Previsão do tempo

Minha primeira professora de italiano em Florença era velha, muito velha. Tão velha que fazia piadas sobre a própria idade, piadas ótimas e que sempre acabavam com uma risada de ronquinho, olhos fechados, um bater de palmas e uma ajeitadinha no casaco. Ela tinha dentes muito longos, cabelos curtinhos e grisalhos e dizia fumar muito, mas eu acho que nunca a vi fumando.

Já na primeira semana, descobri que Carla – este era seu nome – era minha vizinha. Morávamos as duas na rua Borgo Pinti, ela com a mãe, de idade incalculável e com quem saracoteava pelos mercados do quarteirão; e eu com quatro colegas de quarto de nacionalidades diferentes. A cada mais ou menos três dias, ela me abordava no início da aula pra me contar que tinha me visto correndo na rua e que era pra eu tomar cuidado com o asfalto molhado. Choveu muito naquela época e por isso a professora se enrolava em uma camisa, um cardigan e um casaco cinza que, a cada ajeitadinha pós piada sobre a velhice, revelava uma etiqueta gigantesca: Gucci.

Paciente e repetitiva, ela tinha um gosto particular por fazer aluno por aluno repetir a conjugação de um novo verbo em voz alta, o que deixava Anna, uma holandesa de vinte anos e cabelos ruivos, muito vermelha. As aulas eram sempre iguais. Enquanto os atrasados iam chegando aos poucos, ela lia a previsão do tempo. Ela amava a previsão do tempo. Em seguida, fazia uma pergunta sobre nossa rotina, sempre de acordo com o tempo verbal que estávamos aprendendo. Se a ideia era falar sobre passado, ela pedia para que explicássemos detalhadamente tudo que havíamos feio no dia anterior, desde o momento em que havíamos saído da sala de aula, até o momento em que tínhamos ido dormir. Se a aula era sobre o futuro, ela se adiantava e perguntava sobre nossos planos não apenas para a próxima tarde, mas para os próximos dez anos. Eu provavelmente menti muito.

Em nossos jantares de sexta-feira, elaborávamos teorias sobre Carla. Provavelmente ela tinha optado por não ter filhos para poder gastar o dinheiro das intermináveis escolinhas com closets repletos de casacos Gucci – uma escolha que respeitávamos e aplaudíamos, apesar de nunca comprovada. Acreditávamos convictamente que há algumas décadas houve uma fila de fiorentinos querendo se casar com Carla, mas ela rejeitava todos, pois estava fabulosamente bem sozinha com suas bolsas Prada.

Nos intervalos íamos ao bar mais próximo para tomar um café e comer biscoitos, e foi assim que descobri que Carla era conhecida na escola por ser a melhor professora dali. Era a única a olhar para o diretor com um muxoxo de desprezo quando ele a interrompia diariamente para anunciar os eventos sociais da semana.

Minhas amigas que estavam na turma iniciante tinham aulas com Nico, o professor galã. A alegria da mulherada era encontrar Nico dando sopa na Piazza Santo Spirito depois do jantar de sexta, ele sempre estava meio bêbado e se esquivava elegantemente dos assédios múltiplos de alunas de todos os continentes. Nico tinha métodos diferentões de ensino, organizava eventos gastronômicos e levava os alunos nas melhores gelaterias de Florença. Se Carla era tradicional, Nico era um rockstar. Uma noite o encontramos na praça, chapado e rindo com um amigo, feito um adolescente que acaba de fazer barulho de peido com o sovaco. Gabou-se das viagens que já tinha feito, da coleção de namoradas de diversas nacionalidades que faziam parte de seu currículo e do fato que tinha acesso a maconha, mas que não poderia nos oferecer. “Seria irresponsável”, dizia, controlando-se para se manter sério por cinco segundos.

Minha melhor amiga na cidade engatou uma paixonite platônica por Nico. Esperava por mensagens dele que nunca chegavam, sorria e chacoalhava o cabelo quando o via nos corredores, falava obsessivamente sobre ele. Um dia, dois meses após sua partida da cidade, ela recebeu um e-mail dele, com uma daquelas mensagens que os homens às vezes se dão ao trabalho de nos passar apenas para nos relembrar que um dia fomos a fim deles: “Olha, você é linda, mas me desculpe, não me soube corresponder aos seus sentimentos, passar bem”.

