quando aos 23 anos eu finalmente descobri a frase eficiente para manipular a minha mãe: “Estou pensando em sair de casa”. Após ouvir alguns argumentos como “mas com o seu salário?” ou “não tem por que sair de casa se você não vai se casar”, esperei alguns minutos em silêncio e comuniquei então o meu desejo de colocar todos os meus livros na estante da sala principal. Eu pedia para fazer isso já há muito tempo, mas minha mãe nunca sequer aceitou minhas ideias para mudar um sofá de lugar, quanto mais para decidir o que poderia ou não ser colocado na estante da sala de estar. Não sou lá muito boa com manipulações e por isso tive que segurar a risada maléfica de vitória quando vi que ela cedeu instantaneamente.

Tive que sair pela casa resgatando meus livros – alguns estavam no meu armário, outra pilha deles estava em meu criado mudo e eu até havia entulhado um bom tanto deles no quarto abandonado do meu irmão, que saiu de casa para procriar há pouco mais de um ano. Retirei alguns objetos decorativos medonhos que estavam na estante e coloquei ali meus livros de acordo com categorias que estabeleci na hora. Tem uma divisória inteira dedicada a biografias relacionadas aos Rolling Stones, o que me torna uma das jornalistas paranaenses com maior conhecimento de detalhes inúteis sobre a vida do Mick Jagger – como, por exemplo, que sua ex-esposa Jerry Hall tinha uma cecê que deixava Andy Warhol inconformadíssimo.

Depois disso, a coisa só piorou. Parei de pegar livros em bibliotecas. O que me interessa, no momento, é rechear a estante. Tive que estabelecer um novo ritmo de leitura para dar conta de minhas novas aquisições. Ao começar a ler um novo livro, divido seu número total de páginas por sete, para saber exatamente quantas eu terei que ler por dia para terminá-lo em uma semana. Eu não lia com tanta frequência desde o ensino médio, quando eu colocava um livro de ficção escondido no meio do livro didático para não ter que prestar atenção em aulas absolutamente monótonas, como física ou química. A verdade é que eu leio bem menos do que minha família e meus amigos pensam, a julgar pela quantidade de livros que ganho em datas comemorativas.

Ainda na semana passada eu falei sobre essa culpa da leitura escassa com uma amiga que é bem mais inteligente e culta do que eu, e aparentemente eu não sou a única pessoa que sofre de consciência pesada por não ter vencido os principais clássicos da literatura. Victor Hugo? Nunca li. Dostoiévski? Nem sei qual o estilo de sua narrativa.

Em Buenos Aires, pedi ao vendedor de uma espécie de sebo que encontrei na Santa Fé para que me ajudasse a achar livros do Cortázar com capas interessantes. Ele não entendeu muito bem a proposta, me olhou com desconfiança e me empurrou uma edição de Salvo el Crepúsculo com uma capa das bem comuns e ainda teve a pachorra de me cobrar cinquenta pesos. Pedi também que me indicasse algum outro autor argentino, e então ele me mostrou uma antologia de poemas do Juan Gelman que fez com que a minha compra lá valesse a pena, e desta vez eu não me refiro à capa do livro.

Tenho pavor de parecer pedante, e por isso tentei ser justa com o posicionamento dos livros na estante. Aqueles que considero medíocres estão lado a lado com autores consagrados. Tem O Segredo ao lado de Madame Bovary. Tem Cem Anos de Solidão ao lado de Cinquenta Tons de Cinza. Não seria justo colocar Rhonda Byrne e E. L. James em um canto escondido da prateleira. Pensando bem, elas me renderam conversas muitíssimo mais divertidas do que o García Márquez ou Flaubert jamais fizeram.