Em meu último dia de aula, vi que a nova turma de Nico era composta por um grupo grande de meninas mexicanas que falavam muito alto e pareciam animadíssimas em estar sob a tutela do professor mais estrela da escola. Nunca tive uma aula com Nico. Mas o fato é que enquanto Carla nos ensinava gramática com uma habilidade Jiraiya, os alunos dele mal conseguiam pedir uma entrada em um restaurante sem soar como o Yoda.

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Carros roubados

” Você quer roubar um carro?”

Foi com essa frase que Brian abordou Mariela em uma festa universitária que acontecia em um bar no centro de Florença, em maio de 2014. Ele não era universitário – e sim, um marinheiro americano que estava na cidade apenas de passagem. Ela, estudante de design que nunca soube ao certo explicar sua origem – seus pais eram filipinos, mas por alguma improvisação ou capricho do destino, ela acabou nascendo na Alemanha e conseguindo cidadania estadunidense por meio do pai diplomata. Mariela cresceu na Holanda e se identificava como holandesa, muito embora ela não falasse sequer uma palavra de holandês e não tivesse amigos holandeses, por ter estudado apenas em escolas americanas caríssimas.

Cansada de viver com os pais e as duas irmãs em Amsterdã, viu no curso de design em Florença a desculpa perfeita para adicionar mais um país à confusão invejável que era seu mapa de origem. Levou cinco anos de estudos na Itália para que ela tomasse a iniciativa de aprender italiano, e foi por isso que eu a conheci em uma segunda-feira chuvosa quando, em saltos muito altos e calças muito justas, ela veio saltitando em minha direção para me convidar para um tradicional jantar que acontecia entre as garotas da sala de aula.

“Você fala inglês com um sotaque tão americano, nem parece que nunca morou lá”, ela me falou, em tom de elogio, como se estivesse surpresa que eu não me comunicasse por meio de tambores. Por algum motivo estranho, agradeci, como se aquilo fosse realmente um comentário lisonjeiro. É que Mariela era uma das meninas mais bonitas que eu já tinha visto, do tipo que faz com que as pessoas queiram muito ser suas amigas – até porque ninguém quer ter uma menina bonita como ela como inimiga. Ela tinha traços orientais, bochechas altas e cabelos muito pretos e volumosos, com cachos que se formavam ao longo do comprimento e terminavam em uma cascata perto da cintura.

Acho que ela foi a primeira pessoa a ser legal comigo quando cheguei à cidade, então eu a apresentava a todas as pessoas que eu ia conhecendo pouco a pouco. Por morar em Florença há mais tempo que as outras meninas, Mariela agia como uma forma de guia local – sabia dos melhores restaurantes, já tinha ido a todas as boates e conhecia os melhores gelatos. Aos 25 anos, nunca tinha tido um emprego na vida, graças ao pai rico, que permitia que cada uma das três filhas vivesse como desejasse em uma parte diferente do mundo.

Estive apenas uma vez em seu apartamento alugado no bairro Santa Croce. Seu quarto era o maior da casa, e a porta, grande e antiga, era completamente marcada porque ela havia brincava de tiro ao alvo na madeira escura. O acordo era que faríamos um trabalho para a aula da semana seguinte, mas passei a tarde cochilando enquanto a observava atirar dardos e destruir pouco a pouco a parede centenária.

Mariela passava três horas por dia na academia que ficava na rua da minha casa, cuja mensalidade de 90 euros me causava arrepios. Os exercícios lhe eram passados por seu namorado via skype, e ela dava longos discursos sobre os melhores horários para ingerir carboidratos, enquanto nos estufávamos de pizza em um restaurante próximo à escola. “O Brian não pode nem sonhar que estou comendo isso”, choramingava. Fazia pouco tempo que ela tinha aderido ao vegetarianismo, após uma tentativa frustrada de se tornar vegana –  a experiência durara menos de 48h até que ela se sentisse fraca, faminta e muito desmotivada, então ela decidiu se contentar em cortar apenas a carne da alimentação. Ela me contava frequentemente sobre um garoto brasileiro com quem tinha namorado por algumas semanas, mas com quem tinha terminado por perceber que era “muito histérico e infiel”. Dei de ombros. Parecia verídico.

Por coincidência, Mariela dividia o apartamento com Anna, uma holandesa de 19 anos e olhos assustados que estava passando uns meses na Itália antes de iniciar a faculdade de Moda em Amsterdã. As duas chegavam sempre juntas à escola, aos jantares e a qualquer passeio que combinávamos de fazer juntas, de forma que pareciam inseparáveis. Mariela era alguns anos mais velha que Anna e, por isso, a tratava como um tipo de irmã quando saíamos em grupo – na verdade, todas nós fazíamos isso, de forma que Anna era a única a ser acompanhada até a porta de casa por todas nós quando voltávamos de madrugada de alguma noitada.

A única coisa que Anna e Mariela tinham em comum era a Holanda. Se Mariela nunca tinha recebido um salário na vida, Anna, com seus poucos anos, tinha trabalhado dois turnos por meses para economizar o dinheiro para manter-se na Itália. Em um passeio a um museu na companhia da holandesinha, descobri que ela odiava Mariela. Precisei parar por um momento. “Mas por que, Anna? vocês até mesmo se vestem como se fossem irmãs”. Ela então me contou que não suportava que Mariela se dissesse holandesa sem nunca ter se dado ao trabalho de aprender o idioma. “Não te parece estranho ela só ter tomado a iniciativa de aprender italiano agora, depois de cinco anos na Itália?”. Sim, parecia. Mas ao mesmo tempo, me parecia também uma atitude muito americana, e embora Mariela se apresentasse como holandesa, ela era o retrato de todas aquelas garotas que vemos em reality shows americanos.

Aparentemente, Mariela não ajudava muito nas atividades domésticas, passava horas falando alto com o namorado no skype e deixava longos fios de cabelo preto entupindo o ralo sem cerimônia alguma. Ao ouvir o relato de Anna, as demais garotas começaram a também desabafar. Era unânime: todas detestavam Mariela.

A informação me pegou de surpresa. Apesar da  fama de superficial, Mariela tinha me contado com detalhes toda a história dos Medici, que tinha aprendido ao longo das aulas de design. “Deveriam fazer uma série sobre eles, como fizeram sobre os Tudors”, concluiu, pensativa. Ao longo de um de nossos almoços na pizzaria, ela me contou sobre uma aposta que tinha feito com o namorado – aquele que conseguisse passar mais tempo sem se masturbar, teria que pagar ao outro um jantar.

“Mas como você vai saber se ele não está mentindo?”, eu perguntei.

“Ah, acredite, eu vou saber”.

Pascale, minha colega de apartamento e, de certa forma, minha amiga mais próxima naquele contexto, também detestava Mariela. Ao saber que ela tinha demonstrado interesse em ir conosco à Sicília, Pascale foi categórica: não a queria conosco em Palermo. Fiquei sem resposta.

Com o passar dos dias, fui me afastando lentamente de Mariela. Como não sabia como dar a má notícia a ela, a evitava nos corredores da escola. Ao perceber a infantilidade da coisa toda, peguei o telefone e a convidei para ir comigo a Casa Buonarroti, um museu sobre Michelangelo que eu sabia que ela ainda não conhecia. “Não posso, se eu não for a academia hoje, meu namorado me mata”, justificou. Ela começou a sentir o clima hostil das demais garotas e começou também a se afastar, indo embora de vez em um feriado com a desculpa de que iria visitar os familiares. Anna me mandou uma mensagem naquela tarde: “the bitch is gone”.

Tudo o que soube sobre Mariela desde então vem de suas redes sociais: terminado o curso de italiano em Florença, foi visitar o namorado nos Estados Unidos. Voltou em seguida para a Holanda. Engatou, então, mais um curso em Milão. Virou vegana de vez. Semana passada, ela atualizou a foto de perfil: acompanhada de uma amiga loira, vestia um maiô colorido, fazia cara de susto e tampava a boca com a mão esquerda. Ao fundo, uma praia rochosa italiana, acompanhada da legenda: “capa de cd de rap dos anos 90”. Todas as meninas do nosso pequeno grupo curtiram a foto.

Milão e eu

 

Milão, ❤

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Milão não é uma daquelas cidades que tenham me causado amor à primeira vista. Na verdade, nas três vezes em que a visitei, tive que me esforçar para procurar coisas que gostasse na cidade, tão grande e urbana, onde turistas se enfileiram para usar o banheiro McDonald´s e homens parecem competir pelo prêmio de cabelo mais estiloso. Meu descaso com a cidade sempre revoltou Nicco, que em nosso primeiro passeio pelos canais de Navigli, não conseguia disfarçar que preferia que eu tivesse mentido por educação e dito que Milão era a cidade mais incrível que já havia conhecido.

“É um pouco como São Paulo”, ele tentava argumentar, gesticulando em desespero ao me ouvir rebater que detesto São Paulo. Percebi que deveria reconhecer o esforço do rapaz para trazer uma referência mais próxima da minha realidade para tentar despertar em mim alguma ternura pela cidade que ele havia escolhido para viver, tão longe daquela em que nasceu, no sul da Itália. Nicco tinha um melhor amigo e colega de quarto que também se chamava Nicco. Juntos, eram o estereótipo do homem milanês, sempre vestidos com roupas alinhadíssimas. Mas nenhum dos dois eram nascidos ali. A verdade é que ambos endeusavam o estilo de vida que lhes era propiciado pela cidade e por seus empregos, então saíam para comer caviar e outras gororobas elitizadas em festas povoadas de jovens de 30 e poucos anos em que a temática escolhida era “crise” – ironicamente, é claro. Fotografar os rótulos dos vinhos que custavam um salário mínimo em um país em desenvolvimento era obrigatório nessas festas, bem como fazer fotos que mostrassem os looks completos dos convidados – sapatos Dolce&Gabbana nas mulheres, sempre muito magras, e mocassins e paletós nos rapazes.

Nicco me perguntou por que eu não tinha amigas italianas. Respondi que não sabia, mas que as italianas não se interessavam muito por mim, então eu passei a também não me interessar por elas. Sempre as achei  até elegantes, com suas roupas em cores sóbrias e sapatos impecáveis, mas aquele ar de superioridade, ainda mais forte nas milanesas, não me intimidava. Sororidade ainda não era um tema recorrente por lá. Meu maior pavor era o de começar a achar bonitas as sobrancelhas que estavam na moda entre as italianas – muito finas e arqueadas, por isso eu evitava salões de beleza. Contei que eu até tinha tentado fazer amizade com Alessandra, uma advogada que dividia apartamento comigo em Florença, mas que a nossa relação tinha tomado um caminho amargo quando ela retirou minhas roupas ainda úmidas do varal para pendurar as calcinhas dela no lugar. Ele riu e disse que ia me arranjar algumas amigas italianas, mas isso nunca aconteceu.

Milão é uma daquelas cidades onde é preciso morar para aprender a amar, argumentei a Nicco – assim como São Paulo. Um passeio pelos pontos turísticos não basta, jantar em um restaurante da moda também não. É preciso viver a cidade, fazer amigos nela, descobrir lojas e bares que se adequem ao seu gosto e memorizar as linhas de metrô. Caso contrário, você não a entenderá, se sentirá um caipira nela no momento em que sai da Estação Central e se depara com aquelas ruas todas iguais que levam a ruas menores com outdoors da Valentino. É preciso encontrar algo que te leve a São Paulo, é preciso encontrar algo que te leve a Milão, e no momento, a única coisa que me traz a Milão é você, Nicco.

Nicco sempre falava comigo um pouco devagar, se certificando de pronunciar muito bem cada palavra, e por vezes arriscava um pouco de português. “Ax mininax de Minaix Geraix” era uma frase cantadinha recorrente, porque sua noção de música brasileira era  Jammil e Uma Noites e aparentemente ele tinha feito seis meses de aulas de português com uma professora carioca quando ainda estava na faculdade. Não é como se ele achasse que eu era burra ou algo assim. O argumento dele era que eu precisava praticar meu italiano e que o inglês dele andava enferrujado. Ele me perguntava sobre a situação política e econômica brasileira, sobre os meus livros preferidos e sobre Cuba – cidade que ambos visitamos no mesmo ano, antes de nos conhecermos. Quando eu ocasionalmente o convidava a largar o apê em Milão para viver como hippie comigo em uma praia colombiana, ele me dava lições de moral sobre o capitalismo e como ele é benéfico e bem sucedido quando há igualdade. Mas onde há igualdade, Nicco?

Apesar das extravagâncias, Nicco e Nicco eram pessoas modestas. Tentei ponderar que eles vinham de uma realidade muito diferente da minha, não de um país onde organizar encontros para comer caviar antes dos 35 anos fosse considerado algum tipo de ofensa social – talvez apenas um pouco cafona. O apartamento que dividiam no centro de Milão era pequeno e simples, com aquelas características comuns a apartamentos habitados por homens: louças descombinadas, copos lascados e uma cortina manchada pelo sol viviam tristes na mesma sala de TV, onde os dois recebiam convidados todos os domingos para almoços feitos em casa. O box do banheiro era minúsculo, desproporcional ao restante de espaço que sobrava ao redor e que permitia que uma ginasta fizesse um espacate entre a pia e a privada sem temer bater o dedinho do pé em algum móvel. No lugar de cama, Nicco tinha apenas um colchão no chão, onde deixava sempre à mão uma garrafa de água de dois litros e o carregador do celular. Eu nunca perguntei, mas sabia que o aluguel devia custar uma pequena fortuna.

Ele me disse que gostava de sair comigo porque me achava divertida, e como foi a primeira vez que alguém usou esse adjetivo para me descrever, resolvi acreditar. Quer dizer, já tinham me dito que me achavam engraçada, mas divertida tinha sido a primeira vez. Comentei isso com Nicco em um bar escolhido por ele, onde cada drink custava inacreditáveis doze euros. Ele se levantou para buscar nossos Amaretto Sours que tinham ficado prontos e, quando retornou, deu um gole, pousou o copo sobre a mesa e disse que talvez eu e Milão tivéssemos isso em comum: talvez fosse necessário viver um pouco em nós para captar o que nós realmente tínhamos a oferecer além de nossas aparências, e talvez fosse por isso que eu e ela – a cidade – não tivéssemos nos dado bem logo de cara. Nós, mulheres, por vezes nos estranhamos quando reconhecemos uma na outra as mesmas características. Acho que a frase não tem exatamente o impacto que ele tinha em mente quando a formulou naqueles quarenta segundos em que se ausentou para buscar as bebidas, mas mesmo assim, aceitei a analogia como um elogio.

 

Majirel 7.4

A melhor parte de aprender um novo idioma é que, inevitavelmente, assumimos uma nova personalidade quando o colocamos em prática. A parte ruim é que nem sempre essa personalidade é interessante. Esse negócio de falar uma nova língua compromete muito a espontaneidade. No desgaste de ter que traduzir rapidamente cada frase a um idioma diferente, me flagro evitando assuntos que eu ainda não domine na nova língua e opto por um possivelmente mais leve, algo que eu consiga traduzir instantaneamente pra três línguas sem precisar sacar o celular da bolsa pra consultar o tradutor do google. Então, sempre que um italiano me pergunta sobre o cenário político brasileiro, de alguma forma acabo falando sobre tintura capilar.

Sobre homens italianos

“E os ragazzi?”. Essa pergunta foi a que mais ouvi enquanto estava na Itália, quando voltei da Itália e sempre que alguém que eu acabo de conhecer descobre que estive na Itália. Talvez por culpa de Benedito Ruy Barbosa, talvez por causa das aparições semanais da Laura Pausini no Faustão nos anos 90, o estereótipo do italiano em que crescemos querendo acreditar é: lindíssimo, romântico, alto, e que e te cozinha o jantar sem camisa enquanto você bebe vinho deitada em um sofá revestido em veludo.

Mas os estereótipos estão aí para serem destruídos, não é mesmo?

Os italianos são bonitos? 

Sim, com certeza. Mas assim, é uma beleza que quase sempre cabe em até um metro e setenta – e olhe lá. O que não é ruim, mas vai contra o estereótipo do italianão grandão sem camisa. De uma forma geral, os italianos têm uma estatura mais modesta e um porte menorzinho do que o dos brasileiros – coisa que eles compensam em cabelo. Os italianos cultivam cabelos maravilhosos, e por lá agora existem basicamente três tipos principais de cabelos de italiano: o cabelo ondulado/cacheado e muito cheio; o cabelo raspadinho nas laterais estilo jogador de futebol e o já globalizado coque masculino.

Na Itália, principalmente em cidades hypadas como Milão e Florença, os homens se vestem muito, muito bem. Os sapatos são sempre impecáveis, o terno é sempre ajustado, e eles andam de bicicleta de terno e sapato social com mais segurança do que Gisele Bundchen desfilando na passarela da Colcci.

Os italianos são românticos?

Bom, aí depende da tua ideia de romance. Eu passei por umas situações meio chatas, tipo uma em que um cara de uns cinquenta anos me seguiu até em casa, bateu na minha porta e me chamou pra almoçar and ir pra casa de praia dele no próximo final de semana sendo que eu nunca o tinha visto antes. Isso tudo porque ele tinha me ouvido conversando com uns amigos no bar e, ao saber que sou brasileira, achou que isso significasse que eu acharia maravilhoso ter um cara mais velho que meu pai me seguindo até meu apartamento. Quando pedi pra ele ir embora e tentei fechar a porta, ele enfiou o pé entre a porta e a parede para que eu não conseguisse fechá-la e foram minutos de tensão tentando convencê-lo a ir embora por bem. Isso normalmente faria um cara normal entender a mensagem e desistir de você, mas o sujeito ainda deu um jeito de descobrir meu telefone, a escola em que eu estudava e de me esperar na saída por uns três dias seguidos, até eu ter que pedir ajuda para me livrar dele com segurança.

É que assim como nós crescemos com o estereótipo do italiano romântico Terra Nostra, eles aparentemente cresceram com o estereótipo da brasileira-liberal-topa-tudo. Existe brasileira liberal-topa-tudo? Existe sim, inclusive este é um exemplar maravilhoso e válido de brasileira, mas também existe brasileira freira, brasileira defensora do Bolsonaro e brasileira gótica suave que quer casar virgem. Ser liberal  e ir pra um país estrangeiro querendo sair geral com os caras de lá é normal, o que não é normal é um cara ser louco psicopata e te seguir até a sua casa e insistir após ouvir um não como resposta.

É que se trata de um país ainda muito machista. Ouvi de um professor da escola em que estudava, por exemplo, que eu não poderia ser muito boa em boxe porque sou mulher. Já uma amiga levou uma PEDRADA na cabeça quando ignorou as cantadas de um vizinho mal educado. Quando olhou pra ver de onde tinha vindo a pedra, o bonitão estava lá, com um sorriso no rosto e acenando, alegremente: “ciao, bella!“. Quando contamos o incidente para outro italiano, ele riu e disse que achou super fofa e romântica a atitude do vizinho. Vai entender.

É claro que existem italianos bem diferentes desses tipos, existem italianos hippies de dread que te oferecem maconha em uma praça com nome de santo, italianos não muito interessados em mulheres, italianos que só querem amizade pura e verdadeira mesmo você não tendo piscina em casa. Tem italiano que é bonito, educado, gentil e nada machista – tudo isso de uma vez só.

O fato é que eles são mais diretos. Se estão interessados em uma moça, a abordam e a chamam pra sair, simples assim. No restaurante, na rua, no bar, eles não perdem tempo. Não acho que essa seja uma característica ruim, inclusive corta muito do drama da vida quando a abordagem não é psicótica. Um amigo disse que muitos italianos gostam das brasileiras porque somos mais “divertidas” do que as italianas – que eles acham sérias demais. Mas sinceramente, acho que as mulheres de lá têm todos os motivos do mundo pra não darem moleza pros rapazes.

italian

O piriri de cada viagem e o trem noturno para a Sicília

Dor de barriga não é um assunto fácil, nem popular, mas acontece. Acontece com todo mundo todo ano, e com uma frequência maior em viagens. Piriris testam relacionamentos amorosos e de amizade, deixando os amigos ou amantes mais próximos ou os afastando de vez. Você nunca vai saber se uma pessoa gosta mesmo de você até vocês sobreviverem juntos a uma diarreia. Esses tempos encontrei uma amiga que não via há meses em Milão, e a primeira frase que ela me disse, ao chegar no hotel e me dar um abraço de oi, foi: “Agora me dá dez minutos que preciso fazer cocô”. Eis aqui uma amizade inabalável.

E daí que eu sou sempre a pessoa que passa mal em viagens. Nem sempre tenho dor de barriga, mas já conquistei uma cistite e uma torção de tornozelo num período de dez dias em Amsterdã. Uma tia se recusou a falar comigo por três dias por não acreditar em uma queda de pressão que sofri no Vaticano e que fez com que eu e uma prima debandássemos do grupo pra pegar um arzinho fresco longe das estátuas de bebês feiosos. Em Cuba, camarões tão baratos que me fizeram brindar ao socialismo e a Fidel voltaram mais tarde para me assombrar por três longos dias.

Quando viajo com amigas, já aviso das probabilidades de elas acabarem me acompanhando a um médico do seguro em algum momento, para que não aleguem surpresa depois. Mas em minha última viagem, que teve início como uma aventura solo e teve continuidade com uma australiana que conheci no caminho, tudo foi diferente. Eu não adoecia. Nem uma dorzinha de ouvido. Corria todos os dias em um frio de cinco graus e minha saúde permanecia gloriosa. Quando minha garganta ameaçou inflamar, comprei um spray de própolis brasileiro superfaturado, ignorei a febre e segui com a vida, inabalável.

Fui a Palermo com um trem noturno que partia de Roma. Cerca de treze horas de viagem dormindo em uma cabine com Pascale – a amiga australiana, e dois estranhos. Poderíamos ter pego um avião, que custaria o mesmo e faria o trajeto em 40 minutos, mas uma série de infortúnios com companhias aéreas low cost me fizeram jurar nunca mais ser muquirana com passagens aéreas e virar uma pessoa de trem. Chegando na cabine, tomei um valium da Pascale para encarar a longa viagem e descobri que os estranhos seriam um casal fofíssimo de sicilianos que tinham ido a Roma visitar os filhos. Pegavam aquele trem há quinze anos, sabiam o protocolo de cor, roncavam muito e resmungavam durante a madrugada.

Trem noturno pra Sicília: essa noite foi L0k4

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No dia seguinte, acordei lá pelas sete com a senhorinha me oferecendo Plum Cake, um bolinho tipo Ana Maria, só que melhor, porque até quando se trata de comida industrializada os italianos manjam mais que o resto do mundo. Comi feliz da vida, anotei as dicas sobre a Sicília que o velhinho me passou e segui com a viagem. Cerca de duas semanas depois, já com passagem marcada para voltar sozinha a Roma no mesmo trem noturno, conhecemos um casal de italianos que nos convidaram a jantar com eles.

A cada garfada, o rapaz me metia três tipos de medos diferentes. Roma? Eu seria assaltada na certa. Andar no Roma Termini depois das 20h? Só para suicidas. Mas o que o fez engasgar em uma garfada de farofa foi descobrir que eu viajaria de trem noturno sozinha. Estupros, saques e até mesmo uma espécie de gás do sono utilizado por quadrilhas especializadas me aguardavam naquela viagem, ele alertou. “Siga minha dica. Se você não tem verba pra isso, ligue agora pro seu pai e peça cem euros emprestados para uma passagem de última hora de avião”, ele me suplicou, segurando minha mão teatralmente no meio do restaurante.

Não dormi direito naquela noite. Apesar da Pascale tentar me tranquilizar, mencionando nossa ótima primeira experiência com o trem noturno, fui ao google buscar em português, inglês e italiano todos os perigos que me aguardavam na viagem programada para dali a três noites. Que erro. Aparentemente ninguém vai a fóruns de viagens relatar experiências normais com trens noturnos. Algumas pessoas alegavam ter acordado sem sapatos, sem pochete e sem mochila, juravam ter sido drogadas por estranhos que ofereciam doces. Lembrei-me do plum cake e do valium da viagem anterior. A ignorância realmente é uma bênção.

Eu já estava prestes a levantar a bandeirinha de “estamos há 75 dias sem piriris de viagem” quando, talvez por causa da preocupação, talvez por causa de duas semanas regadas a muito vinho e frituras, acordei na manhã em que pegaria o trem noturno com a pior dor de estômago que já senti na vida. A dor foi migrando para o sul e passei aquele dia todo me revezando entre a cama e o banheiro. Me perdoem se isso é gráfico demais, mas como eu disse, piriri nunca é um assunto fácil. Minha sorte era a Pascale ser estudante de medicina e dar conselhos super profissionais, como: “se entupa de coca-cola que logo passa”.

Seis horas antes do horário marcado para a viagem, suspendi os líquidos. Uma hora antes, amarrei todos meus documentos e dinheiro perto do meu sutiã, vesti uma jaqueta bem fechada, me muni de uma faca de cozinha ameaçadoríssima, uma cara de poucos amigos, um pouco de soro caseiro em uma garrafa de água e entrei no trem. Apesar de meu único contratempo naquela viagem ter sido o pé sujo da passageira do beliche de cima ter ficado mais perto do meu rosto do que eu gostaria, eu não preguei o olho a noite toda e respirei mais fundo a cada vez que sentia que precisava ir ao banheiro.

Bem, amigos, essa história não é lá muito bonita, mas histórias de viagens nem sempre são bonitas. Eu ainda não sei ao certo se recomendo trens noturnos. Mas a coca-cola pra curar piriri, ah, essa dica é de ouro!